24 de jun de 2018

São Mick

Mick Jagger é a mais antiga celebridade em atividade contínua no mundo depois da rainha Elizabeth. Não procede a informação de que todos os Rolling Stones já morreram e seus cadáveres estão só cumprindo os contratos para evitar processos. O Mick Jagger está definitivamente vivo e em grande forma e confirmou, nos shows que os Stones fizeram recentemente no Brasil, aquela lenda de que nunca faz dois movimentos iguais sobre o palco. E seu poder mesmerizador sobre a plateia é impressionante. 

Milhares de pessoas, mesmo descontando a turma do se-for-de-graça-eu-vou-a-tudo, que não sabia bem o que via e ouvia, ou quase via e mal ouvia, estavam nos shows para cantar com ele I Can’t Get No Satisfaction. Eu não consigo me satisfazer: o estribilho do século.

Mick Jagger foi recebido no Brasil como divindade. Não se enche estádios daquele jeito a não ser para adorar uma divindade. E, como toda divindade bem-sucedida, ele não trouxe verdades novas. Entendeu a ânsia no coração de cada um e regeu o clamor do nosso tempo pelo prazer e o abandono na linguagem universal do ressentimento em coro. Não consigo me satisfazer!

Nos prometem satisfação completa e constante com sexo, drogas e o roquenrol do milênio, a promessa do paraíso recuperado e da juventude infinita. Esquecem de nos dizer que a gente continua a envelhecer e a morrer como no modelo antigo.

A disposição brasileira para a satisfação com qualquer festa e a avidez por qualquer comemoração, até a de quatro ingleses esquálidos, nunca significou que nossa vocação para a felicidade nos abençoasse com a redenção, com as dádivas do bem e a justiça dos deuses, enfim, com uma felicidade inédita, mais alegre do que um comercial de cerveja. Somos muito dados. Quer dizer, muito bons, de graça. Só o que pedimos em troca da adoração é que digam “Obrigado, Brazil” com um sotaque simpático, antes de nos deixarem.

Algumas mulheres (suponho que fossem mulheres) carregavam faixas com os dizeres “Mick, faz um filho em mim”. Pediam para a divindade deixar alguma coisa dele conosco, como já tinha feito outra vez. Era um pedido egoísta. As faixas deveriam ser estendidas sobre todas as plateias, e dito: “Mick, faz um filho em nós”. Um pedido coletivo de toda a nação. Uma forma de dar relevância ao nosso amor grátis e de nos sentirmos um pouco menos supérfluos no mundo. Nosso filho nem precisaria ser um salvador, um líder, ou sequer uma razão para o Mick mandar uma boa pensão mensal para o Tesouro Nacional e ajudar a abater a dívida. Seria só um reconhecimento de que existimos e somos especiais, e não apenas aos nossos próprios olhos. Enfim, queremos uma satisfação. 

Luís Fernando Veríssimo

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