25 de jul de 2018

A bolsonarização da vida precisa ser interrompida


Quem já teve a oportunidade de assistir Relatos Selvagens sabe do que estou falando. Dirigido por Damián Szifron e estrelado por Ricardo Darín, o filme argentino, que estreou em 2014, traz seis histórias que em tempos normais poderiam parecer surreais ou bizarras. Mas que, infelizmente, traduzem bem o cotidiano da atual vida brasileira. No filme, situações corriqueiras do cotidiano transformam-se rapidamente em bolas de neve onde pessoas comuns tornam-se violentas, corruptas e até mesmo assassinas.

Por óbvio, essa onda de ódio à flor da pele não surgiu como um raio em dia de céu azul. Essa intolerância vem sendo alimentada há algum tempo, pelas beiradas, seja por atores políticos ou, até mesmo, por veículos de comunicação.

No Leblon, bairro hostil para quem usa roupas vermelhas, uma ativista social teve parte de um dedo cortado por uma mordida raivosa de uma simpatizante de outro partido durante a reeleição de Lula, em 2006. Nas chamadas Jornadas de Junho de 2013, no Centro da cidade, militantes com bandeiras de partidos foram agredidos covardemente: não pela polícia, mas por uma parcela dos próprios manifestantes que não aceitavam a presença de partidos políticos nos protestos.

A intolerância não é apenas política, mas também social. Sob a palavra de ordem “bandido bom é bandido morto”, grupos de musculosos frequentadores de academia do bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, passaram a agredir jovens negros suspeitos de assaltos. Os autointitulados “justiceiros” chegaram a acorrentar um menor de idade em um poste, sem roupas. Se o menor era um “bandido”, ninguém sabe. Mas sobre seus agressores não há dúvidas: são bandidos.

O desrespeito tem ainda sua face religiosa. Alguns crentes, que parecem não ter entendido bem os próprios valores de sua crença, passaram a atear fogo em terreiros de religiões de matriz africana, como o Candomblé. O autoritarismo é evidente: “se não professa a mesma religião que eu, então merece ser exterminado”, pensa esse criminoso que diz agir em nome de Deus.

A situação é ainda mais bizarra quando a turba se levanta para linchar um suposto criminoso, mas logo em seguida descobre que acabou matando a pessoa errada, um inocente. Foi o que aconteceu nos últimos anos em Santos, no Guarujá e no Maranhão, entre tantos outros casos. Quem é o criminoso nessa história?

Democracia não é consenso, como preconizam alguns, mas sim o reconhecimento da existência do conflito. Ocorre que esse conflito não pode ser sinônimo de intolerância, não pode significar o extermínio do outro. Faz parte da democracia o reconhecimento do conflito e a consequente organização de regras e procedimentos para o convívio de adversários.

Nesse registro, regras e procedimentos são palavras-chave. Quem age em nome de suas convicções, mas sem provas, em busca do extermínio do inimigo, age contra a justiça e a democracia. Esse inimigo pode ser um partido, uma religião, ou um menor de idade pobre e sem direitos. Junto com o seu extermínio, morre a justiça e a democracia.

Infelizmente, parece que caminhamos no sentido inverso ao do aprofundamento da democracia quando um candidato que promove a intolerância e o ódio contra minorias aparece em primeiro lugar nas pesquisas eleitorais para a presidência do país.

Mas nem tudo estará perdido enquanto houver quem acredite na tolerância ao diferente e na igualdade social e econômica.

Theófilo Rodrigues é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ.
No Cafezinho

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