31 de jul. de 2018

EUA confirmam terem drones assassinos em base africana


O Comando dos Estados Unidos para a África admitiu que começou a empregar drones letais na nação centro-africana do Níger no início deste ano.

Samantha Reho, porta-voz do Comando da África, disse à Associated Press que a decisão foi tomada em coordenação com o governo do Níger para "melhorar nossa capacidade combinada de responder a ameaças e outras questões de segurança na região". Ela disse que aeronaves armadas de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR na sigla em inglês) começaram a voar no Níger no início de 2018.

Os drones armados estão atualmente implantados na Base Aérea Níger 101, na capital do país, enquanto aguardam a conclusão da nova Base Aérea 201 fora de Agadez, no norte. A nova base custou US$ 110 milhões.

Segundo o The New York Times, existem cerca de 800 militares dos Estados Unidos no Níger.

O Sahel enfrenta ameaças extremistas, incluindo combatentes ligados à Al-Qaeda em Mali e Burkina Faso, combatentes afiliados do grupo Daesh no Níger, Mali e Nigéria e o Boko Haram, com sede na Nigéria.

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Só Gilmar tem os pés fincados na política partidária e no mercado

Hübner: o único certo era o Favreto!


O Conversa Afiada reproduz do Estadão trechos de corajosa entrevista do professor de Direito Constitucional da USP, Conrado Hübner Mendes:

Supremo "se isenta de prestar contas", diz professor

Constitucionalista critica “pauta errática do tribunal e pede ‘decisões de modo coerente’

O STF não tem se saído bem em sua missão de “tomar decisões de modo coerente, em tempo oportuno, costurada com precedentes, com argumentos críveis, que não oscilem ao sabor do vento”. A avaliação é do professor de Direito Constitucional da USP Conrado Hübner Mendes, conhecido pelas seguidas críticas que tem dirigido à Suprema Corte em seus artigos na mídia.

Entre os problemas por ele apontados, nesta entrevista à repórter Paula Reverbel, estão o que chama de “loteria da Segunda Turma” – pela qual “o direito criminal aplicado ao réu depende de quem é o relator” –, e ainda o caráter “errático” da pauta e “as decisões heterodoxas de legalidade duvidosa” a título de se combater a corrupção. A seguir, a entrevista.

Recentemente, a Segunda Turma do STF impôs uma série de derrotas à Lava Jato. Procuradores disseram que isso ocorreu porque a opinião pública estava voltada para a Copa. O que acha?

Duas coisas. Primeiro, a atitude vulgar de procuradores do MPF que entram nesse bate-boca público usando da indignação popular a seu favor. O que me surpreende não é só o desrespeito institucional, mas a desinteligência estratégica, pois esse veneno poderá se voltar contra eles mesmos. Segundo, chama a atenção para a guerra entre a Segunda Turma e o plenário. São dois tribunais diferentes. E a decisão que sai do tribunal depende do acaso, da loteria.

Como assim?

Hoje, na 2.ª Turma, saber qual direito criminal se aplica a um réu dependerá de quem é o relator. Se está com o ministro Fachin, ele provavelmente joga para o plenário, cuja maioria adota a posição dele. Se está com outro relator, Fachin perde. Ou então decisões monocráticas dão conta do recado sozinhas. O direito muda conforme o caso e o acaso. Essa é a arte ilusionista do STF.

O sr. escreveu que Gilmar Mendes despreza a credibilidade institucional do Judiciário. Por que acha isso?

Gilmar Mendes tem um comportamento de “dono da bola”. É verdade que outros ministros do STF se renderam também ao individualismo. O que coloca Gilmar em outro patamar é seu envolvimento cotidiano com a política partidária, sua desconsideração das regras de suspeição e sua atividade paralela de empresário da educação jurídica. Nenhum outro juiz tem pés fincados na política partidária e no mercado.

Analistas dizem que Dias Toffoli deveria se declarar suspeito para julgar Dirceu. Concorda?

As mesmas razões se aplicam a Toffoli. Alguns juízes entendem que basta prometerem que são imparciais para serem percebidos como imparciais. Distorcem o instituto da suspeição.

A propósito, o STF tem evitado pautar os pedidos de suspeição de Gilmar. Como interpreta isso?

É um “acordo de cavalheiros” contra a lei. Sinal também de mau desenho institucional: não é fácil imaginar o colegiado julgando a imparcialidade de um colega. O STF se isenta de qualquer mecanismo de prestação de contas.

Outros dois ministros, Lewandowski e Marco Aurélio, têm seguido Gilmar e Toffoli em decisões tidas como impopulares…

O público leigo tem observado basicamente o juiz que prende e o juiz que solta. Celebra o primeiro e ataca o segundo, como se não fosse possível soltar por boas razões ou prender por más razões jurídicas. Obviamente esse é um critério distorcido. O problema não é se solta ou se prende, mas o como e o porquê de se fazer isso em cada caso. Faz falta um jornalismo que possa fazer análises mais técnicas sobre isso e mostre didaticamente essas incongruências.

O voto de Rosa Weber no HC de Lula gerou o meme: “Vou deixar de seguir o meu entendimento para seguir o entendimento da maioria, que só será maioria porque eu vou deixar de seguir o meu entendimento.” Concorda?

Sim, ela apelou para a noção de colegialidade (a ideia de que um juiz deve, às vezes, deferir ao colegiado contra sua opinião). Escrevi uma coluna para a revista Época em que argumentava que a “colegialidade solitária” é incoerente. Não dá para ser colegiado sozinho, sem reciprocidade, menos ainda quando a definição de quem está na maioria ou minoria depende do seu voto.

Rosa disse que seu voto de desempate teria sido o oposto se o julgamento fosse sobre prisão em 2ª instância. A pauta viabilizou a prisão do ex-presidente?

A pauta errática de Cármen Lúcia sonegou ao colegiado a possibilidade de deliberar sobre a execução provisória da pena e estabelecer regras estáveis. A ministra postergou até que o tribunal se visse com a faca no pescoço quando o habeas corpus de Lula bateu às portas. O tribunal poderia ter decidido isso antes e evitado tamanho desgaste. Foi de extrema inabilidade política. Mas é importante lembrar que erráticos, e arbitrários, têm sido todos os presidentes do STF na definição de pauta. Não há critério, não há respeito à esfera pública, não há respeito a advogados e à sociedade civil, que às vezes se deslocam para Brasília para ter seu caso adiado. Temas entram e saem da pauta sem a menor explicação. O tribunal decide e deixa de decidir o que quiser. Essa total liberdade é inconcebível num tribunal sério.

Pode comentar o bate-boca entre Luiz Barroso e Gilmar (“Você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia”)?

Para além da frase inspirada, que entrou para o folclore político brasileiro, o que se tira desse episódio é mais do mesmo. É a camada mais vistosa de problemas mais profundos.

Em 2013, o sr. disse que a nomeação de Barroso foi “vitória contra a baixa política” e que a expectativa por seu desempenho era alta. Como vê sua atuação?

Barroso é um constitucionalista que chegou ao STF depois de acumular reflexão acadêmica sobre o tribunal. Como advogado, esteve à frente de grandes casos no STF ao longo dos anos. Nenhum dos ministros nomeados nos últimos 30 anos chegou com credenciais assim. Como ministro, tem sido um dos poucos a pensar e dialogar abertamente sobre as patologias da instituição. Suas propostas ainda não têm eco suficiente, mas ele tem o mérito de suscitar o debate. Nas decisões de mérito, é natural que tenhamos acordos e desacordos, mas teríamos que debater caso por caso.

Afinal, habeas corpus podem ou não ser analisados pelo STF antes que se conclua o trâmite nas instâncias inferiores?

A súmula 691 tem o objetivo de evitar a chamada “supressão de instâncias”, ou seja, que alguém peça HC ao STF antes de esgotar as instâncias inferiores. Para autoridades com “foro privilegiado”, o HC deve mesmo ser proposto em tribunal superior, STF ou STJ. Para cidadãos comuns, há que se começar por baixo. A regra tem uma lógica institucional. Não autoriza furar a fila nem pular direto para a “última casa”. O problema é que o STF passou a dizer que há “exceções” para a súmula 691. Essas exceções são nas hipóteses de “flagrante ilegalidade”. O que significa “flagrante ilegalidade”? O que der na telha do ministro, sem critério estabilizado. Esse é mais um exemplo que o STF deixa no ar da incerteza. E o incentivo que cria, claro, é que sempre tentemos um HC no STF, pois vai que algum ministro entende haver a tal “flagrante ilegalidade”. Aí, se colar, colou.

Quais vão ser os desafios do STF no período eleitoral?

O desafio do STF no período eleitoral é o desafio do STF em qualquer momento: tomar decisões de modo coerente, em tempo oportuno, costuradas com precedentes, com argumentos críveis, que não oscilem ao sabor do vento. Claro que o período eleitoral torna a volatilidade do Supremo ainda mais explosiva. E não é da noite para o dia que um tribunal percebido como partidarizado consegue se reconstruir. Espero que ele sobreviva.

Quem errou menos no episódio com Favreto, Moro, Gebran, Thompson Flores e PF? Quem tinha competência?

Todos erraram. A competência era de Favreto, desembargador de plantão. Se sua biografia o tornava suspeito, e se os fundamentos de sua decisão (e ideia de “fato novo”) não se sustentavam era outro problema, a ser tratado pelas vias judiciais regulares. O bate-cabeça dos outros foi muito sintomático.

O sr. argumentou que o TRF-4 está recebendo maus exemplos do STF, onde esse tipo de conflito seria corriqueiro. Como remediar isso?

A dinâmica de influência é bidirecional: o STF influencia de cima para baixo, mas é verdade também que essas chicanas individualistas – aproveitando o plantão, por exemplo – estão disseminadas pelos tribunais inferiores. O STF não inventou isso, mas sua indefinição sobre a regra de presunção de inocência ajudou Favreto a justificar sua decisão.

Ao cunhar o termo “populisprudência”, o sr. diz que o populismo judicial pode ter ganhos imediatos e custos de longo prazo. Quais seriam?

A populisprudência é o populismo judicial disfarçado pela aura da “jurisprudência” e todo o pacote que a acompanha: o manto do juridiquês, a fleuma judicial, o esoterismo. A populisprudência é praticada pelo “juiz com causa”, que busca apoio na opinião pública. É dizer que o Judiciário está “empenhado no combate à corrupção” e à luz disso justificar decisões heterodoxas de legalidade duvidosa. Quem critica é visto como adversário. O ganho imediato é a aclamação popular, é o status de herói. O custo de longo prazo é a perda de legitimidade.
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30 de jul. de 2018

Brasil: um país sem futuro


Ao se estudar a história particular de cada país se verá uma variedade de situações e de circunstâncias que aproximam algumas e distanciam outras. Uma dessas situações diz respeito ao fato de que alguns países são inovadores, conseguem superar as condicionalidades de um passado difícil e se modernizam com igualdade, justiça e progresso, enquanto que outros não conseguem se desenvolver e permanecem prisioneiros das determinações do passado e se tornam cativos da desigualdade, das injustiças e do atraso. O Brasil, certamente, é do segundo tipo. Aqui o passado determina o presente e bloqueia o futuro e os mortos governam os vivos.

O mais provável é que existam muitas razões para o triunfo do atraso e das determinações  do passado no Brasil. Aqui, apontar-se-á apenas uma: o problema da fundação, da gênese. Maquiavel, ao estudar o grande historiador de Roma antiga, Tito Lívio, assevera que as repúblicas mal fundadas tendem a permanecer extraviadas ao longo dos séculos, como que buscando um caminho na escuridão, e procuram encontrá-lo através da promulgação de um cipoal infindável de leis, pensando que estas podem consertar a realidade, mas que sequer entram em vigor. As décadas e os séculos passam sem que esta república encontre a sua verdade, sem que o povo esteja ao abrigo das misérias humanas e sem que a justiça, a igualdade e a liberdade sejam frutos acessíveis para a generalidade das pessoas.

Ainda de acordo com Maquiavel, com base em Tito Lívio, as repúblicas bem fundadas são aquelas que nascem de um ato de terror fundante, no qual, o arbítrio dos mais fortes é passado no fio da espada para fundar a validez da lei originária, alicerçada nos princípios da igualdade e da justiça. De tempos em tempos, esse ato precisa ser renovado com a punição exemplar daqueles que tentam violar ou corromper estes princípios. Sem este ato, os mais fortes não terão freios e exercerão o arbítrio, a dominação e a violência sobre os mais fracos.

