28 de jul de 2018

Bolsonaro odeia traficantes, mas...


Começa assim uma mensagem da embaixada do Brasil em Santiago do Chile, endereçada ao Itamaraty, sobre um telegrama que o deputado federal Jair Bolsonaro enviou àquela representação diplomática em dezembro de 2006:

“Recebi telegrama do Deputado Federal Jair Bolsonaro, pelo qual o parlamentar solicita seja transmitida mensagem de solidariedade ao ex-Capitão Augusto Pinochet Molina. Como se recorda, o Capitão Pinochet Molina foi afastado do Exército por haver feito pronunciamento no sepultamento de seu avô, General Augusto Pinochet, sem autorização e criticando os Poderes Executivo e Judiciário.”

Nela, o agora candidato pedia que a embaixada enviasse uma mensagem de solidariedade ao neto do falecido ditador chileno Augusto Pinochet. A representação pediu a Brasília como proceder. O texto integral da mensagem de Bolsonaro era esse:

“Excelentíssimo Senhor, Rogo transmitir ao Bravo Capitão Augusto Pinochet Molina minha solidariedade e admiração por sua dignidade ao não se curvar às mentiras da esquerda e honrar o nome do avô. O mundo sabe que o elevado índice de desenvolvimento humano ora desfrutado pelos irmãos chilenos em muito se deve às ações desenvolvidas no Governo do saudoso General Pinochet. Cordialmente, Jair Bolsonaro, Capitão da Reserva do Exército e Deputado Federal do Brasil.”

Sabemos que Bolsonaro nutre paixão por ditadores assassinos. O que não se sabia até agora era que ele – que gosta de apontar o bandido de estimação de seus oponentes – tem também o seu, segundo seus próprios critérios. Cinco meses antes do telegrama elogioso de Bolsonaro, o chefe da polícia secreta do regime chileno, um dos mais fiéis subordinados de Pinochet, revelou a investigadores que o ditador tinha ficado milionário traficando cocaína. A notícia correu o mundo, foi publicada em todos os grandes jornais, veiculada massivamente pela imprensa, brasileira inclusa.

Manuel Contreras deu detalhes. Afirmou que a cocaína era fabricada em um complexo químico do próprio Exército, deu o nome do refinador, acusou um filho de Pinochet, Marco Antonio, de fazer parte do esquema, e completou dizendo que a correria era feita por um empresário ligado a ele e também pelo sírio Monser Al Kassar – vinculado a atividades terroristas, segundo o policial.

Bolsonaro não viu problema na acusação.

A mensagem, no entanto, jamais chegou ao remetente por meios diplomáticos. O Itamaraty se negou a ser correio do capitão. E respondeu ao então embaixador do Brasil no Chile, Mario Vilalva:

“Vossa Excelência poderá informar ao Deputado Jair Bolsonaro que o Ministério não transmite mensagens pessoais, as quais deverão ser, caso deseje o parlamentar, encaminhadas diretamente aos destinatários.“

Telegrama bom é telegrama morto.

(Veja a mensagem inédita de Bolsonaro, e também a resposta do Itamaraty, obtidas via Lei de Acesso à Informação.)

Leandro Demori
Do The Intercept

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