2 de jul de 2018

Falência da Abril começou em 2003 contra o governo Lula


A Abril está falindo, gente. A maior editora do país vai demitir quase todo mundo. E, mesmo com esse atestado de que a minha profissão tornou-se um campo de refugiados, não consigo ficar triste.

Me sinto seguro para dizer: a falência do Editora Abril começou sobretudo com sua falência moral, em 2003, quando se declarou o inimigo número 1 do governo Lula. A decadência começou ali, com a semente da histeria na revista Veja.

A Veja tinha UM MILHÃO E DUZENTOS MIL ASSINANTES naquele momento. Era a revista mais rentável DO MUNDO. A Exame também tinha centenas de milhares. Havia muito tempo para agir, a Internet ainda não havia se consolidado, o faturamento era saudável, a parceria com a Disney parecia inquebrável. Mas, por algum motivo, os Civita resolveram transformar a credibilidade de seus titãs em instrumentos de perseguição política. Depois do Mensalão, essa tornou-se a razão de existência única da Veja.

Nunca esqueço da confissão que me fez Eurípides Alcântara em 2008, em sua sala, quando era diretor da revista: "a gente está aqui para defender o homem branco, de 40 anos, classe média. Estamos aqui para dizer o que ele quer ouvir".

Para mim, soou como a confissão de um crime. Para ele, era apenas "direcionamento editorial", mesmo que tivesse que perverter a reportagem completamente, como o fez inúmeras vezes. Foi o momento em que perdi minha inocência profissional.

A Abril inventou mil motivos para ceder à histeria, ao tribalismo dos mercados, ao sentimento reacionário. Mas quem acompanha de perto sempre soube que o ranço se deu por causa de dinheiro. Dos materiais didáticos nas escolas públicas. Da verba de publicidade do Ministério das Comunicações. Da defesa cega dos interesses políticos de seus anunciantes.

Prostituiram a minha profissão para fazer um troco, apoiaram um golpe de Estado, deram voz a figuras execráveis como Diogo Mainardi e Rodrigo Constantino. Não adiantou nada. Estão falindo. Será que valeu a pena se afundar nesse mar de lama?

Boa sorte aos amigos e colegas que sofrerão com as demissões adiante. A culpa não é de vocês.

Renato Bazan, jornalista

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