Maquiavel vê atos de terror fundante exemplares em Moisés, quando desceu do monte Sinai e mandou passar no fio da espada 22.200 homens por terem implantado a desordem; em Ciro, ao se revoltar contra os medas e fundar o império Persa e em Rômulo, ao matar Remo para garantir a fundação e a segurança de Roma. Modernamente podemos ver esses atos nas Guerras de Independência  e de Secessão dos americanos, na Revolução Francesa, na Revolução Cubana e assim por diante.

Na história do Brasil, o poder político e suas formas constitucionais e jurídicas sempre foram produtos do trabalho usurpador das elites econômicas e políticas e expressão de seus interesses. Em nenhum momento dos processos fundantes desse poder o povo foi partícipe enquanto sujeito e sempre teve seus interesses e direitos excluídos dos arranjos legais e constitucionais que se efetivaram ao longo do tempo. Notadamente, a Independência se revestiu de uma transformação perpetrada por segmentos que representavam os interesses da metrópole e a Proclamação da República assumiu o caráter de um golpe do qual, o povo, bestializado, nos termos de Aristides Lobo, não participou e sequer compreendeu o seu significado.

No Brasil, o povo nunca foi soberano, a lei nunca foi igual, a democracia nunca existiu para a grande maioria das pessoas pobres. As tentativas de refundar o fundar o Brasil, primeiro com Getúlio Vargas e, depois, com Lula, foram atacadas pela ação corrosiva das elites, por guerras políticas sem escrúpulos e sem quartel, pela violência, pela traição e por golpes que visaram perpetuar a ordem da dominação do passado, manter o presente do povo na miséria e interditar o futuro.

Se o Brasil é um país sem presente por conta de todos os males que assolam o povo – desemprego, falta acesso aos serviços de saúde, falta de educação, salários baixos, falta de cultura e de lazer, pobreza, preconceitos, falta de direitos, violência etc. – os dados da Revisão 2018 da Projeção da População do Brasil, divulgados na semana passada pelo IBGE, confirmam que o país não terá futuro.

O presente do Brasil é trágico, sem dúvida. Mas o seu futuro poderá ser ainda mais trágico. O país está envelhecendo de forma mais rápida do que se pensava. Em 2039, o número de pessoas com mais de 65 anos será superior ao número de crianças e jovens com menos de 15 anos. Em 2060, uma de cada 4 pessoas terá mais de 65 anos.

O problema é que o bônus demográfico evaporou: os jovens de hoje envelhecerão sem oportunidades, sem emprego, sem qualificação, sem poupança e, provavelmente, uma previdência razoável. Serão velhos, pobres e sem assistência e sem direitos. Os jovens de hoje e o sistema de trabalho de hoje não estão nem bancando sequer a previdência de hoje. O Brasil ocupa o sétimo lugar entre os países que mais matam jovens no mundo. Em todos os sentidos, o Brasil está queimando, dissipando, o seu futuro. Os jovens mesmo estão dominados pela ideologia do consumo. Não poupam e não se previnem. Não imaginam que amanhã poderão cair e que ninguém lhes dará a mão para se levantarem.

O Brasil está envelhecendo sem a  infraestrutura adequada para o progresso e sem a infraestrutura para a velhice. As cidades, os transportes, o sistema de saúde, o sistema previdenciário, a mobilidade urbana, as estruturas de comércio, nada está preparado para um país com forte presença de pessoas idosas. Sequer níveis satisfatórios de saneamento básico existem.

O pior de tudo é que, a partir do golpe, o Brasil está andando para trás. O governo e o Congresso golpistas estão empenhados em destruir políticas e programas que vinham contribuindo com a redução da pobreza e com a sustentabilidade ambiental. Governo e Congresso estão dominados por grupos criminosos, a exemplo do agronegócio, grupo que não tem nenhuma consideração com a dignidade humana e com a sustentabilidade ambiental, com o futuro dos brasileiros e com os brasileiros do futuro.

As diferenças entre ricos e pobres se tornam cada vez mais abissais, tenebrosas, terríveis. As exclusões históricas, de raça, de gênero etc., se aprofundam e políticas inclusivas, ou são extintas ou têm os recursos calcinados. Se as pessoas pobres já não tinham acesso a hospitais, hoje não têm acesso a médicos. Vivem doentes e morrem sem atendimento. Estamos entre os países mais violentos e desiguais do mundo. O Brasil está sob a égide de elites econômicas e políticas criminosas, perversas, cruéis.

Um dos poucos brasileiros que tem a força, a coragem e a sensibilidade para bloquear esse processo de destruição do presente e do futuro do Brasil está preso em Curitiba. Os interesses que prenderam Lula e que querem impedir que ele seja candidato à presidência da República são os interesses que massacram o povo, que espezinham a sua dignidade, que decepam o seu presente e o seu futuro.

O povo precisa alimentar um temor terrível dessa monstruosidade que está sendo feita contra ele. Este temor, que deve ser o temor pela vida desgraçada que leva à morte, precisa despertar a clarividência da razão. Da razão que ilumina e que desperta a consciência de que não há motivo para não lutar. Aliás, de que o principal motivo da vida, agora, é lutar. E aqueles que têm consciência precisam fazer apelos por corações irados, por organizações de irados, pela força de gente irada. As lideranças precisam fazer apelos pela indignação e pela fúria. É preciso organizar a fúria. Não dá para tratar com bons modos uma elite que trata o povo com brutalidade.

Os métodos tradicionais de luta não comportam mais a urgência de um agir mais contundente e corajoso. A vastidão da tragédia do povo brasileiro deve ser o metro das novas lutas. E que essas lutas, entre outras coisas, sejam capazes de arrancar Lula dos calabouços de Curitiba. É preciso consolidar a ideia de que se não querem deixar que o governo legitimamente eleito de Lula dê ao povo o que é direito seu, o povo tem o direito de buscar o que é seu com suas próprias mãos.

Aldo Fornazieri, professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)
No GGN
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Procurador de Justiça é condenado à prisão por falsificar documento

Ele
O Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro condenou, nesta segunda-feira (30/7), o procurador de Justiça afastado Elio Gitelman Fischberg a 4 anos e 4 meses de prisão por falsificar visto de permanência no Brasil para um libanês. Ele também pagará multa de R$ 21,6 mil.

Em 2005, o estrangeiro foi detido por agentes da Polícia Federal no Aeroporto do Galeão, no Rio, ao tentar embarcar em um vôo para o Líbano com uma cópia simples de seu passaporte. Os policiais consideraram o documento mal feito e acabaram descobrindo que a assinatura do delegado da PF prorrogando o visto de permanência do libanês no país era falsa.

Em depoimento, o estrangeiro afirmou que Fischberg, que é amigo de seu tio, havia cuidado do assunto para ele. Como contrapartida, o libanês disse que lhe pagou R$ 300, que seriam referentes a taxas de renovação do visto.

O Ministério Público denunciou seu funcionário por falsificação de documento público (artigo 297 do Código Penal). Segundo o MP, Fischberg inseriu texto datilografado no passaporte autorizando a permanência do libanês no país. Exames grafotécnicos comprovaram que a assinatura do delegado era falsa e que o autor dela era o procurador, argumentou a acusação. O órgão alegou que a culpabilidade dele no caso era grave, uma vez que, à época dos fatos, ele era subprocurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro.

Elio Fischberg, em autodefesa, negou ter falsificado a assinatura do delegado. Ele também afirmou que, como o documento apresentado pelo libanês no aeroporto era uma cópia simples, tratava-se de uma acusação de crime impossível.

Questão de autenticação

O relator do caso, desembargador Luiz Zveiter, não viu crime na narração da acusação. Segundo ele, foram feitas duas cópias do passaporte do libanês, uma autenticada e uma simples. E só na cópia simples é que havia a assinatura falsa.

“Sem autenticação, uma cópia não é um documento público. E falsificação em documento não autenticado é conduta atípica”, disse Zveiter ao votar pela absolvição do procurador de Justiça.

"Crime por vaidade"

Venceu o voto da revisora da ação penal, a desembargadora Nilza Bitar, que votou pela condenação do procurador. Segundo ela, embora o libanês tenha apresentado a cópia simples, o procurador também tinha fabricado uma versão autenticada do passaporte falso.

De acordo com a desembargadora, Fischbert cometeu o crime "por vaidade", "para mostrar ao amigo que podia tudo", ou por dinheiro — o que seria motivo fútil, já que a acusação diz que ele cobrou R$ 300 e recebe um bom salário como segundo na hierarquia do MP.

Nilza votou por impor pena de 4 anos e 4 meses, a ser inicialmente cumprida em regime semiaberto, a Fischberg, além de multa de R$ 21.660. Ela também determinou a expedição imediata de mandado de prisão. Se entendimento foi seguido por 12 outros desembargadores. O relator e mais seis integrantes do Órgão Especial ficaram vencidos.

Outras acusações

Elio Fischberg já foi condenado outras três vezes por falsificar documentos. Em 2012, o TJ-RJ o condenou a 3 anos, 10 meses e 11 dias de reclusão, além de perda da função pública. A pena foi substituída por prestação de serviços à comunidade e pelo pagamento de R$ 300 mil ao Instituto Nacional do Câncer (Inca).

Os desembargadores concluíram que Fischberg falsificou, em 2002, documentos que levaram ao arquivamento de três inquéritos civis contra o então deputado federal Eduardo Cunha (MDB-RJ) no Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. Cunha estava sendo investigado por irregularidades durante sua gestão na presidência da Companhia Estadual de Habitação, entre 1999 e 2000. Com o arquivamento do processo, ele pôde se candidatar a deputado estadual em 2002, quando foi eleito.

Processo 0043350-82.2013.8.19.0000

No Conjur
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O Judiciário de celebridades... A Moralidade elástica


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O comercial de Neymar ou a autoindulgência bem paga


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Repercute nas redes o comercial da Gillete com a “nenhuma autocrítica” do jogador Neymar Jr. e eu, que vivo a escrever sobre política e economia, não resisto a falar de futebol, sempre uma paixão e porta de entrada na minha profissão, há 40 anos, na editoria de Esportes de O Globo.

Parto do que diz o coleguinha Xico Sá: Neymar “não foi à terapia, não foi ao divã, simplesmente dirigiu-se à caixa registradora em mais um oportuno anúncio publicitário”.

Até aí, nada de mais. Convenhamos, faz tempo que o futebol e seus craques perderam sua natureza de paixão popular e foram, eles próprios, devorado pelo marketing, com seus dentes de dinheiro e de “dolce vita”.

Confesso, porém que fiquei pensando no que o competente texto do anúncio diz, num chororô que se desmancha a cada frase.

O craque descreve, primeiro, as botinadas, joelhadas e agressões que sofre em campo. Sofre. Mas em que os zagueiros agiriam com ele de forma diferente da que fazem com Mbappé, Modric, Messi, De Bruyn, Hazard ou  Cristiano Ronaldo para ficar apenas em algumas estrelas desta Copa?

Nenhum deles é fisicamente menos vulnerável que Neymar, nenhum deles é menos essencial a suas equipes de tal forma que não pudessem ser alvos de defesas “botinudas”.

A resposta me parece simples: nenhum deles cai cinematograficamente e, por isso, a agressão, se não é verdadeira, é verossímil aos árbitos.

Antes de perder a bola com estas cenas dramáticas, Neymar perdeu boa parte de sua credibilidade com o espalhafato e, hoje, nem mesmo quando apanha de verdade convence que é veraz boa parte das pancadas. Portanto, além do que apanharia, apanha mais, porque virou “bom de bater”

A seguir, ele diz que, se sofre em campo, muito mais sofre na vida: “eu sofro dentro de campo mas, na boa, você não imagina o que eu passo fora dele”.

Verdade? Neymar descumpre o mandamento óbvio da pessoa exposta: ser discreto. Ou, se não for, a encarar as consequências disto.

Há muitas outras frases que, separadas, se tornam verdadeiros absurdos ou confissões daquilo que negam.

“Quando eu cesso a (paro de) dar entrevistas, é porque ainda não aprendi a te decepcionar” quer dizer o quê? Que tem de aprender a decepcionar? Tirando Mbappé, todos os outros, depois de algum jogo, estavam tanto ou mais decepcionados e tanto mais decepcionaram. Mas trataram do assunto sem se fazerem de vítimas, de injustiçados. Menos ainda pedem que os outros aceitem sem reclamar as decepções que causaram.

“Quando eu pareço malcriado, não é porque eu sou (seja) um moleque mimado, mas porque ainda não aprendi a me frustrar”. Deus meu, o que é um menino mimado senão o que não aceita frustração?

