26 de jul de 2018

A quarta pergunta

Numa matéria recente para a revista New Yorker, Alex Ross começa escrevendo que nenhuma editora perderá dinheiro se publicar livros sobre Lincoln, Hitler ou cachorros. Uma segunda linha de sucesso certo seria a de livros sobre golfe, nazismo e gatos. O fascínio com Hitler continua depois da sua morte (ou sua fuga para a América do Sul), em 1945. Todos os anos são lançados milhares de livros sobre o “Führer”, sua vida, sua ascensão, sua queda, seu fim. Muitos dos livros são especulações sobre o que motivava secretamente Hitler, outros são revisionistas, e alguns desses até o absolvem. 

Hitler cresceu lendo os livros de Karl May sobre o Oeste bravio americano. Era grande admirador da mitologia da fronteira americana que May – apesar de nunca ter saído da Alemanha – retratava nos seus livros, mas admirava mais os pioneiros genocidas do que os índios massacrados. Chegou a citar a América como exemplo do “lebensraum”, que reclamava para a Alemanha no Leste Europeu. Na sua Bíblia, Mein Kampf, elogia os Estados Unidos como um estado que progredia no sentido de um conceito invejável de cidadania pela exclusão de raças inferiores, começando pelas de pele vermelha.

A vasta literatura sobre Hitler, escreve Ross, circula em torno de duas perguntas básicas que se repetem, uma biográfica e outra sociopolítica. Como foi possível um medíocre austríaco pintor de aquarelas chegar ao poder como Hitler chegou? Como foi possível uma sociedade civilizada, uma terra de artistas e filósofos, elegê-lo e apoiá-lo como o fez? Há uma terceira pergunta. O ódio de Hitler e dos fascistas aos judeus era conhecido e aplaudido. O Holocausto foi uma etapa lógica do domínio fascista e da vontade de Hitler ou foi uma improvisação bárbara, um soluço de civilização?

E há uma quarta pergunta. Pode acontecer de novo? A reação aos imigrantes que chegam clandestinamente à Europa desafia qualquer escrúpulo democrático, e o neonazismo está em marcha em várias partes do mundo. Nos Estados Unidos a eleição do Trump era uma possibilidade risível, quem votaria numa piada para presidente? E um dia a nação acordou com o inimaginável na Casa Branca. E no Brasil, às vésperas de uma eleição presidencial, o inimaginável tem mais intenção de voto do que qualquer outro candidato. 

Luís Fernando Veríssimo

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