30 de jul de 2018

Democracia sem povo

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O Brasil não é para iniciantes, diz uma célebre frase atribuída ao compositor, músico e maestro Antonio Carlos Jobim.

Eu diria que o Brasil também não é para amadores.

Aqui, nada do que parece ser é realmente.

Um dos exemplos mais emblemáticos são as estórias contadas pela Rede Globo, bastante distantes da história verdadeira.

Segundo a Globo, o golpe não foi golpe, mas um impeachment normal, mesmo que decidido por um parlamento corrupto e por motivos sem fundamentos.

Segundo a Globo, Temer faz um bom governo, mesmo sendo mais corrupto que todos os antecessores e reprovado por mais de 90% dos brasileiros.

Segundo a Globo, a política de preços praticada pela Petrobrás de Michel Temer, Pedro Parente, Ivan Monteiro, MDB e PSDB é ótima para os acionistas e deveria ser mantida, apesar de péssima para todo o país.

Segundo a Globo, o preço do petróleo e dos combustíveis deveria continuar se comportando como o preço do chuchu na feira, mais uma jabuticaba brasileira.

Esta lógica desenhada pela Globo mais desinforma do que informa.

Não é à toa que o país está à deriva. A população está órfã de idéias. Perdida diante da manipulação midiática. Terreno fértil para o ódio fascista.

Sem democracia para valer, um quadro começa a se desenhar neste começo de campanha presidencial propriamente dita.

De um lado, os efeitos mais perversos deste processo todo: uma extrema-direita fascista e entreguista (outra jabuticaba brasileira), sob o comando de Bolsonaro, que aparece com mais de 15% das intenções de votos em todas as pesquisas, podendo desidratar lá na frente.

Ainda no campo da direita, a candidatura do tucano Geraldo Alckmin, que carrega grande parte das máquinas partidárias fisiológicas do país, o apoio do empresariado, do mercado financeiro e da grande mídia.

O propósito único da candidatura Alckmin é terminar a agenda que Temer começou: o desmonte do Estado brasileiro através de políticas ultra-neoliberais, talvez só vistas na Argentina nos anos 90.

Esta candidatura começou em um patamar muito baixo, diante do desgaste da política tradicional e do governo Temer, mas não nos iludamos: pode chegar a mais de 20% dos votos totais com a estrutura que vai dispor.

Do outro lado, temos o campo da esquerda, e o lulismo como a sua maior expressão no país.

Representa setores populares saudosos dos tempos de fortalecimento das políticas públicas, distribuição de renda e aumento do consumo, que ampliou fortemente o mercado interno.

A esquerda deve ter cerca de 30% dos votos totais. Porém,com Lula preso e sua candidatura substituída às vésperas da eleição, esse campo não conseguirá propor ao país de forma ampla os temas que poderia representar, sobretudo no segundo turno.

As demais candidaturas terão pouco espaço político para crescer, seja em virtude da pouca estrutura, seja porque não terão muitos elementos para dialogar com o conjunto da sociedade sem uma comunicação verdadeiramente democrática e um período eleitoral extremamente curto.

Este cenário dificilmente trará para o centro do debate questões que o país precisa realmente discutir: restabelecimento e aprofundamento da democracia, reformas estruturais para redistribuição de renda, implantação de políticas de desenvolvimento econômico voltadas para a retomada do crescimento do mercado interno e uma nova inserção internacional soberana.

O segundo turno deve reunir Alckmin e o candidato que sairá do lulismo, com vantagem estreita para o primeiro, diante da pseudo-democracia que vivemos e da enxurrada de votos nulos, brancos e abstenções que poderemos presenciar.

“Bem-vindos” à democracia brasileira para o mundo ver. Cada vez mais com menos espaço para  debates verdadeiros  e menos participação da sociedade.

Paulo Copacabana
No Viomundo

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