“Você pode achar que eu caí demais, mas a verdade é que eu não caí, eu desmoronei …e isso dói muito mais que qualquer pisão em tornozelo operado”.

Desmoronar é da vida e não sou ninguém para julgar a reação do outro diante de um fracasso dolorido. Se foi um pedido de perdão, não haveria torcedor que não o desse, no tempo que o perdão precisa para ser dado, pois não é algo que esteja pronto, na prateleira, esperando para ser entregue a quem o pedir.

Mas viria, quem sabe já no próximo jogo, no próximo drible, quem sabe no próximo gol, ainda mais se fosse um daqueles onde as pernas ágeis do atacante saltam sobre a chuteira bruta da zaga, dão dois ou três passos trôpegos, se reequilibram e armam o chute fatal.

Neymar, infelizmente, escolheu o caminho errado e produziu uma peça que, na verdade, se volta contra ele próprio.

Talvez não no bolso, de imediato, mas adiante, consolidando a imagem de “chorão” com a qual não se faz ídolos. Porque aquele “quando eu fico de pé, o Brasil inteiro levanta comigo”, é tão bem redigido quanto inconvincente.

Uma pena, porque talentos como ele surgem muito, muito raramente e, ao contrário dos que acham que o futebol é o “ópio do povo” nos gramados, penso que é e sempre foi fonte de orgulho, autoestima e afirmação para os brasileiros.

A gente também apanha, Neymar, no campo da política, às vezes com mais brutalidade que na bola, e nem por isso tem razão em ser autoindulgente.

“Tadinho” não ganha jogo, rapaz.

PS :O vídeo, para quem ainda não assistiu.



Fernando Brito
No Tijolaço
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Lula manda no PT desde a prisão. Ainda bem.


O Conversa Afiada publica artigo (sempre sereno) de seu exclusivo "colUnista", Joaquim Xavier:

É curioso observar a ira com que certos analistas encaram o poder que o ex-presidente Lula exerce desde a prisão. Cansamos de ver, na mídia canhestra e mesmo na imprensa alternativa, imprecações contra diretivas emanadas pelo ex-presidente mesmo trancafiado numa solitária de modo ilegal, sem crime cometido, sem processo justo. Um preso político.

Mas queriam o quê? A tal elite nacional, mero instrumento do tubaronato mundial, faz o que pode – e principalmente o que não pode—para silenciar a principal liderança popular do país. Mais importante: antes disso, trataram de desterrar sob todas as formas a massa crítica com quem Lula dialogava ao decidir as orientações do partido.

José Dirceu está proscrito de fato; Luiz Gushiken morreu; Vaccari Neto apodrece no xadrez sem que ninguém mais fale dele; parlamentares e personalidades dignos de serem ouvidos são proibidos de entrar na masmorra; intelectuais do porte de um Celso Amorim disputam numa fila interminável alguns minutos de conversa com o ex-presidente. Isso para ficar apenas em alguns exemplos – desculpem-me aqueles que deixei de fora.

Tudo o que acontece fora da prisão recebe o tratamento previsível por parte da mídia em agonia. O Festival Lula Livre, ocorrido sábado no Rio, foi solenemente ignorado por esta gente. Tive a preocupação de acompanhar o evento pelos sites dito predominantes.

No G1, nenhuma palavra. Apenas que a temperatura na cidade estava agradável... No Globo on line, silêncio absoluto. No Jornal Nacional, uma nota infame. Detalhe: os três estão baseados no Rio! Para eles, nem como notícia local o festival mereceu atenção. Ninguém falou um pio sobre a ataque de milícias fascistas travestidas de fiscais roubando material de propaganda e investindo contra uma manifestação pacífica. Quem quisesse se informar tinha que recorrer aos Jornalistas Livres –com uma série de reportagens imperdíveis--, Mídia Ninja, Conversa Afiada e por aí vai.

Enquanto isso, adversários de Lula, assumidos ou enrustidos, desfilam livres, leves e soltos emitindo seus disparates, ou algumas opiniões sensatas. A assimetria é evidente. Mesmo diante de condições tão adversas, porém, Lula consegue sobreviver, conversar por vias estreitas, enviar suas mensagens, dizer o que pensa.

O que deveria ser comemorado, é condenado por muitos como intromissão.

Não sou lulista xiita, longe disto. O próprio Lula sabe disso. A quantidade de erros que ele, o PT e seus governos cometeram ao trilhar um caminho de conciliação cobram até hoje um preço altíssimo. O próprio Lula tem consciência disso. Mas o fato inegável é que seus governos foram infinitamente melhores e progressistas comparados ao que acontecera até então.

Isso, acima de tudo, é que explica o seu papel insubstituível diante deste cenário inédito na história do país.

Lula é daqueles fenômenos que ocorrem de tempos em tempos. Mesmo sem formação programática, carente de refinamento acadêmico por imposições da vida, Lula possui um faro político inigualável. E voltado para um lado: sobretudo tem empatia com o povo, não apenas pela sua história pessoal, mas que pelo fez pela maioria, pelo Brasil pobre, humilde, massacrado durante séculos de exploração.

Para os democratas verdadeiros, alguma dúvida de que é melhor ouvir este inocente na prisão do que tantos criminosos que estão soltos tentando impedi-lo de falar?

Joaquim Xavier
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Globo anuncia que vai checar fake news, justo ela que ajudou a transformar um boato em processo que levou Lula à prisão

Exemplo de tendenciosidade

O G1, do grupo de comunicação que criou o fake news que levou Lula à prisão, acaba de anunciar o seu serviço de checagem de notícias.

O título do serviço É “Fato ou fake”.

Segundo o site, o objetivo é alertar os brasileiros sobre conteúdos duvidosos disseminados na internet ou pelo celular, esclarecendo o que é notícia (fato) e o que é falso (fake).

De acordo com o Grupo Globo, jornalistas farão um monitoramento diário para identificar mensagens suspeitas muito compartilhadas nas redes sociais e por aplicativos como o WhatsApp.

“Participam da apuração equipes de G1, O Globo, Extra, Época, Valor, CBN, GloboNews e TV Globo”, informa o G1. 

“Cada um desses veículos — prossegue o informe — poderá publicar as checagens feitas em conjunto. Ao juntar forças entre as diversas redações, será possível verificar mais – e mais rápido. A atual editoria É ou não É, do G1, deixa de existir, para dar lugar ao Fato ou Fake.”

O jornal O Globo foi quem noticiou, em 2014, que Lula poderia passar o reveillon no triplex do Guarujá, dando vazão a um boato que circulava naquele cidade, a de que o ex-presidente seria o dono de uma unidade no condomínio Solaris, antigo Mar Cantábrico. 

O jornal publicou como fato a seguinte notícia:

“De sua ampla sacada, poderá ver a queima de fogos, que acontece na orla bem defronte do seu prédio, feito pela OAS, empresa investigada pela Operação Lava-Jato. É que na semana passada terminaram as obras de reforma do apartamento triplex no Edifício Solaris, que ele e dona Marisa Letícia, sua mulher, compraram por meio da Bancoop — a Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo —, ainda na planta, em 2006. Acusada de irregularidades e em crise financeira, a Bancoop deixou três mil famílias sem receber os sonhados apartamentos.”

Já naquela ocasião Lula tratou de desmentir a notícia e informou, sem que o jornal desse o devido destaque:

“Dona Marisa Letícia Lula da Silva adquiriu, em 2005, uma cota de participação da Bancoop, quitada em 2010, referente a um apartamento, que tinha como previsão de entrega 2007”, diz a nota. “Com o atraso, os cooperados decidiram em assembleia, no final de 2009, transferir a conclusão do empreendimento à OAS. A obra foi entregue pela construtora em 2013. Neste processo, todos os cooperados puderam optar por pedir ressarcimento do valor pago ou comprar um apartamento no empreendimento. À época, Dona Marisa não optou por nenhuma destas alternativas esperando a solução da totalidade dos casos dos cooperados do empreendimento. Como este processo está sendo finalizado, ela agora avalia se optará pelo ressarcimento do montante pago ou pela aquisição de algum apartamento, caso ainda haja unidades disponíveis. Qualquer das opções será exercida nas mesmas condições oferecidas a todos os cooperados.”

A Globo já tinha explorado esse assunto em 2010, em O Globo e no Jornal Nacional. Na reportagem da TV, a Globo informava: 

“A lista de mutuários da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo tem um nome ilustre: o do presidente da República”, narrava William Bonner.

O triplex nunca esteve no nome de Lula ou da família, ele nunca desfrutou do apartamento — não passou uma noite sequer lá —, e não tinha as chaves. O que havia é o interesse da OAS para que Lula adquirisse o imóvel. Mas, na única vez em que esteve lá, recusou.

Segundo disse, considerou que não era adequado para ele. E faz sentido o que o ex-presidente afirmou. O Guarujá é uma das praias mais movimentadas do Brasil, e Lula não teria nenhuma privacidade.

Quando o boato ocupou as páginas do Jornal Nacional, o Ministério Público do Estado de São Paulo viu ali a oportunidade de uma grande investigação. E começou a ouvir pessoas, em um procedimento de investigação criminal que resultou em uma ação que, anos depois, foi parar na mesa de Sergio Moro, juiz federal.

Nem o Ministério Público Federal nem o Estadual de São Paulo apresentaram provas de que o triplex pertencia a Lula ou alguém de sua família. Mas Lula foi condenado, e hoje se encontra preso em razão dessa condenação.

O que deu a ação do Ministério Público do Estado de São Paulo que nasceu de um boato? Nada.

A justiça entendeu que não havia evidência de crime. Apenas suspeita, fruto de comentários, e isso não é suficiente para condenar quem quer que seja.

Por isso, absolveu os demais acusados. Mas não pode fazer o mesmo em relação a Lula. É que a parte do processo que envolvia Lula foi encaminhada para Curitiba, por conta da Lava Jato, e lá, apesar da falta de prova e de demonstração de culpa, Lula foi sentenciado.

Na sentença, Sergio Moro cita a reportagem de O Globo como fundamento para condenar Lula. Também aceita como válido para condenação a palavra de um co-réu, Leo Pinheiro, ex-presidente da OAS, beneficiado com redução da pena por conta do que disse.

Juridicamente, são absurdos. Um co-réu pode mentir e, por isso, recomenda a jurisprudência — e o bom senso — que a palavra dele não seja aceita como prova.

Apesar disso, a condenação foi depois confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4a. Região, em um recurso que teve como relator um amigo de Sergio Moro, João Pedro Gebran Neto.

O jornal do grupo que iniciou todo esse processo agora vem a público para anunciar que vai checar fake news.

Seria até engraçado se a ação do grupo não tivesse provocado uma das maiores injustiças da história do Brasil: o fake news que levou um ex-presidente à prisão e tirou de Lula o direito de se eleger presidente, como quer a maioria dos brasileiros.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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Democracia sem povo

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O Brasil não é para iniciantes, diz uma célebre frase atribuída ao compositor, músico e maestro Antonio Carlos Jobim.

Eu diria que o Brasil também não é para amadores.

Aqui, nada do que parece ser é realmente.

Um dos exemplos mais emblemáticos são as estórias contadas pela Rede Globo, bastante distantes da história verdadeira.

Segundo a Globo, o golpe não foi golpe, mas um impeachment normal, mesmo que decidido por um parlamento corrupto e por motivos sem fundamentos.

Segundo a Globo, Temer faz um bom governo, mesmo sendo mais corrupto que todos os antecessores e reprovado por mais de 90% dos brasileiros.

Segundo a Globo, a política de preços praticada pela Petrobrás de Michel Temer, Pedro Parente, Ivan Monteiro, MDB e PSDB é ótima para os acionistas e deveria ser mantida, apesar de péssima para todo o país.

Segundo a Globo, o preço do petróleo e dos combustíveis deveria continuar se comportando como o preço do chuchu na feira, mais uma jabuticaba brasileira.

Esta lógica desenhada pela Globo mais desinforma do que informa.

Não é à toa que o país está à deriva. A população está órfã de idéias. Perdida diante da manipulação midiática. Terreno fértil para o ódio fascista.

Sem democracia para valer, um quadro começa a se desenhar neste começo de campanha presidencial propriamente dita.

De um lado, os efeitos mais perversos deste processo todo: uma extrema-direita fascista e entreguista (outra jabuticaba brasileira), sob o comando de Bolsonaro, que aparece com mais de 15% das intenções de votos em todas as pesquisas, podendo desidratar lá na frente.

Ainda no campo da direita, a candidatura do tucano Geraldo Alckmin, que carrega grande parte das máquinas partidárias fisiológicas do país, o apoio do empresariado, do mercado financeiro e da grande mídia.

