17 de jul de 2018

As forças ocultas que Jânio Quadros culpou pelo sua renúncia em 61 eram as empreiteiras de obras da Lava Jato?


No próximo dia 25 de agosto, vão se completar 57 anos que o então presidente da República Jânio Quadros, que havia sido eleito sete meses antes, prometendo combater a corrupção, renunciou ao mandato, alegando pressão de “forças ocultas”. O “Homem da Vassoura”, como era conhecido, entrou na história do Brasil como um louco que tentou blefar para conseguir mais poderes e acabou atirando o país em um caos político que resultou no golpe das Forças Armadas de 1964, que instalaram no poder uma ditadura militar que durou até 1985. Constam nos arquivos que, na verdade, o então presidente teria mencionado “forças terríveis”. Mas o Repórter Esso – o mais famoso noticiário das rádios da época – colocou no ar a expressão “forças ocultas”, e assim foi passado para a história. Ele voltou para política em 1985, elegeu-se prefeito de São Paulo e morreu, aos 75 anos, em 1992. Sem dar maiores explicações sobre as “forças ocultas” que teriam o pressionado a renunciar com apenas sete meses de mandato.

A renúncia de Jânio é uma história mal contada. Olhando apenas para os fatos, ficamos sabendo que, na época, era impossível um presidente da República governar sem trocar apoio político por cargos na administração federal e empregos nas empresas estatais. Essa realidade sobreviveu e se fortaleceu, graças à censura na imprensa, no Regime Militar, e se consolidou nos governos seguintes. Ela é a camisa de força que espera o próximo presidente da República, que será eleito em outubro. Nos dias atuais, as investigações da Operação Lava Jato descobriram que a troca de cargos por apoio ao governo tem a parceria das empreiteiras de obras. E a história nos mostra que os donos das empreiteiras da Lava Jato operam no ramo há  muitos anos. Antes de seguir contando a história, eu quero refletir com os meus colegas repórteres velhos e com os novatos. Sempre circulei muito pelo país. E, nos últimos quatro anos, em que estou fora da redação, tenho mais tempo de conversar com as pessoas. E a ideia que vem tomando corpo a respeito dessas conversas é que precisamos explicar melhor para o nosso leitor que as descobertas da Lava Jato vão muito além dos nomes do corrompido e do corruptor.  As investigações revelam um sistema. Como funciona esse sistema?

A  resposta para essa pergunta encontramos nas entrelinhas das investigações feitas pela força-tarefa da Lava Jato. Cruzando as informações, nós podemos ver que foi fundamental para a estruturação da corrupção a existência de partidos políticos frágeis. Essa fragilidade permitiu aos empresários torná-los uma espécie de braço dos seus interesses nos poderes Executivo e Legislativo. Lendo a história de países onde os partidos políticos são fortes e organizados, vemos que lá também existe esse tipo de corrupção. Mas, por uma série de detalhes, ela é mais pungente no Brasil. Aqui cabe mais uma pergunta. Qual é a origem da fragilidade dos partidos políticos brasileiros? Temos um divisor de águas. Até 1964, o antigo PTB e a UDN eram partidos consolidados. Os militares acabaram com os dois partidos e fundaram o MDB e a Arena. Com a democratização do país, em 1985, surgiram dezenas de partidos, destaque para PMDB, PT e PSDB. Mais um fato para analisarmos. Os marqueteiros políticos brasileiros importaram dos Estados Unidos a maneira de fazer campanha:  vídeos de alta qualidade, espetáculos e material publicitário de qualidade. Com isso o preço das campanhas explodiu. Essa explosão nos preços era um problema para os candidatos e, para os empreiteiros, uma oportunidade de negócios, como mostraram as investigações da Lava Jato.

Aqui é importante deixar bem claro ao nosso leitor que a Operação Lava Jato apenas  investigou e processou o corrompido e o corruptor. Ela não desmontou o sistema que é alicerçado na fragilidade dos partidos políticos. A reforma política resolve o problema? Ajuda. Mas não resolve, porque o foco da reforma é a criação de mecanismos que sejam uma barreira contra a proliferação dos partidos. E a fragilidade dos partidos não tem a ver com a sua proliferação. Mas com a carência de mecanismos que punam com rapidez os desvios do parlamentar. A liberdade de imprensa é fundamental para o fortalecimento dos partidos. Será que as “forças ocultas” referidas pelo então presidente da República Jânio Quadros eram as empreiteiras de obras? Ou apenas uma alucinação provocada pelas várias doses de uísque tomava todos os dias? O que rolava na época?   A construção de Brasília havia terminado em 1960, e outras grandes obras estavam acontecendo pelo país.

Carlos Wagner, Jornalista

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