20 de jun de 2018

Trump, Bolsonaro e a macheza da direita

Bolsomico
Trump não esconde suas políticas desumanas, que culminam, agora, com sua prisão de bebês. Pelo contrário, faz questão de alardeá-las. Aquilo que nós percebemos como uma selvajaria inominável, indesculpável, transita entre o público dele como uma demonstração de “macheza”. O cerne desta macheza é a absoluta insensibilidade à dor dos outros, que prova que estes outros estão sendo construídos como Outro absoluto, a quem a humanidade é negada. A politica desumana seria a única apropriada a quem não é considerado humano.

É o mesmo mecanismo que vemos em ação quando alguém aplaude Bolsonaro e sua apologia à tortura. Ou o massacre de famílias palestinas pelo Estado de Israel. Como é possível que esta identificação com a brutalidade esteja tão presente?

Não creio que seja um traço da “natureza humana”, até porque tendo a concordar com o que disse um grande pensador: não existe natureza humana fora da sociedade humana. Temos que investigar é o que abre espaço para isso nas nossas sociedades.

E, claro, temos que combater este discurso como se fosse nosso pior inimigo – aliás, ele é mesmo nosso pior inimigo. Outro dia esbarrei num vídeo, não lembro de quem, que “ilustrava” as falas de Bolsonaro. O ex-capitão dizia que o Brasil precisava de um guerra civil, o vídeo mostrava cenas de guerra civil. Ele dizia que a morte de inocentes era o preço necessário a pagar pela limpeza do pais, o vídeo mostrava imagens de crianças de colo atingidas por bombardeios. Ele defendia a tortura, vinha o depoimento de uma sobrevivente dos porões da ditadura contando o que foi infligido a ela e a seus filhos pequenos.

É a aposta de que esse discurso “pega” também porque, para a maior parte de seus seguidores, é uma abstração. Quando ganha concretude, seu horror se torna visível. É a crença de que o choro dos bebês aprisionados por Trump vai tocar quem até agora apoia suas atrocidades. Dá certo? Não sei. Gosto de imaginar que sim, que mesmo nas piores circunstâncias o sentimento de nossa humanidade comum sobrevive e pode ser alcançado.

Luís Felipe Miguel
No DCM

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