O propósito único da candidatura Alckmin é terminar a agenda que Temer começou: o desmonte do Estado brasileiro através de políticas ultra-neoliberais, talvez só vistas na Argentina nos anos 90.

Esta candidatura começou em um patamar muito baixo, diante do desgaste da política tradicional e do governo Temer, mas não nos iludamos: pode chegar a mais de 20% dos votos totais com a estrutura que vai dispor.

Do outro lado, temos o campo da esquerda, e o lulismo como a sua maior expressão no país.

Representa setores populares saudosos dos tempos de fortalecimento das políticas públicas, distribuição de renda e aumento do consumo, que ampliou fortemente o mercado interno.

A esquerda deve ter cerca de 30% dos votos totais. Porém,com Lula preso e sua candidatura substituída às vésperas da eleição, esse campo não conseguirá propor ao país de forma ampla os temas que poderia representar, sobretudo no segundo turno.

As demais candidaturas terão pouco espaço político para crescer, seja em virtude da pouca estrutura, seja porque não terão muitos elementos para dialogar com o conjunto da sociedade sem uma comunicação verdadeiramente democrática e um período eleitoral extremamente curto.

Este cenário dificilmente trará para o centro do debate questões que o país precisa realmente discutir: restabelecimento e aprofundamento da democracia, reformas estruturais para redistribuição de renda, implantação de políticas de desenvolvimento econômico voltadas para a retomada do crescimento do mercado interno e uma nova inserção internacional soberana.

O segundo turno deve reunir Alckmin e o candidato que sairá do lulismo, com vantagem estreita para o primeiro, diante da pseudo-democracia que vivemos e da enxurrada de votos nulos, brancos e abstenções que poderemos presenciar.

“Bem-vindos” à democracia brasileira para o mundo ver. Cada vez mais com menos espaço para  debates verdadeiros  e menos participação da sociedade.

Paulo Copacabana
No Viomundo
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Processo contra o prof. Áureo Moraes choca por sua prepotência e autoritarismo

O processo contra o professor Áureo Moraes, pelo crime de ter questionado a operação arbitrária da PF que levou à morte do reitor Luiz Carlos Cancellier, choca por sua prepotência e autoritarismo.

A juíza que autorizou e a delegada que comandou a invasão da UFSC e a humilhação do reitor nunca foram investigadas ou punidas, nem sequer assumiram qualquer responsabilidade pela tragédia. As instituições tampouco demonstraram a menor disposição de refletir sobre suas práticas e as consequências às quais levam. O desrespeito aos direitos mais básicos foi, uma vez mais, assumido como triunfo da virtude intransigente.

A morte do reitor nem conta. Julgam, decerto, que faz parte de uma limpeza necessária. Não importa que nenhum delito justificasse tal punição. Não importa nem mesmo que o inquérito policial não tenha sido capaz de imputar qualquer delito ao reitor e que a trama do “desvio milionário” de recursos na universidade tenha se desfeito sem obter a menor solidez.

Agora, desejam coibir a possibilidade de questionamento público das arbitrariedades cometidas. É o procedimento típico das ditaduras.

Não é por acaso que a intimidação tem por alvo um professor universitário, acusado por ter participado de um ato dentro de uma universidade, em resposta a uma operação arbitrária em um campus, que levou à morte de um reitor. O combate à universidade é uma prioridade para eles.

A universidade incomoda por ser um espaço de pensamento crítico. Incomoda por ser uma prova da excelência possível do serviço público. E incomoda ainda mais por ter demonstrado a capacidade de enfrentar seus próprios problemas, atacando a elitização de seu corpo discente com as exitosas políticas de cotas.

O ataque à universidade ocorre em diversas frentes.

Uma frente é o subfinanciamento, que vem grudado ao discurso de que a universidade brasileira é “cara demais” e que é necessário privatizá-la, total ou parcialmente. Foi o que se tentou fazer no governo FHC e que volta à carga agora.

Outra frente é a criminalização da gestão universitária – e esta é uma inovação dos tempos do golpe. Cito Luis Nassif, que publicou recentemente um pequeno e lúcido texto sobre o assunto: “A burocracia pública, para repasses de verbas federais, convênios, obriga as universidades a pequenas gambiarras, remanejamento de sobras de um programa para outro, na prestação de contas. Há pouquíssimo espaço para corrupção. No entanto, a ofensiva visou criminalizar essas pequenas irregularidades, para abrir espaço para a repressão política”.

Quem vive o dia a dia da universidade sabe disso. Exemplo: financiamento de eventos não permite gastos com coffee-break, que, todo mundo sabe, representa uma pausa indispensável para que as pessoas possam acompanhar com proveito os debates. Solução? Algum “jeitinho” para poder comprar um balde de café e alguns pães de queijo. Exemplo: atraso no repasse de verbas leva à suspensão no pagamento de bolsas e inviabiliza a participação dos estudantes no projeto. Solução? Pegar bolsas emprestadas de algum outro financiamento.

Foi por acusações deste tipo que a PF invadiu a UFMG em dezembro do ano passado, levando em condução coercitiva o reitor, a reitora eleita e outros professores.

Detalhe: na ocasião, a operação na UFSC já tinha rendido seu fruto – o suicído de Cau. Mas a PF repetiu o modus operandi na UFMG: ação espetacular, violência desnecessária, humilhação dos envolvidos e nenhum tipo de evidência que justificasse todo o circo.

A terceira frente do cerco à universidade é a censura.

São inúmeros casos, articulados por uma rede que inclui grupos militantes próximos do fascismo, como o Escola Sem Partido e o MBL; agentes da extrema-direita no Judiciário e no Ministério Público; e políticos reacionários. A mídia corporativa oscila entre o apoio mais ou menos envergonhado (como os jornalões paulistas) à adesão entusiástica (como a paranaense Gazeta do Povo).

Para lembrar apenas do caso mais rumoroso: no inicio do ano, Mendonça Filho, então ocupando o MEC, tentou proibir a disciplina sobre o golpe aqui na UnB. Ele teve que recuar, mas em várias outras universidades as disciplinas similares, nascidas da rede de solidariedade criada contra o arbítrio ministerial, sofreram ataques de juízes e procuradores.

Agora, professores da UFABC foram denunciadospela promoção do debate sobre um livro.

A denúncia, anônima, foi arquivada, depois da forte reação contra a tentativa de intimidação. Mas é interessante voltar a ela. Por um lado, era questionado se houve “apologia ao crime” na atividade, o que marca bem a tentativa de criminalização das posições de esquerda. Por outro, devia ser investigado se foram vendidos livros – certamente para tentar enquadrar o caso como exploração de atividade comercial não autorizada no campus. A perseguição ideológica e a busca por “improbidades”, insignificantes em si mesmas mas magnificadas pela exploração política, andam de mãos dadas.

Convém não esquecer dos pesquisadores sobre gênero e sexualidade, que sofrem repetidas tentativas de silenciamento, agressões e ameaças, em casos que se repetem pelo Brasil afora. É toda uma área do conhecimento científico que se deseja extirpar, por medo das consequências emancipatórias que pode suscitar.

O que está em jogo é a própria possibilidade de sobrevivência da universidade, que só tem razão de ser enquanto for um espaço de debate livre e destemida inquirição da realidade.

Em seu lugar, querem um ensino escolástico, que não questione, que não indague, que se adapte ao que existe e apenas promova sua reprodução.

É necessário articular um movimento em defesa da universidade brasileira. Penso que cabe às nossas associações científicas liderar esta iniciativa, com urgência.

Deixo outra sugestão, para os colegas da Educação, que possuem mais competência que eu no assunto: seria interessante pensar em algo como um “observatório da liberdade de cátedra”, que reunisse as ameaças que estamos sofrendo, a fim de registrá-las, permitir uma visão de conjunto e ajudar a organizar nossa resistência.

Luis Felipe Miguel
No Desacato
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A elite brasileira e a manutenção do status quo

Família, pátria e religiosidade, pero no mucho! Como elite brasileira dá arcabouço teórico para tecermos vários comentários sobre ela


Terra à vista…”, já dizia o vigilante a bordo de uma das naus que, depois de desbravar mares, enfrentar intempéries, aportou em território brasileiro. Terra de muitas palmeiras, onde canta o sabiá, o canário, o pardal, a arara… Esta terra chamada Brasil, e que tanto amamos, tem uma elite bem peculiar, que não raro, acaba por fazer aquilo que não prega, ou prega aquilo que não faz.

Muitas são as obras que trouxeram como assunto principal a formação da sociedade brasileira. Dentre as quais se destacam as seguintes: Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; Casa Grande e senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil contemporâneo, de Caio prado Junior. Essas não são as únicas que tratam do assunto supracitado, porém, são consideradas como clássicos importantes para se pensar a questão, e que ultrapassaram épocas, influenciando estudantes, intelectuais notáveis e boa parte da elite brasileira.

Esses autores, de maneira geral, trouxeram informações importantes para se pensar a formação do Brasil enquanto país e na construção da sociedade brasileira. Cada qual com sua narrativa, essas obras traçam um panorama histórico desde a chegada dos primeiros desbravadores dos mares em 1500, passando pela transformação sofrida no Brasil com a política colonizadora portuguesa (visando à exploração), refletem sobre a consciência escravista implantada aqui, e que resultou na política estatal escravocrata, até chegar nas tramas no campo da política nacional, causadora de eventos históricos a la tupiniquim.

Fatos históricos à parte, o que ocorre no Brasil, no tocante a participação da elite nacional, vale (no mínimo) uma boa reflexão, quando não, algumas sonoras gargalhadas. Sem mais delongas, vou discorrer a seguir sobre as minhas impressões da nossa elite nacional.

Bom, mantida (na maioria das vezes) pelo Estado, a elite brasileira estende seus tentáculos a todos os poderes da República (não que isso não acontecia na Colônia e no Império). A elite sempre esteve aí, atuando como sempre gostou de atuar, promovendo a si e aos seus, e alargando o antagonismo entres as classes que formam a sociedade, de forma latente, entre as classes operárias e as detentoras dos meios de produção (confesso que procuro não fazer menção a Marx, mas as circunstâncias me levam a citar o velho).

“Aqui plantando, tudo se dá…”, escreveu Caminha ao Rei de Portugal, comunicando, é claro, sobre as condições favoráveis para a agricultura na recém “descoberta” colônia portuguesa na América. E de fato aqui tudo se dá mesmo! Desde tempo outros, à elite se mantém na dianteira da vida social do Brasil. Evocando novamente o velho Marx, quando ele afirma que o Estado é o balcão de negócios da burguesia, a gente percebe o motivo pelo qual a dita elite nada de braçada em uma sociedade claramente dividida entre classes sociais. Uma vez plantada a semente da elite brasileira, dá-se os frutos cada vez mais.

Com o discurso de que quando se quer chegar em um determinado lugar se consegue, mas que nunca precisou enfrentar um gigante por dia como a maioria esmagadora da população, nossa elite tupiniquim, sai ano e entra ano, goza dos mais benevolentes privilégios que o meio oferece. Não obstante o discurso da meritocracia repetido pela elite como mantra, seus membros ainda reivindicam a pertença ao cristianismo, valorizando a família (que eles insistem em chamar de tradicional), o nacionalismo, a moral e os bons costumes.

Foi com este viés até simpático, que boa parte da elite brasileira foi às ruas no início dos anos 60 do século passado, clamando a Deus e ao Estado, que o “espectro comunista” que pairava sobre as cabeças, fosse dissipado; sabemos que este fato, associado a outros, ajudou os militares a tomar o poder, instaurando uma ditadura que perdurou duas décadas, causando terror, morte e muito sofrimento.

A elite que foi à rua pedir a intervenção do Estado, por intermédio dos militares, foi à mesma que se viu horrorizada quando os mesmos botaram pra quebrar, principalmente depois do Ato Institucional número 5. Nesta hora, a elite botou o rabinho entre as pernas e fez o seu famoso silêncio de cúmplice, até por que, poucos foram os quadros da elite que sofreram perseguição dos milicos.

Dando mais um salto histórico, e chegando até nossos dias, venho observado às manobras da elite para se manter no poder, não apenas econômico (como sempre foi), mas também no âmbito cultural, ou seja, ditando o comportamento que eles julgam adequados no discurso, mas não confirmado na prática. Me valho aqui de três fatos recentes ocorridos no Brasil, que é a mais acabada expressão de como a elite é uma senhora vetusta, que está fazendo hora extra no cenário nacional. Vamos a eles.

