30 de jul de 2018

A elite brasileira e a manutenção do status quo

Família, pátria e religiosidade, pero no mucho! Como elite brasileira dá arcabouço teórico para tecermos vários comentários sobre ela


Terra à vista…”, já dizia o vigilante a bordo de uma das naus que, depois de desbravar mares, enfrentar intempéries, aportou em território brasileiro. Terra de muitas palmeiras, onde canta o sabiá, o canário, o pardal, a arara… Esta terra chamada Brasil, e que tanto amamos, tem uma elite bem peculiar, que não raro, acaba por fazer aquilo que não prega, ou prega aquilo que não faz.

Muitas são as obras que trouxeram como assunto principal a formação da sociedade brasileira. Dentre as quais se destacam as seguintes: Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; Casa Grande e senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil contemporâneo, de Caio prado Junior. Essas não são as únicas que tratam do assunto supracitado, porém, são consideradas como clássicos importantes para se pensar a questão, e que ultrapassaram épocas, influenciando estudantes, intelectuais notáveis e boa parte da elite brasileira.

Esses autores, de maneira geral, trouxeram informações importantes para se pensar a formação do Brasil enquanto país e na construção da sociedade brasileira. Cada qual com sua narrativa, essas obras traçam um panorama histórico desde a chegada dos primeiros desbravadores dos mares em 1500, passando pela transformação sofrida no Brasil com a política colonizadora portuguesa (visando à exploração), refletem sobre a consciência escravista implantada aqui, e que resultou na política estatal escravocrata, até chegar nas tramas no campo da política nacional, causadora de eventos históricos a la tupiniquim.

Fatos históricos à parte, o que ocorre no Brasil, no tocante a participação da elite nacional, vale (no mínimo) uma boa reflexão, quando não, algumas sonoras gargalhadas. Sem mais delongas, vou discorrer a seguir sobre as minhas impressões da nossa elite nacional.

Bom, mantida (na maioria das vezes) pelo Estado, a elite brasileira estende seus tentáculos a todos os poderes da República (não que isso não acontecia na Colônia e no Império). A elite sempre esteve aí, atuando como sempre gostou de atuar, promovendo a si e aos seus, e alargando o antagonismo entres as classes que formam a sociedade, de forma latente, entre as classes operárias e as detentoras dos meios de produção (confesso que procuro não fazer menção a Marx, mas as circunstâncias me levam a citar o velho).

“Aqui plantando, tudo se dá…”, escreveu Caminha ao Rei de Portugal, comunicando, é claro, sobre as condições favoráveis para a agricultura na recém “descoberta” colônia portuguesa na América. E de fato aqui tudo se dá mesmo! Desde tempo outros, à elite se mantém na dianteira da vida social do Brasil. Evocando novamente o velho Marx, quando ele afirma que o Estado é o balcão de negócios da burguesia, a gente percebe o motivo pelo qual a dita elite nada de braçada em uma sociedade claramente dividida entre classes sociais. Uma vez plantada a semente da elite brasileira, dá-se os frutos cada vez mais.

Com o discurso de que quando se quer chegar em um determinado lugar se consegue, mas que nunca precisou enfrentar um gigante por dia como a maioria esmagadora da população, nossa elite tupiniquim, sai ano e entra ano, goza dos mais benevolentes privilégios que o meio oferece. Não obstante o discurso da meritocracia repetido pela elite como mantra, seus membros ainda reivindicam a pertença ao cristianismo, valorizando a família (que eles insistem em chamar de tradicional), o nacionalismo, a moral e os bons costumes.

Foi com este viés até simpático, que boa parte da elite brasileira foi às ruas no início dos anos 60 do século passado, clamando a Deus e ao Estado, que o “espectro comunista” que pairava sobre as cabeças, fosse dissipado; sabemos que este fato, associado a outros, ajudou os militares a tomar o poder, instaurando uma ditadura que perdurou duas décadas, causando terror, morte e muito sofrimento.

A elite que foi à rua pedir a intervenção do Estado, por intermédio dos militares, foi à mesma que se viu horrorizada quando os mesmos botaram pra quebrar, principalmente depois do Ato Institucional número 5. Nesta hora, a elite botou o rabinho entre as pernas e fez o seu famoso silêncio de cúmplice, até por que, poucos foram os quadros da elite que sofreram perseguição dos milicos.

Dando mais um salto histórico, e chegando até nossos dias, venho observado às manobras da elite para se manter no poder, não apenas econômico (como sempre foi), mas também no âmbito cultural, ou seja, ditando o comportamento que eles julgam adequados no discurso, mas não confirmado na prática. Me valho aqui de três fatos recentes ocorridos no Brasil, que é a mais acabada expressão de como a elite é uma senhora vetusta, que está fazendo hora extra no cenário nacional. Vamos a eles.

Posso começar narrando os fatos anunciados, partindo do forjado processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff, há dois anos. Lembro-me de como o país foi levado a uma divisão desnecessária e irreal, incitado por setores da elite nacional, que controlam mais de 80% dos meios de comunicação de massa. Era claro que a elite estava bancando a campanha de desmoralização da presidenta, com o discurso de fundo contra a corrupção e para extinguir o câncer maior, no julgamento destes, que ameaçava o Brasil, qual seja, o perigo do comunismo.

Manifestantes usaram camisas sa seleção brasileira de futebol em protestos contra a então presidenta Dilma em 2016 na Avenida Paulista.
Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

Alegaram que o Partido dos Trabalhadores é comunista (algo que o PT nunca foi – Cf. Luís Inácio Lula da Silva: um animal político, esculpido e acabado) e, por isso, era preciso retirar quem estava no poder e restaurar a ordem em nome da pátria, de Deus e da família brasileira.

