12 de jun de 2018

Política, futebol e religião se misturam? Na Argentina, sim

Como a seleção argentina se meteu no conflito árabe-israelense e conseguiu desagradar judeus, muçulmanos e até católicos


Com o pouco entusiasmo dos argentinos em relação à Copa do Mundo da Rússia, a AFA (Associação de Futebol Argentina), sob a direção de Hector “Chiqui” Tapia, decidiu tomar medidas sobre o assunto e buscou despertar o espírito popular com uma “proposta” corajosa: inserir a equipe argentina no conflito do Oriente Médio.

O último jogo da seleção, dez dias antes do Mundial, seria contra o time de Israel na cidade de Haifa. Acontece que, dias mais tarde, a organização local acabou mudando a sede da partida para Jerusalém, justamente em meio à violência desatada com a transferência da embaixada norte-americana para esta cidade. Um detalhe bobo que passou despercebido pelos dirigentes da AFA, talvez distraídos com a quantidade de dinheiro recebida pela partida: 2 milhões de dólares. Ou o equivalente a uma meia usada do atacante Messi, que tem salário de 40 milhões de euros.
Em apenas 24 horas, a seleção argentina conseguiu gerar um conflito com judeus, muçulmanos e católicos. A AFA fez, em um dia, mais pelo estado laico do que o próprio estado laico nos últimos dez anos
A poucos dias da apresentação, tudo estava encaminhado para ver a seleção e seu capitão em solo israelense, quando surgiu um problema inesperado: o protesto dos palestinos contra o jogo. “Messi é um símbolo de paz e amor, pedimos a ele que não participe na limpeza dos crimes da ocupação israelense”, disse o presidente da Federalão Palestina, Jibril Raioub. Ele entregou ao representante da Argentina em Ramallah, na Cisjordânia, uma carta para a Federação Argentina pedindo o cancelamento da partida.

“Lançaremos uma campanha contra a Federação Argentina. Messi tem milhões de fãs nos países árabes e muçulmanos. Pedimos a todos que queimem as camisetas com seu nome e os pôsteres com sua imagem. De uma partida esportiva, este evento se converteu numa ferramenta política, o governo israelense está tentando dar um alcance político a ela, insistindo que aconteça em Jerusalém”, explicou Raioub.



Não foi nada agradável para os jogadores argentinos ver palestinos atearem fogo a camisas da seleção ou exibi-las manchadas de sangue. Pensaram então que participar da partida talvez não fosse uma boa ideia e se negaram a jogar. A partida foi suspensa. Mal estar em Israel.

Alguns extremistas apontaram a recusa da seleção argentina de jogar em Jerusalém como uma ação “antissemita”, um velho truque dos sionistas contra os críticos do governo israelense, embora entidades como a ONU e os Médicos Sem Fronteiras tenham condenado o “banho de sangue” em Gaza no dia da inauguração da nova embaixada.
Imediatamente, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, ligou para o presidente da Argentina, seu aliado Mauricio Macri. O mesmo chamou a equipe nacional para tentar convencer seus jogadores a realizar a partida, mas, com Messi à frente, o pedido do presidente de tomar posição política no quiproquó foi nula. Macri, em seguida, ligou para seu amigo Bibi para se desculpar, explicando que a recusa dos jogadores era definitiva e que não havia nada a fazer a respeito.

Mas, para a seleção, a coisa estava apenas esquentando. À negativa de se jogar com Israel, somou-se também o inesperado cancelamento do encontro já agendado com o papa Francisco, que iria acontecer no dia 6 de junho. O diretor de imprensa do Vaticano, Greg Burke, teve que retificar no twitter, no mesmo dia, a suposta chegada do time e o posterior cancelamento.
Ou seja, em apenas 24 horas, a seleção argentina conseguiu gerar um conflito com judeus, muçulmanos e católicos. A AFA fez, em um dia, mais pelo estado laico do que o próprio estado laico nos últimos dez anos.

No final, apenas os palestinos ficaram felizes com o W.O.. “Num momento em que o presidente dos EUA e o governo de Israel estão tentando tirar Jerusalém da mesa de negociações, é importante ver que o poder do povo produz resultados”, comemorou a representante da Associação Palestina de Futebol, Susan Shalabi. Bem, os palestinos e o grupo terrorista Hamas, que parabenizou a seleção através de sua conta no twitter: “Obrigado, Argentina!”.
Tapia, no dia seguinte, explicou que a recusa da seleção em apresentar-se em Jerusalém teve o objetivo de garantir a segurança dos jogadores e que “é uma contribuição para a paz mundial”.
Não houve declarações do presidente da nação, o que não deixa de ser estranho quando se sabe que Macri, em todas as reuniões com os líderes mundiais que participa, não perde a oportunidade de comentar sobre o esporte “de la redonda”.

Em sua despedida do futebol, Maradona, um craque que sempre misturou futebol com política, disse uma frase para a história: “Não se mancha a bola.” Os jogadores da seleção não permitiram que a manchassem, e nisso temos que aplaudi-los. Dos políticos e dirigentes do futebol argentino não podemos dizer o mesmo.

Tapia, no dia seguinte, explicou que a recusa da seleção em apresentar-se em Jerusalém teve o objetivo de garantir a segurança dos jogadores e que “é uma contribuição para a paz mundial”.

Martín Fernández Lorenzo
No Socialista Morena

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