Posso começar narrando os fatos anunciados, partindo do forjado processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff, há dois anos. Lembro-me de como o país foi levado a uma divisão desnecessária e irreal, incitado por setores da elite nacional, que controlam mais de 80% dos meios de comunicação de massa. Era claro que a elite estava bancando a campanha de desmoralização da presidenta, com o discurso de fundo contra a corrupção e para extinguir o câncer maior, no julgamento destes, que ameaçava o Brasil, qual seja, o perigo do comunismo.

Manifestantes usaram camisas sa seleção brasileira de futebol em protestos contra a então presidenta Dilma em 2016 na Avenida Paulista.
Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

Alegaram que o Partido dos Trabalhadores é comunista (algo que o PT nunca foi – Cf. Luís Inácio Lula da Silva: um animal político, esculpido e acabado) e, por isso, era preciso retirar quem estava no poder e restaurar a ordem em nome da pátria, de Deus e da família brasileira.

Essa mesma elite que entoava cânticos patriotas e de louvação à família, e brindava com champagne nas ruas deste país, promoveu um circo de horrores ao retratar a presidenta em uma figura de pernas abertas na lataria de alguns carros, dando a impressão que, ao colocar o combustível no veículo, o frentista do posto estava introduzindo a ponta da mangueira que leva o combustível da bomba ao veículo, para dentro da presidenta, pela sua vagina. Sem falar dos muitos xingamentos que dirigiram a Dilma. Isso, veja você, promovido pelos defensores da família dita tradicional!

Isso posto, vamos aos fatos que me valho aqui. Quem não viu ou leu alguma coisa sobre o cancelamento da exposição “QueerMuseu”, no Santander Cultural em Porto Alegre?! A elite nacional, representada por um grupelho de protofascistas de São Paulo, travou batalha conta a exposição, alegando que feria a moral e os bons costumes, além de incitar a zoofilia e a pedofilia. Depois de uma enxurrada de manifestações contrárias nas redes sociais, o mantenedor do espaço achou por melhor cancelar a exposição.

Outra intervenção da elite brasileira em algo relacionado com expressão cultural foi a não menos barulheira feita por ela, por conta de um vídeo que foi amplamente compartilhado nas redes sociais. Em uma sala fechada e sinalizada do Museu de Arte Moderna de São Paulo uma criança, acompanhada pela sua mãe, toca em um homem nu, que representava ali uma peça de uma exposição famosa nos anos de 1960, da artista Lygia Clark.

Os defensores da família, da moral e dos bons costumes, faltaram pegar em espadas, adagas e lanças, como no tempo das Cruzadas, para expurgar os “pedófilos” de plantão. Fizeram até uma campanha apelidada de: “deixem minhas crianças em paz”, desde que as crianças sejam brancas de classe média (as da elite), porque as crianças negras da periferia ainda convivem com cenas que mais parecem de outro mundo!

Convidada para proferir palestras em um evento, em parceria com a Universidade de São Paulo e a Universidade de Berkeley, a filósofa estadunidense Judith Butler foi alvo de protesto em frente ao SESC Pompéia e no aeroporto de Congonhas. Os manifestantes contrários a presença da professora, e uma das mais respeitadas pesquisadoras de estudos sobre questão de gênero no mundo, alegavam que ela não deveria estar no Brasil, divulgando suas ideologias nefastas (como se a sexualidade humana fosse algo ideológico).

Manifestantes queimam boneco que representava a filósofa Judith Butler.
Foto: Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo

Esses são os fatos que escolhi para trazer neste texto, mas não foram os únicos promovidos pela elite defensora da família brasileira. À primeira vista, os desavisados de plantão podem embarcar nesta onda, afirmando que as manifestações foram justas e precisam de apoio da população, mas, por dois motivos eu refuto veementemente esta linha de raciocínio, isso por que: a) a Constituição garante a liberdade de expressão para todos os cidadãos brasileiros; b) as atitudes farisaicas da elite, ou seja, “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”, me faz manter uma distância segura dela.

A mesma elite que gritou contra o que eu trouxe de exemplo neste texto esteve (representada) na noite do último dia 7 de abril em frente ao um famoso bordel de luxo na cidade de São Paulo, conhecido como “Hotel Bahamas”, de propriedade do impoluto Oscar Maroni, que fora condenado por manter um estabelecimento que facilitava a prática de prostituição, mas que fora solto por falta de provas (é pra rir ou não?!).

Na calçada do estabelecimento, sob dois ícones que traziam um juiz da 13ª Vara Federal em Curitiba, e da presidente do Supremo Tribunal Federal, o citado senhor despia uma de suas funcionárias, sob o olhar atento e cheio de volúpia dos espectadores, além de cerveja liberada gratuitamente para a rapaziada. Isso em comemoração à prisão do ex-presidente Lula.

Durante a Copa do Mundo de futebol, na Rússia, a elite (também representada) por distintos senhores, pais de família, trabalhadores, que lutaram contra à corrupção, levaram uma mulher (de origem não conhecida), a repetir em português (língua que ela não domina), que a vagina dela, supostamente deveria ser rosa. Isso causou revolta nas redes sociais. Mas, sabe como é a elite, né?, cheia de influência. Teve quem viesse na defesa dos senhores, alegando que tudo não passou de brincadeira, zoação. Imagina se no lugar dessa mulher estivesse uma filha, uma esposa, uma irmã, uma mãe de algum deles. Será que a brincadeira teria graça?!

É importante ressaltar que no caso da Copa do Mundo, muito mais do que a elite passando vergonha e sendo ridícula, aquela atitude não é exclusividade da dita, mas sim de machistas! Me referi a elite nesse caso, pois não é todo mundo que dispões de no mínimo 10 mil reais para ficar desfilando em outro país durante um evento com a envergadura de uma Copa do Mundo.

Como se vê (e se lê), a elite brasileira dá arcabouço teórico para tecermos vários comentários sobre ela. Às vezes, confesso, me dá “ranço” de ver algumas atitudes, ler alguns comentários por parte de membros da mesma, mas logo recobro a sobriedade e recorro aos meus alfarrábios para consultar as grandes cabeças que já passaram por este mundo e me servem de guia para a caminhada sem conflitos belicosos. E para finalizar este texto, parafraseando o sociólogo e escritor Jessé Souza, a elite brasileira é de fato tola e vive em um imenso atraso!

Edilmar Alcantara
No Biblioo
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Jornal dos Trabalhadores e Trabalhadoras


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Chaui: Democracia é a soberania popular

Isso aqui é uma caricatura do neoliberalismo


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Novela dos vices chega à semana final. E só um deles importa…

Foto: Ricardo Stuckert
Será Janaína, o astronauta ou o príncipe?

Se não é Josué, quem é, pois o Centrão diz que não quer?

Do resto, apenas “prata da casa”, se é possível chamar dizer que são de prata nomes opacos, sem brilho algum.

Que têm até o domingo, dia 5, prazo para serem definidos.

A rigor, só importa, mesmo, o nome de um candidato a vice, o que será apresentado como companheiro de chapa do ex-presidente Lula.

Será o primeiro sinal, embora não necessariamente definitivo, de a quem ele delegará a missão de representá-lo se, afinal, o Judiciário consumar seu impedimento eleitoral.

O esperado é que seja Fernando Haddad, que assumiu o papel de porta-voz programático do candidato.

Pode ser, mas pode ser também, como dizia a velha música, que o inesperado faça uma surpresa…

Lula precisa de alguém sólido, à prova tanto da devassa que a mídia fará sobre ele quanto das tentações de ceder à vanglória de uma notoriedade que não é sua, mas a de representá-lo, enquanto ele não puder falar diretamente.

Em meio aos que desfilam sua insignificância política e um sentido de mera “marquetagem”, um nome terá de refletir sua identidade total com um candidato.

A maior lição que talvez tenhamos aprendido em todas as agruras que vivemos é que, de quem vai ter a tarefa de segurar a bandeira, o mais importante é que seja firme.

Fernando Brito
No Tijolaço
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A essência ausente

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica-2/noticias/2018/07/28/a-essencia-ausente/

Eleições periódicas, na democracia, servem para que cada homem e cada mulher exerçam o poder de escolha, elegendo representantes e também governantes, a partir das propostas que apresentem e dos rumos que apontem para o país, o estado, o município.

Entretanto, faltando exatamente 70 dias para a eleição de 7 de outubro, aqui estamos discutindo quem será o vice de quem, na ausência de propostas claras para o enfrentamento de problemas como o desemprego, o aumento da pobreza, o déficit fiscal ou a violência crescente, sem falar na crise da Previdência.

O atraso na escolha de vices já é, por si, um sinal da esquisitice deste pleito.

A novela vai se arrastar até 15 de agosto, quando todas as chapas terão que ser registradas.

Na pajelança de quinta-feira, em que os cinco partidos do Centrão oficializaram o apoio ao candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, falou-se muito em diálogo e decisões coletivas, e o que os agoniava era a escolha do vice, depois da recusa de Josué Alencar.

Não eram as eventuais diferenças na formulação do programa de governo.

Ninguém condicionou o apoio ao compromisso com qualquer proposta.

Só com cargos, como a presidência da Câmara para o DEM, a do Senado para o PP, ministérios para os outros.

Ciro Gomes é que tem apresentado propostas mais concretas e objetivas, como a adoção do regime de capitalização para a Previdência e a taxação dos dividendos e das grandes fortunas.

Fernando Haddad está coordenando a proposta de Lula, mas dela tem divulgado apenas tópicos. Aguarda-se o detalhamento. O programa de Meirelles é a continuidade do governo Temer, o de Marina, desconhecemos, e o de Bolsonaro é distribuir armas, nomear generais para ministérios, acabar com as cotas raciais e coisas assim.

Um Temer no sapato 

Explicar a aliança com os partidos do Centrão, com sua penca de investigados por corrupção, não será o maior problema de Geraldo Alckmin.

Mais complicado será negar a conexão genética com o governo de Temer, que chegará ao final do mandato em situação de penúria moral, afora o desemprego e a estagnação econômica.

A Polícia Federal descobriu um contrato da Eliland, empresa de fachada controlada pela Argeplan, do coronel Lima, suposto operador de Temer, e a empresa Rodrimar. Busca agora demonstrar que os pagamentos da portuária eram propinas destinadas ao presidente que assinou o decreto dos portos.

O PSDB foi o parceiro decisivo do MDB na urdidura do impeachment que deu a Temer a cadeira de Dilma Rousseff.

Indicou quatro ministros e assumiu até mesmo a coordenação política do governo com Antonio Imbassahy.

Quando estourou o caso JBS, fez um rompimento de meia tigela: manteve ministros no governo, deu metade dos votos de sua bancada para a rejeição das duas denúncias e ajudou a aprovar as propostas mais antipopulares do governo, como a reforma trabalhista e a PEC do gasto público.

Quando o horário eleitoral começar, os adversários vão explorar tudo isso. Mas Alckmin, dizem os aliados, poderá apontar para Henrique Meirelles e dizer: “candidato do governo é aquele ali”. Será o eleitor tão ingênuo?

Contradições mineiras

A eleição da ex-presidente Dilma Rousseff ao Senado, por Minas, vai ser um passeio.

Segundo a recente pesquisa Doxa, ela tem 20% de preferência, contra 26% de todos os adversários juntos, inclusive o rival Aécio Neves, que chega a 11%. Mas o não-voto (nulos, brancos, nenhum candidato) ainda alcança 36%.

Já a situação do governador petista Fernando Pimentel é muito difícil.

Na mesma pesquisa ele tem apenas 21% de avaliação positiva, contra 69% de nota negativa, e nas pesquisas eleitorais tem ficado em segundo lugar, atrás do tucano Anastasia.

Ele tem buscado colar sua imagem em Lula, que tem 41% de preferência para presidente em Minas. O PT também cresceu à sombra do lulismo. Tem a simpatia de 17% dos mineiros. Em segundo lugar vem o PSDB, com 3%.
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Herdeiro da RBS que atropelou três estudantes em Florianópolis não comparece a audiência

Ele
Sérgio Orlandini Sirotsky, denunciado pelo Ministério Público por homicídio doloso ao atropelar três estudantes na SC-402, em agosto do ano passado (uma vítima morreu) não compareceu na audiência de instrução e julgamento nessa sexta-feira (27) no auditório do Fórum da Capital. O advogado Nilton Macedo apresentou justificativa, arguindo que seu cliente está em tratamento médico em uma clínica.

