4 de jun de 2018

Vou dar uma voltinha e já volto

Faço um monte de coisa ao mesmo tempo, mas nunca tive dúvidas ao preencher a ficha do hotel: sempre escrevi "ator". É isso que tá na minha carteira de trabalho, aquela caderneta que se tornou tão obsoleta quanto um Teletrim. Nunca fiz faculdade de teatro, mas foi no teatro que entendi quem eu era de verdade: uma pessoa que dedicaria sua vida a fingir que é outra pessoa.

Quem me chamou pra escrever aqui foi a Fernanda Mena, então editora da Ilustrada, e até hoje não entendi de onde ela tirou essa ideia. A gente não se conhecia. Bom, talvez fosse por isso. Faz cinco anos que tô aqui, tentando ser eu mesmo, nessa busca inglória por um desaparecido que todo o mundo sabe que já morreu, ou que ainda não nasceu. 

Desde então perdi amigos, perdi o sono, perdi contratos de publicidade, perdi dinheiro, perdi, pra muitos, a graça. Ganhei abraços longos de desconhecidos, ganhei amigos, ganhei meus livros, ganhei meu dia, quando a coluna prestava.

Nem sempre mandei bem, mas sempre mandei alguma coisa. Parece pouco. Mas foram 250 semanas, e eu não pulei nenhuminha. Já escrevi a coluna no bloco de notas do celular de um desconhecido, já enviei de uma lan house em Campinas, da coxia do teatro, já ditei uma coluna inteira num orelhão de Canoa Quebrada.

Aconteceu muita coisa ruim que me deu vontade de não mandar coluna nenhuma: a boate Kiss, aquele avião da Chapecoense, o Alexandre Moraes no STF. E aconteceu muita coisa boa que me deu vontade de não escrever nada, e só viver a vida. Mandei, todas as vezes, alguma coisa - mesmo quando tive pedra nos rins, mesmo quando o Doria ganhou no primeiro turno, mesmo quando morreu a Marielle, mesmo quando faz três meses que o crime permanece sem solução. 

Aprendi coisa à beça. Aprendi a ser xingado, aprendi a grafia dos porquês, aprendi a buscar a dúvida e não a certeza, aprendi a usar mais verbos de ação, aprendi a não ler os comentários. E aprendi que tem uma hora que o assunto acaba. É importante colher assunto. Acho que tô precisando. 

Volto já já, se a Folha ainda quiser. Aproveito pra agradecer ao jornal pelo espaço e liberdade total que me deram, desde o dia 1, aos editores da Ilustrada, pela paciência, à Catarina, que ilustra essa coluna tão lindamente, e tão rapidinho, à Giovanna, pelas tantas vezes em que me ausentei física ou mentalmente pra estar aqui, e ao leitor, pelo carinho, e pela companhia, e pelos abraços longos. Até já.

Gregorio Duvivier
No fAlha

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