Essa mesma elite que entoava cânticos patriotas e de louvação à família, e brindava com champagne nas ruas deste país, promoveu um circo de horrores ao retratar a presidenta em uma figura de pernas abertas na lataria de alguns carros, dando a impressão que, ao colocar o combustível no veículo, o frentista do posto estava introduzindo a ponta da mangueira que leva o combustível da bomba ao veículo, para dentro da presidenta, pela sua vagina. Sem falar dos muitos xingamentos que dirigiram a Dilma. Isso, veja você, promovido pelos defensores da família dita tradicional!

Isso posto, vamos aos fatos que me valho aqui. Quem não viu ou leu alguma coisa sobre o cancelamento da exposição “QueerMuseu”, no Santander Cultural em Porto Alegre?! A elite nacional, representada por um grupelho de protofascistas de São Paulo, travou batalha conta a exposição, alegando que feria a moral e os bons costumes, além de incitar a zoofilia e a pedofilia. Depois de uma enxurrada de manifestações contrárias nas redes sociais, o mantenedor do espaço achou por melhor cancelar a exposição.

Outra intervenção da elite brasileira em algo relacionado com expressão cultural foi a não menos barulheira feita por ela, por conta de um vídeo que foi amplamente compartilhado nas redes sociais. Em uma sala fechada e sinalizada do Museu de Arte Moderna de São Paulo uma criança, acompanhada pela sua mãe, toca em um homem nu, que representava ali uma peça de uma exposição famosa nos anos de 1960, da artista Lygia Clark.

Os defensores da família, da moral e dos bons costumes, faltaram pegar em espadas, adagas e lanças, como no tempo das Cruzadas, para expurgar os “pedófilos” de plantão. Fizeram até uma campanha apelidada de: “deixem minhas crianças em paz”, desde que as crianças sejam brancas de classe média (as da elite), porque as crianças negras da periferia ainda convivem com cenas que mais parecem de outro mundo!

Convidada para proferir palestras em um evento, em parceria com a Universidade de São Paulo e a Universidade de Berkeley, a filósofa estadunidense Judith Butler foi alvo de protesto em frente ao SESC Pompéia e no aeroporto de Congonhas. Os manifestantes contrários a presença da professora, e uma das mais respeitadas pesquisadoras de estudos sobre questão de gênero no mundo, alegavam que ela não deveria estar no Brasil, divulgando suas ideologias nefastas (como se a sexualidade humana fosse algo ideológico).

Manifestantes queimam boneco que representava a filósofa Judith Butler.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo

Esses são os fatos que escolhi para trazer neste texto, mas não foram os únicos promovidos pela elite defensora da família brasileira. À primeira vista, os desavisados de plantão podem embarcar nesta onda, afirmando que as manifestações foram justas e precisam de apoio da população, mas, por dois motivos eu refuto veementemente esta linha de raciocínio, isso por que: a) a Constituição garante a liberdade de expressão para todos os cidadãos brasileiros; b) as atitudes farisaicas da elite, ou seja, “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”, me faz manter uma distância segura dela.

A mesma elite que gritou contra o que eu trouxe de exemplo neste texto esteve (representada) na noite do último dia 7 de abril em frente ao um famoso bordel de luxo na cidade de São Paulo, conhecido como “Hotel Bahamas”, de propriedade do impoluto Oscar Maroni, que fora condenado por manter um estabelecimento que facilitava a prática de prostituição, mas que fora solto por falta de provas (é pra rir ou não?!).

Na calçada do estabelecimento, sob dois ícones que traziam um juiz da 13ª Vara Federal em Curitiba, e da presidente do Supremo Tribunal Federal, o citado senhor despia uma de suas funcionárias, sob o olhar atento e cheio de volúpia dos espectadores, além de cerveja liberada gratuitamente para a rapaziada. Isso em comemoração à prisão do ex-presidente Lula.

Durante a Copa do Mundo de futebol, na Rússia, a elite (também representada) por distintos senhores, pais de família, trabalhadores, que lutaram contra à corrupção, levaram uma mulher (de origem não conhecida), a repetir em português (língua que ela não domina), que a vagina dela, supostamente deveria ser rosa. Isso causou revolta nas redes sociais. Mas, sabe como é a elite, né?, cheia de influência. Teve quem viesse na defesa dos senhores, alegando que tudo não passou de brincadeira, zoação. Imagina se no lugar dessa mulher estivesse uma filha, uma esposa, uma irmã, uma mãe de algum deles. Será que a brincadeira teria graça?!

É importante ressaltar que no caso da Copa do Mundo, muito mais do que a elite passando vergonha e sendo ridícula, aquela atitude não é exclusividade da dita, mas sim de machistas! Me referi a elite nesse caso, pois não é todo mundo que dispões de no mínimo 10 mil reais para ficar desfilando em outro país durante um evento com a envergadura de uma Copa do Mundo.

Como se vê (e se lê), a elite brasileira dá arcabouço teórico para tecermos vários comentários sobre ela. Às vezes, confesso, me dá “ranço” de ver algumas atitudes, ler alguns comentários por parte de membros da mesma, mas logo recobro a sobriedade e recorro aos meus alfarrábios para consultar as grandes cabeças que já passaram por este mundo e me servem de guia para a caminhada sem conflitos belicosos. E para finalizar este texto, parafraseando o sociólogo e escritor Jessé Souza, a elite brasileira é de fato tola e vive em um imenso atraso!

Edilmar Alcantara
No Biblioo

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