O acidente ocorreu por volta das 5h30 do dia seis de agosto, próximo ao complexo Music Park, no Norte da Ilha. Sérgio Teixeira da Luz, Rafael Machado da Cruz e Edson Mendonça de Oliveira saiam da festa e se dirigiam para o ponto de ônibus aguardar um Uber quando foram atropelados, pelas costas, por um Audi A3 dirigido por Sérgio Sirotsky. Sérgio Teixeira da Luz morreu cinco dias depois no hospital e os demais colegas conseguiram sobreviver, mas ficaram com sequelas.

Na audiência de sexta, o juiz da Vara do Tribunal do Júri, Marcelo Volpato de Souza, interrogou 16 testemunhas de acusação. Nilton Macedo, que representou Sérgio Sirotsky, também fez algumas perguntas para as testemunhas.

Após os atropelamentos, Sérgio Sirotsky fugiu do local e abandonou o carro na SC-401. Dali, ele pegou carona com amigos até em casa. Quando foi ouvido na polícia, falou que vinha de uma balada e admitiu ter bebido uma dose. Sobre o acidente, alegou que deu “um branco”, não lembrando de mais nada.

Conforme o advogado Wilson Knoner Campos, assistente de acusação, que defende a família de Sérgio Teixeira da Luz, no dia 22 de agosto vão ser ouvidas as últimas duas testemunhas de acusação e as de defesa. “Nesta audiência deverá ser agendada a data do interrogatório do réu”, afirmou. Campos revelou que durante a instrução do processo pediu a prisão preventiva e o recolhimento do passaporte de Sirotsky, mas o juiz negou os pedidos e deferiu apenas algumas medidas restritivas, além do recolhimento noturno do acusado.

* * *

PS: Em 2010, aos 14 anos, Sérgio filho e amigos estupraram uma garota de 13 num caso que foi abafado.

Elio Gaspari contou a história em sua coluna.

O que aconteceu no apartamento do garoto não se sabe com precisão, pois o inquérito policial e o processo correm em segredo de Justiça. Durante a investigação, quem devia preservar o sigilo permitiu que ele vazasse.

A jovem contou em seu depoimento que foi estuprada por um ou dois rapazes, ambos menores. Além do dono do apartamento, denunciou o filho de um delegado. Medicada num hospital, deu queixa à polícia e submeteu-se a um exame de corpo de delito. Nos últimos dez dias, o caso explodiu na internet.

A família Sirotsky publicou um comunicado informando a ocorrência do “lamentável episódio”, lembrando que “confia integralmente nas autoridades policiais”.

Para que se possa confiar mais nessas autoridades, o secretário de Segurança de Santa Catarina deve exonerar o delegado Nivaldo Rodrigues, diretor da Polícia Civil de Florianópolis. Numa entrevista gravada, ele disse o seguinte:

“Eu não posso dizer que houve estupro. Houve conjunção carnal. Houve o ato. Agora, se foi consentido ou não, se foi na marra, ou não, eu não posso fazer esse comentário, porque eu não estava presente”.

No DCM
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29 de jul. de 2018

Guerrilha do Araguaia: borboletas, lobisomens e inverdades

Um dos episódios marcantes na história do Brasil, a luta armada no Sul do estado do Pará, durante a ditadura militar, tem sido objeto de pesquisas e debates. Mas há os que tentam deformar o seu sentido e vulgarizar seus propósitos.




Com grande alarido na mídia, acaba de ser laçado o livro “Borboletas e lobisomens”, de Hugo Studart, historiador, jornalista e professor. Em 658 páginas, ele aborda a Guerrilha do Araguaia, organizada pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) na virada das décadas de 1960-1970 no Sul do estado do Pará, de um ponto de vista que mescla “imaginários” com informações atribuídas à institucionalidade do espectro do regime militar de 1964. “Trabalho com a hipótese de que os guerrilheiros do Araguaia estavam essencialmente tomados por sonhos, movidos pela esperança de construção de um país justo e igualitário, seguindo o imaginário revolucionário daquele tempo, as décadas de 1960 e 1970”, escreve ele (página 31).

A ideia-força da obra é a tentativa de julgar o conflito como algo fora da realidade daqueles tempos, uma tragédia cujos principais responsáveis são os dirigentes do movimento guerrilheiro. Esse julgamento aparece nitidamente nas “Considerações finais” (página 493), quando os “dirigentes do PCdoB” são apontados, sem meias palavras, como responsáveis pelas mortes ocorridas na região. Devem ser “responsabilizados perante a história pela imolação daquele punhado de homens e mulheres que sonhavam um sonho quando as esperanças eram grandes” (pagina 501). Os dirigentes sabiam, segundo o “imaginário” do autor, “que aqueles jovens estavam sendo enviados à morte”, mas eram movidos por “uma mentalidade doentia” de “acreditar que a imolação de seres humanos poderia construir uma nova vida política para o Brasil” (página 500 e 501).

Para piorar a situação, segundo Studart, “foi uma covardia ímpar cortar as comunicações e as linhas de abastecimentos”, uma falsificação inacreditável diante de tantas evidências que desmentem essa calúnia (pagina 501). “Ora, por qual razão a direção do partido cortou por completo as linhas de abastecimento da guerrilha no exato momento em que os militares chegaram ao Araguaia?”, indaga o autor (página 496). Segundo ele, “o partido cortou repentinamente as linhas de abastecimento”. “Sem aviso prévio, não havia mais qualquer fluxo de armas, munição, remédios, alimentos, dinheiro. O partido cortou até mesmo a comunicação. As cartas iam do Araguaia para São Paulo. Mas a via inversa foi interrompida”, escreve ele (página 499).

Studart certamente sabia da queda da Comissão de Organização do PCdoB, liderada por Carlos Nicolau Danielli, entre o final de 1972 e o começo de 1973. O episódio foi reconstituído na biografia de Danielli, escrita pelo jornalista Osvaldo Bertolino em 2002, citada na obra de Studart na bibliografia e no episódio em que ele comenta o retorno de Criméia Alice Almeida ao Araguaia, em missão partidária, depois dela ter sido retirada da região, grávida, pelo guerrilheiro Zezinho (página 460). Como demostra a biografia de Danielli, a ligação com o Araguaia era feita pela Comissão de Organização, àquela altura assassinada pela repressão (além de Danielli, foram mortos Lincoln Cordeiro Oest e Luiz Guilhardini).          

No livro de Studart, no entanto, esse episódio não aparece. Talvez porque seria a negação da sua tese de que João Amazonas, Elza Monnerat e Ângelo Arroyo “desertaram” da Guerrilha. Ele optou por insistir na falácia, chegando ao ponto de afirmar que Amazonas e Pomar “não designaram ninguém”, para o lugar de Danielli. Com isso, a ligação com o Araguaia foi cortada (página 290), uma afirmação que combina desinformação com dedução para concluir que os dirigentes da Guerrilha João Amazonas e Ângelo Arroyo deveriam ser submetidos ao “Tribunal Revolucionário das Forças Guerrilheiras do Araguaia” por deserção e pegar pena de morte. A argumentação é um devaneio inexplicável para quem tem um mínimo de informação sobre aqueles acontecimentos.

Condenação de Amazonas, Grabois e Pomar

No caso de Amazonas, Studart alega que ele abandonou a região de caso pensado, conforme o relato do encontro dele com Elza Monnerat na rodoviária de Anápolis, Goiás. O autor finaliza o episódio dizendo que o encontro “pode intrigar observadores laicos, dado o tamanho das coincidências”. “Contudo, boa parte dos militantes do PCdoB sempre enalteceu a profunda sintonia entre os dirigentes Elza e Amazonas — ilustrado pelo não dito em Anápolis — como algo extraordinário, mágico.”

O “não dito” seria o gesto de Elza “apontando o dedo para baixo” quando “se esbarraram na rodoviária de Anápolis por acaso, segundo a narrativa do partido”. O episódio é descrito por Studart sem nenhuma contextualização e sem apresentar nada que pudesse justificar uma segunda versão (página 475). É um caso típico de dedução, de “imaginário”. Amazonas, de acordo o autor, havia deixado a região da Guerrilha por meio de um ardil, ludibriando Maurício Grabois, seu mais fiel camarada, aliado político e amigo, alegando uma “dor de dente” que precisava ser tratada em São Paulo (páginas 474 e 475).

A inverdade fica mais flagrante quando ele escreve que “na Guerrilha do Araguaia, sob os codinomes Cid e Mário, havia uma aparente harmonia entre os dois”, que “revezavam-se em todas as funções e missões”, como “ir a São Paulo, de tempos em tempos, a fim de participar de reuniões da Executiva do partido” (páginas 474 e 475). Studart não deixa pistas sobre se essa dedução de que Amazonas sabia do iminente ataque da repressão à região decorreu de poderes premonitórios ou se ele era ligado à repressão. O mais provável, de acordo com a sua formulação, é a segunda hipótese, uma vez que a harmonia entre Amazonas e Grabois era apenas “aparente”.

Esse nó “imaginário” fica ainda mais embaraçado quando ele escreve que dentro do PCdoB Amazonas e Grabois eram hierarquicamente iguais, “contudo, um degrau abaixo de Pedro Pomar” (pagina 474). A afirmação aparece seca, abrupta, sem nenhuma consideração ou justificativa, o que denota desleixo ou sabe-se lá o quê. A coisa piora quando se constata, ao longo do livro, que Pomar, Amazonas e Grabois sempre estiveram no mesmo patamar. De acordo com sua própria versão, os três lideraram a “fundação” do PCdoB em 1962, que decidiu “deflagrar uma insurreição armada que tinha por objetivo promover uma revolução socialista no Brasil” (página 22).

Eram tão cúmplices que, assim como o Exército, não permitiram que o partido contasse como a Guerrilha foi derrotada, mantendo “segredo sobre o episódio” (página 23). Só em 1996, de acordo com o “imaginário” de Studart, quando começaram a aparecer acervos pessoais dos militares, entregues para jornalistas e historiadores, o PCdoB “começou a abrir sua própria história”, com o comparecimento de João Amazonas “à Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados para prestar depoimento sobre o Araguaia”. “Ou seja, exatos 22 anos após o fim do episódio, o PCdoB daria início à sua própria ‘abertura’. Uma abertura lenta, gradual e segura”, escreve ele (página 23).

É uma flagrante inverdade. Basta uma pesquisa mínima para se constatar publicações e atos políticos do PCdoB sobre o assunto. Mas, de acordo com o “imaginário” do autor, “desde então, o partido passou a incentivar publicações sobre o episódio, seja em reportagens na imprensa, seja em livros de seus militantes ou, ainda, em pesquisas acadêmicas” escreve ele, sem comprovar o que diz (página 23). E arremata a falsa afirmação dizendo que “até a presente data, o PCdoB não abriu seus próprios arquivos para pesquisadores não filiados” (página 24). É mais uma flagrante inverdade; o Centro de Documentação e Memória (CDM) da Fundação Maurício Grabois já foi visitado por vários pesquisadores sem filiação ao PCdoB.

Outra falsificação grosseira é a afirmação de que o PCdoB “reagiu” ao “destaque editorial” sobre a Guerrilha iniciado pelos militares “ao longo da década de 2000” (página 24). Como prova, ele apresenta as biografias de João Amazonas, Elza Monnerat, Maurício Grabois e Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, pela “editora oficial do partido”, a Anita Garibaldi. Trata-se de um argumento reles, como se houvera uma gincana editorial entre as duas forças que se enfrentaram no Araguaia, que se estende para as versões sobre o que teria acontecido com os guerrilheiros (página 25).

A “fundação” do PCdoB

Outro argumento grosseiro aparece quando Studart descreve a trajetória do Partido Comunista do Brasil — segundo ele, “fundado em 1922 por integrantes do movimento tenentista” e embalado, “a partir da década de 1930, sob a liderança do capitão do Exército Luiz Carlos Prestes” —, que “nasceu de uma costela das Forças Armadas” (página 49). É mais uma informação abrupta, sem nenhuma explicação, que contraria frontalmente os registros históricos.

Ele se apoia num documento “secreto” produzido pelo Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (Cisa) para descrever as organizações de esquerda que se engajaram na luta armada (página 49). Contra todas evidências, Studart dá crédito a um documento que define o Partido Comunista Brasileiro (PCB), uma das vertentes da divisão comunista do final da década de 1950 e início da década de 1960, como seguidor da “estratégia apontada por Antonio Gramsci, um dos mais originais e importantes pensadores marxistas do Ocidente, autor da ideia de revolução pacífica dentro do aparelho do Estado” (páginas 49 e 50).

A Ação Popular (AP), segundo o autor, “também professava a linha gramsciana” (página 50). Já o PCdoB, “desde a sua fundação, em 1962, preconizava em seus documentos uma linha política de tomada do poder por meio da luta armada” (página 51). A afirmação se apoia no envio de militantes “para o treinamento em estratégias e táticas de guerrilhas na Academia Militar de Pequim” (página 52). A AP seguia a mesma linha, o que teria dado origem a um grupo que começou “a introduzir Brasil afora o pensamento do novo profeta do comunismo, Mao, ‘O Grande Timoneiro’”, que mais tarde “formaria mais uma dissidência, a Ação Popular Marxista-Leninista (APML)”, tirando “do PCdoB o monopólio da representação do maoísmo no Brasil, o que deixava os dirigentes stalinistas furiosos” (página 52).

É uma empulhação, está claro. O PCdoB estudou o caminho da luta armada por longo tempo (veja aqui O PCdoB e o caminho da luta armada). Quanto à APML, seu aparecimento se deu como evolução do debate entre 1968 e 1971, quando a AP aprovou o “programa básico” e mudou o nome para Ação Popular Marxista-Leninista. No processo, cristalizou-se a polarização entre a "maioria" — capitaneada por Duarte Pacheco Pereira, Haroldo Lima, Aldo Arantes e Renato Rabelo — e a "minoria", cujos líderes mais expressivos eram Jair Ferreira de Sá e Paulo Wright.

Manifesto-Programa do PCdoB

A versão sobre a “fundação” do PCdoB em 1962 é outra falsificação da história. No mínimo o autor deveria ter apresentado as versões das duas vertentes comunistas (PCB e PCdoB), ambas reivindicando a continuidade do partido fundado em 1922, recorrendo, por exemplo, à farta documentação que serviu de base para as biografias de João Amazonas e Maurício Grabois (publicadas em 2012), citadas por ele, e, com mais riqueza de detalhes, a de Pedro Pomar (publicada em 2013). Mas Studart optou pela tergiversação, com conotação provocativa.

Segundo ele, os dirigentes do PCdoB no tempo presente “acreditam (ou fingem acreditar)” na fundação do partido em 1922, citando como exemplo a celebração dos “supostos 90 anos da organização com uma campanha publicitária na televisão no qual informavam que o partido jamais mudou, continua o mesmo desde sempre”. “Ainda apresentaram a imagem de alguns de ‘seus’ comunistas históricos renomados, como Olga Benário, Jorge Amado e Oscar Niemeyer”, vituperou. “Ora, mais do que uma imprecisão, trata-se daquilo que Hannah Arendt, em seu ensaio “A mentira na política”, classificaria de ‘deslavada mentira’, ou ainda, na melhor das hipóteses, ‘embustes e autoembustes, segundo as palavras da pensadora”, afirmou (páginas 63 e 64).

Studart falsifica até o Manifesto-Programa do PCdoB (veja aqui Reorganização do PCdoB: a história da Conferência extraordinária e aqui A Conferência de Fevereiro de 1962 e a reorganização do PCdoB) para dizer que o documento “pregava a luta armada, inclusive contra o governo de João Goulart, que mal começava” (página 64). Ele mesmo se desmente ao reproduzir o trecho em que o PCdoB avaliou que “as classes dominantes tornam inviável o caminho pacífico da revolução” e que “as massas operárias e camponesas teriam que recorrer a todas as formas de luta”.

Ou seja: o caminho da luta armada dependeria do comportamento das classes dominantes, como teorizou Maurício Grabois na “Tribuna de Debates” do 5º Congresso do PCB. “Embora, na presente situação do mundo, se deva ter em conta a viabilidade do caminho pacífico, não se pode, nas condições brasileiras, torná-lo absoluto. Os comunistas preferem este caminho. Mas cometeriam grave erro se nele apoiassem toda a sua atuação, porque nada ainda tem comprovado que o caminho da revolução brasileira é o caminho pacífico. A experiência passada e recente dos países da América Latina mostra que não foi pacífico o caminho para derrubar as ditaduras. Mesmo no Brasil, a prática mostra que as mudanças na estrutura econômica do país ou nas instituições políticas, não se fizeram sem o apelo à força armada, embora nem sempre se verificassem choques sangrentos”, escreveu.

Rigor com as fontes

Studart insiste nessa versão falaciosa (ele volta ao assunto nas páginas seguintes), como se o PCdoB fora “fundado” para cometer estultices. É a reedição daquilo que Pedro Pomar definiu como atribuir sandices aos outros para rebatê-las com ar triunfal. O autor faz isso também ao descrever a visita de Diógenes Arruda Câmara ao 19º Congresso do “PC soviético”, em 1952, como se fosse um deslumbrado diante do líder soviético Josef Stálin, baseado no infame livro “O Retrato”, de Osvaldo Peralva. Faz o mesmo ao relatar os efeitos do 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), de 1956, no PCB, com base no também infame livro “A revolução impossível — a esquerda e a luta armada no Brasil”, de Luís Mir (página 67).

Ele repete a infâmia ao deformar os conceitos de “ditadura do proletariado” e do “centralismo democrático” para imputar a uma fantasiosa “ala” do partido, liderada por Arruda, “em cujas fileiras perfilavam-se João Amazonas, Pedro Pomar e Maurício Grabois”, a rejeição à “abertura democrática” do PCB, em fins de 1956” (página 70). Esse grupo lideraria a “fundação” do PCdoB, com o pendor militar do antigo PCB, que servia à tática do Exército Vermelho soviético de treinar membros das forças armadas e militantes comunistas do terceiro mundo, “a começar pelo ex-oficial do Exército, Maurício Grabois” (página 71).

É de amplo conhecimento que Arruda não aderiu ao grupo que reorganizou o Partido Comunista do Brasil, com a sigla PCdoB, em 1962, e que só ingressaria nele algum tempo depois. Também é mais do que sabido que Maurício Grabois foi expulso da Escola Militar do Realengo por atividades políticas; jamais fora “oficial”.

Como se vê, se tem uma coisa da qual Studart não pode ser elogiado é o rigor com as fontes. Tanto que ele recorre ao livro de Peralva, segundo o próprio autor “redigido a fel de fígado no lugar de tinta”, para agredir a memória de alguns dos principais dirigentes do PCB pré-reorganização de 1962. Da mesma forma, dá como verdade a conversão do judeu Grabois em “ferrenho antissemita” por “orientação de Stálin” (páginas 74, 75, 76, 77, 78, 79, 80, 81 e 82).

Biografia de Pedro Pomar

Outro exemplo de vergonhosa falta de rigor com a fonte se dá quando Studart avalia a biografia “Maurício Grabois: uma vida de combates”, do jornalista e pesquisador Osvaldo Bertolino (veja aqui Maurício Grabois e os combates na Guerrilha Araguaia). Ele simplesmente reproduz mentiras deslavadas do jornalista Lucas Figueiredo na revista CartaCapital (veja aqui Diário de Maurício Grabois: resposta de Lucas Figueiredo tem pernas curtas), sem sequer citar a fonte (página 80). Erra, por omissão ou desídia, duas vezes com uma só cajadada. De acordo com a infâmia de Studart, o “funcionário da Fundação Maurício Grabois” Osvaldo Bertolino (a tentativa de desqualificar a polêmica é de Lucas Figueiredo, não citada pelo autor) “pode ter deixado seu coração ser levado ao extremo oposto do fígado de seu xará Osvaldo Peralva” (páginas 80 e 81).

Há ainda o exemplo de Pedro Pomar, tido por Studart como líder de “uma ala do PCdoB que buscava analisar as causas da derrota militar por meio de profundas autocríticas, em oposição à ala liderada por João Amazonas, que tentava manter uma visão triunfalista do episódio” (páginas 86 e 87). A biografia “Pedro Pomar — ideias e batalhas”, também de Osvaldo Bertolino, reconstitui o episódio minuciosamente, revelando que os fatos são bem distintos da versão fantasiosa de Studart.

Sobra infâmias também para Carlos Nicolau Danielli, descrito como um irresponsável que iludia os jovens encaminhados ao Araguaia prometendo que as armas seriam tomadas do Exército e as “provisões” providas pela selva (páginas 99 e 100). Danielli, Amazonas e Grabois entrevistavam os jovens em São Paulo e, de acordo com a acusação de Studart, “não prestavam qualquer informação sobre o ambiente em que iriam viver” (página 106). Ele alega que teve acesso a depoimentos dos jovens à repressão e, com base neles, afirma que “os dirigentes do PCdoB não informaram explicitamente que eles estavam indo para o Araguaia participar de uma luta revolucionária” (página 197).

Para emprestar credibilidade à acusação, Studart recorre a uma entrevista do dirigente do PCdoB Newton Miranda (falecido em 2010, no Pará) à revista “Amazônia”, na qual ele teria dito que os militantes eram convocados para ir ao Araguaia sem saber o que estava acontecendo na região, “para evitar que o movimento guerrilheiro fosse descoberto pelos militares”. A informação é inverossímil; o caminho da luta armada foi amplamente debatido no PCdoB, conforme apontam os documentos aqui relatados.

Ataques a Elza Monnerat

Elza Monnerat (Tia Maria) não poderia escapar das infâmias. De acordo com a narração de Studart, ela teria indicado o local em que a militante do PCdoB Rioco Kayano fora presa numa pensão em Marabá, Pará. Quando retornou a São Paulo, no episódio da rodoviária de Anápolis, informou à direção do partido que não teria conseguido avisar Rioco porque “a prioridade era alertar João Amazonas”.

Studart relata, sem citar a fonte, que num ônibus revistado por militares “um recruta foi abordado por uma senhora, entre cinquenta e sessenta anos”. “Essa senhora teria dito que vira uma moça ‘suspeita’ numa determinada pensão. Era uma japonesa a quem nunca vira antes e estava agindo de forma estranha”, escreveu ele (páginas 208 e 209). Trata-se de uma torpeza, está claro.

A tentativa de atingir a imagem das principais lideranças da Guerrilha é explícita. Osvaldão também é descrito de forma negativa, uma figura insensível a ponto de, no final da Guerrilha, escolher apenas os “mais corajosos e preparados” para ficar com ele, “apontando o dedo apenas para oito deles, os escolhidos, os ‘eleitos’, os únicos que poderiam segui-lo”. Os demais que “descobrissem um jeito de escapar vivos” (página 42). Quando o estudante de medicina Tobias Pereira Júnior chegou à região com a promessa de que daria assistência médica à população carente, de acordo com a versão de Studart, Osvaldão teria lhe dado uma arma e dito: “Este é o seu hospital: é ficar ou morrer” (página 107).

Ele também teria obrigado mulheres a formar um grupo de execução, um “justiçamento”, para “testar a coragem e a determinação revolucionária feminina” (página 323). Studart tenta mostrar uma decepção de Osvaldão com Arroyo, que teria ludibriado um camponês com dinheiro falso para comprar a sua fuga. Ao comprovar a “fuga”, diz o autor citando o camponês, “Osvaldo se afasta, vai para perto de umas bananeiras e começa a chorar”. Chorou compulsivamente, “urrava de dor” (páginas 472 e 473).

Ataques a Ângelo Arroyo

Arroyo também é duramente atingido em outras citações. Sua “fuga” teria sido considerada pelos guerrilheiros como “deserção, uma traição” (página 394). Studart sentencia Arroyo: “Abro um interstício para registrar que, caso o novo comandante em chefe das Forças Guerrilheiras do Araguaia fosse membro das Forças Armadas, de soldado a general, sua fuga do Araguaia poderia ser considerada deserção, com o agravante pelo ato de covardia. Nesse caso, seria aberto um Inquérito Policial Militar e ele seria julgado pela Justiça Militar. Em caso de guerra, mesmo no Brasil, poderia pegar pena de morte. Exatamente a mesma pena que o Tribunal Revolucionário das Forças Guerrilheiras do Araguaia prometia aplicar a seus desertores: execução sumária, sob o eufemismo do ‘justiçamento’. Contudo, no governo Lula, Arroyo foi festejado e heroicamente anistiado pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça” (página 473).

De novo, o problema de Studart são as fontes. Ele poderia ter analisado o caso, bem elucidado na biografia de Maurício Grabois, para não escrever tamanho devaneio; quando Arroyo deixou o Araguaia, as forças da repressão já haviam tomado a região. O ataque à Comissão Militar, no Natal de 1973, quando Maurício Grabois foi morto, na prática selou o fim da Guerrilha.

Studart aplica a mesma sentença para João Amazonas. Após ludibriar seu amigo e camarada Maurício Grabois para “fugir dos combates assim que o Exército chegou ao Araguaia”, ele “optou por cuidar do partido, em segurança, a partir dos aparelhos de São Paulo” (páginas 469 e 78). Jamais enviou “qualquer notícia aos camaradas que permaneceram no Araguaia” (página 165). Também era um insensível, de acordo com a narração de Studart. Certa feita teria passado uma reprimenda no médio João Carlos Haas Sobrinho, o doutor Juca, porque “entre a segurança dele e a nossa, ou ajudar alguém, ele não pensava duas vezes” (página 197).

“Delação” de Carlos Danielli

A versão de que Amazonas é um “desertor”, segundo o próprio Studart, é da repressão. “Pode até ser uma óbvia tentativa de desqualificá-lo. Mas não há outro qualificativo para explicar a atitude de Amazonas de fugir da luta armada, abandonando seus camaradas na mata, sem linhas de abastecimentos, sem armas, sem remédios, sem qualquer notícia. Sequer enviou uma mensagem do tipo ‘virem-se sozinhos’, ‘salvem-se quem puder', ou algo assim. Simplesmente desapareceu. Se fosse militar — como era o caso de Grabois, ex-oficial da Aeronáutica — é certo que seria aberto um IPM e Amazonas seria levado à Justiça Militar sob a acusação de ter cometido crimes de deserção e covardia. Como era comandante guerrilheiro, pelo menos em tese, Amazonas teria sido levado ao Tribunal Revolucionário. A pena para o crime de deserção é a morte, o justiçamento”, sentenciou (página 476).

É inacreditável que Studart ignora as evidências de que essa versão não se sustenta. São óbvias demais. Há fatos, como os aqui já relatados, que comprovam isso. Não há uma vírgula que comprove o que ele afirma. Mas o autor segue em frente, desta vez acusando Amazonas de ludibriar também Pedro Pomar, seu camarada e amigo desde a década de 1930. Mais uma vez, as versões desfilam na narração atropelando os fatos.

A começar pela imposição de Amazonas e Elza Monnerat de que uma “discussão profunda sobre o assunto”, a “deserção”, estava proibida. Depois vem a incrível afirmação de que Pedro Pomar (o secretário de Organização) questionava “sobre o fato de terem cortado comunicação e as linhas de abastecimento” e os “desertores” alegavam que, com a morte de Danielli, “o partido não tivera condições de se organizar” (páginas 476 e 477).

Contra as mais elementares evidências, Studart afirma que Danielli foi “delatado pelo dirigente Jover Telles” e morto “em ataque dos militares ao aparelho onde se escondia” (páginas 477 e 500). “Chamo a atenção para o uso do verbo ‘delatar’. Era assim que o partido se referia ao fato de algum militante ter revelado o que sabia, sem considerar a tortura a qual fora submetido. No caso de Jover, falecido em 2010, ele enfrentou por quatro décadas o estigma de ser apontado como um grande traidor do partido”, escreve o autor (página 477).

Na verdade, Jover Telles seria o “delator” da reunião da Lapa, quando houve a chacina em 1976, conforme ele mesmo confessou em relatório analisado em detalhes na biografia de Pomar. Sobre as brutais torturas sofridas por Danielli no DOI-Codi do II Exército em São Paulo, comandadas pessoalmente pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que o levou à morte, Studart não emite uma palavra no livro.

Difamação de Amazonas

Amazonas, por sua vez, continuava passando a perna em seus camaradas e amigos, conforme os delírios de Studart. Mais uma vez sem explicar se o caso era de premonição ou cooptação, ele afirma que deliberadamente o “fugitivo” do Araguaia enviou Pedro Pomar, “o principal opositor (e questionador) de Amazonas”, para a morte.

De acordo com a narração folhetinesca, os dois dirigentes do PCdoB “revezavam-se nas missões partidárias internacionais”. “Contudo, Amazonas pediu para ir em seu lugar. Assim foi feito. E, dessa forma, Amazonas escapou da Chacina da Lapa” e “emergiu como o único todo-poroso dirigente do partido — tendo Elza Monnerat como a número dois da Executiva” (página 477).

Com isso, narra Studart, Amazonas evitou também ter de responder aos questionamentos de Pomar sobre a “fuga” do Araguaia e às “críticas violentas por escrito, no chamado ‘Relatório Pomar’”, jogando a “responsabilidade para outro dirigente, Carlos Danielli que, por questão de segurança, era o único responsável pelo abastecimento no Araguaia”. “Ora, Danielli havia morrido em dezembro de 1972, em ataque dos militares ao aparelho onde se escondia. E, desde então, segundo Amazonas, não teria havido condições efetivas da Executiva do partido se reunir para ungir outro responsável. E como ninguém tomou para si a responsabilidade, aqueles jovens foram deixados à própria sorte, opção no mínimo irresponsável”, escreve ele (página 500).  

Esse é outro caso reconstituído na biografia de Pedro Pomar, com farta comprovação de que as coisas acontecerem de modo totalmente diferente. A começar pelo fato de que foi Pomar quem pediu a substituição, motivado por uma grave ocorrência com sua esposa, Catarina, hospitalizada para fazer uma cirurgia de emergência para a remoção de um aneurisma cerebral. Mas, na fantasia de Studart, o importante não são os fatos e sim a difamação de Amazonas, que prosseguiu impondo o silêncio no PCdoB sobre “as verdadeiras causas” da derrota no Araguaia (página 477).

Ataques a Maurício Grabois

Grabois, por óbvio, é o dirigente do PCdoB mais citado na obra, tendo como referência seu suposto “diário” que Studar diz ter sido copiado a mando de um capitão da área de informações (páginas 202 e 293). O original fora incinerado, segundo o autor (veja aqui Maurício Grabois e os devaneios de um jornalista da CartaCapital). Em algumas passagens ele relata, sem explicar por que, a citação de fatos importantes no “diário” oito e sete meses depois (rodapé da página 221, por exemplo). “Baiano de Salvador, Grabois era um dos comunistas históricos mais conhecidos do Brasil. Era cadete do Exército quando, em 1934, aos 22 anos, entrou para o Partido Comunista”, de acordo com a descrição de Studart (página 123).

Não há justificativas para erros tão primários: Grabois é paulista (por acaso foi registrado pela segunda vez em Salvador) e não passou de estudante da Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro. Na mesma obra, ele apresenta o comandante militar do Araguaia como “ex-oficial da Aeronáutica” (página 476). Na sua obra anterior, “A lei da Selva”, Studart diz que Grabois fora “oficial de artilharia da Força Expedicionária Brasileira na Itália” (veja aqui A Guerrilha do Araguaia vista pela “imaginação” de Studart).

Grabois, assim como Amazonas, também tinha rompantes grosseiros e insensíveis, como no episódio em que o doutor Juca fora repreendido por “ajudar alguém” antes da sua segurança e dos demais guerrilheiros. “Velho Mário (codinome de Grabois) se opunha abertamente às ideias e aos métodos do doutor Juca. Tratava-o pejorativamente por ‘pacifista’. Certa vez, em uma das reuniões do Destacamento A, quando se discutia novas normas de segurança diante do cerco do Exército, o comandante em chefe chegou a explodir diante das posições humanista do médico-guerrilheiro”, afirma (página 197). “Que se fodam os pacifistas. Eu quero é que esses pacifistas vão para a puta que pariu”, teria ralhado Grabois.   

Era também, na avaliação do autor, despótico, como no caso em que protegeu o filho, Zé Carlos (André Grabois), num conflito entre guerrilheiros (página 467). Ao mesmo tempo, Studart o descreve como ingênuo a ponto de acreditar nas boas intenções de Amazonas. Segundo ele, Grabois registrou no “diário”, até o fim, a esperança de retorno do amigo e camarada. “No dia em que completou sessenta anos, a 2 de outubro de 1972, voltou a registrar o carinho e admiração por Cid. Pela ordem, no relato, primeiro citou Cid, depois a companheira, os filhos e, por fim, neto”, escreve ele (página 476).   

Operação mortos-vivos

A obra é permeada de relatos do cotidiano dos guerrilheiros de difícil comprovação. Na narração aparecem intrigas, disputas, romances e tragédias. Tudo de acordo com depoimentos de moradores da região e de informações da repressão. Há casos escabrosos e absolutamente inverossímeis, como o da guerrilheira Criméia, apresentada como a única das mulheres presas que “alega tortura” (página 452).

Studart faz um longo relato sobre uma relação afetiva dela com um agente da repressão, totalmente baseado em “imaginário” (páginas 459, 460, 461, 462, 463 e 465). Ela teria omitido ao pesquisador Osvaldo Bertolino, em depoimento para o livro “Testamento de Luta: a vida de Carlos Danielli”, que voltou ao Araguaia não em missão partidária, mas a serviço do Centro de Informações do Exército (página 460).

Ele também faz um longo relato sobre um inimaginável caso de afeto entre a guerrilheira Áurea e o sargento encarregado de executá-la (páginas 406, 407, 408). Na versão do autor, contrariando fatos e evidências, os agentes da repressão respeitavam as mulheres, como é o caso do tratamento dado à guerrilheira Lúcia (Luzia Reis Ribeiro), que recebera “injeções de vitaminas e comida” antes de ser embarcada “em um avião Buffalo rumo a Brasília” (página 209).

Na obra, os militares receberam leves reprimendas, como no caso do tratamento dado aos jovens “deixados à própria sorte pela direção partidária” (página 501). Há outros casos que merecem registros por também serem acintosos e igualmente baseados em “imaginários”. Ao descrever infiltrações na Guerrilha pela repressão, por exemplo, Studart relata o caso em que um cabo recebeu a missão de “entrar para o PCdoB na cidade” (não cita qual). “Mesmo na reserva, permaneceu agente infiltrado. Ao falecer, no início da década de 1990, foi enterrado com a bandeira vermelha de (sic) partido em cima do caixão, ao som da Internacional Socialista (sic), enquanto viúva e filhos recebiam os cumprimentos dos velhos colegas militares” (página 302).

Há ainda o caso da “Operação mortos-vivos”, uma longa descrição do que seria o processo de transformar guerrilheiros que se entregaram em outras pessoas, rigorosamente clandestinas até os dias atuais (páginas 434, 435, 436, 437, 438, 439, 440, 441 e 442). Segundo o próprio autor, a versão é enfaticamente contestada por familiares dos desaparecidos. Studart cita o caso em que o ministro da Educação da ditadura, o coronel Jarbas Passarinho, teria colocado em seu Ministério dois “mortos-vivos” (página 439).

Divergências comunistas

Os ataques ao PCdoB seguem no posfácio de Paulo Roberto de Almeida, “diplomata de carreira, doutor em ciências sociais e mestre em planejamento econômico”. Segundo ele, a tragédia no Araguaia seria evitável e cabe “responsabilizar direta e totalmente a direção irresponsável do PCdoB pelo imenso crime contra um punhado de militantes idealistas, imaginando participar de um grande empreendimento de resgate social, e justiceiro, do pobre povo do interior, numa reprodução quixotesca do que teria sido a ‘guerra camponesa’ de Mao Tse-tung” (páginas 505 e 506).

As palavras duras e caluniosas prosseguem: “O PCdoB ainda não foi levado aos tribunais da história pelo crime cometido não apenas contra os pobres camponeses da região, mas sobretudo contra os seus próprios militantes enganados por uma direção dogmática, míope, absolutamente delirante em seus projetos de reproduzir a marcha de uma já mistificada ‘revolução camponesa’ ao estilo chinês” (página 506).

Studart também abusa da vulgaridade ao relatar sua versão sobre as divergências no movimento comunista internacional (União Soviética, China e Albânia) citando papéis do PCdoB que teriam sido apreendidos pela repressão na Chacina da Lapa em 1976, quando foram assassinados Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drumond, além da prisão de membros do Comitê Central (páginas 143, 144, 145, 146, 147, 148, 149, 150 e 151). Mas pouco fala sobre os documentos do PCdoB e não menciona a natureza filosófica daquele debate (veja aqui A história da Chacina da Lapa).

Para se ter uma ideia da vulgarização, ele diz que “em meados de 1975 o Comitê Central aprovou um documento batizado de ‘Sobre as relações’ que deixava explícito que o reatamento chinês com o governo militar brasileiro era considerado ainda mais injustificável do que a aliança da União Soviética de Stálin com a Alemanha de Hitler” (página 149). Esse estilo de ataques, grosseiros e rarefeitos, empresta à obra apenas um caráter vulgar, maldoso e inconsequente. De resto, uma prática antiga e recorrente das forças políticas e ideológicas obscurantistas.

Osvaldo Bertolino é jornalista, escritor e editor do Portal Grabois

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