18 de jun de 2018

PF Macabéa 2 (ou A juristocracia num contexto de traição à Pátria)


Chamar a Polícia Federal de Macabéa nesse GGN causou frisson entre delegados da PF. Traindo um pacto de ninguém comentar “as bostas que esse cara escreve para não encher a bola dele, que quer aparecer”, dois ou três resolveram criticar. Ficou claro que não sabiam quem é Macabéa, a personagem da obra A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. A primeira citação à autora foi neste GGN, quando do assassinato da vereadora Marielle Franco - ativista dos direitos humanos. Foram tantos tiros, que lembrei de uma fala de Clarice Lispector, no conto “Mineirinho”: - um tiro só bastava. “O resto era vontade de matar”.  Depois, quando um delegado tresloucado destruiu aparelhos de som do acampamento Marisa Letícia, próximo da sede da PF (Curitiba), lembrei novamente da escritora.

Ao tentar analisar a atitude do delegado trapalhão, me dei conta ser alguém incompleto, precário, mente limitada. Então, ainda com Clarice Lispector na lembrança, ao vasculhar o armário embutido de minhas inquietações, lembrei da personagem Macabéa. Ao comparar aquele delegado com a tal Macabéa, me dei conta de que não só um barnabé, mas a instituição quase na totalidade se enquadraria naquela condição. Vide texto da semana passada: “A PF Macabéa não aprendeu nada”.

Macabéa era muito precária. Conforme a obra, todas as madrugadas, ela ligava o rádio emprestado por uma colega, para ouvir baixinho, invariavelmente, a Rádio Relógio (Rio de Janeiro). A tal rádio, para quem não lembra, dava a hora, minutos e segundos a cada minuto, sempre intercalados por breves notas jornalísticas e curiosidades com o bordão "Você Sabia?". Ou seja, toda informação jornalística e cultural de Macabéa vinha em pílulas “informativas” noturnas, tendo ao fundo um neurotizante tic-tac de um relógio.

Ao comparar a PF genericamente à Macabéa, foi uma associação aos servidores dela que têm como fonte única de informação tudo o quanto é produzido pelas oito famílias que controlam os meios de comunicação no Brasil. Nesse sentido, servidores pensam o que pensam seus editores, suas visões de vida são mantras produzidos por Ali Kammel, por exemplo, para serem lidos por Willian Bonner no Jornal Antinacional. Creio estar claro porque a PF (e não só ela) é Macabéa.

Entretanto, ao fazer a tal comparação, cometi um crime irremediável contra a personagem criada por Clarice Lispector. Sim, a Macabéa da ficção, segundo a autora, “não sabia que era Macabéa, assim como um cachorro não sabe que é um cachorro”. De tão pura, se dava por feliz ao aprender que o Imperador Carlos Magno era na chamado de Carolus na terra dele. Aprendeu que “quem espera sempre alcança”, que o único animal que não cruza com filho é o cavalo. Ela não entendeu bem e nunca conseguiu por em prática tais informações. Ela ouviu também “Arrepende-te em Cristo e Ele te dará felicidade”. Então ela se arrependera. Como não sabia bem de quê, passou a arrepender-se de tudo. Era tanta pureza e inocência em Macabéa, que sua alienação jamais poderia ser comparada com a alienação de parte da família Federal et caterva.

O mais grave nessa síndrome de Macabéa na PF, é que quando alguém tenta alertar que eles precisam ir além da Globo/Veja/Folha/Estadão, etc, dizem que deseja impor a “visão” Brasil 247, Brasil-Cafezinho-GGN. Esqueceram ou não sabem do “Duplo Expresso”, “The Intercept”, “Opera Mundi”...

Em troca, eu poderia pedir que fugissem da Rádio Jovem Pan. Sexta-feira passada, por exemplo, ouvi tal Marco Antonio Villa dizer que “Lula não sabe fazer um “O” com um copo”. Foi tão grosseiro, que um locutor se queixou do exagero. Como ser tão grotesca com um pretenso analfabeto que recebeu incontáveis títulos de doutor, deu centenas de palestras mundo afora e não encontra debatedor a altura para discutir com ele a realidade brasileira no contexto mundial?

A Polícia Federal, sobretudo delegados, precisa ir além da Macabéa e parar de ouvir a Rádio Relógio. E, já que rejeitam tudo que parece com Brasil 247 e GGN, poderiam examinar coisas menos “esquerdista”, como The Guardian, The New York Times, The Washington Post, El Pais  e ou, na ausência de tudo isso, ler relatórios da OCDE, Organização Internacional do Comércio e sua similar do Trabalho. Deveriam se inteirar melhor, via alguma fonte mais isenta, sobre petróleo, geopolítica internacional, corporocracia, guerra híbrida, guerra econômica EUA X China... Como dito no artigo anterior, a PF não aprendeu nada, e sequer se deu conta de que, nos dias atuais, do lado deles, quem anda falando coisa com coisa são os nada petistas jornalista Reynaldo Azevedo e o ministro Gilmar Mendes.

Ontem, contextualizando tudo isso, conversei com um colega sobre o primeiro planejamento operacional quinquenal da Polícia Federal, no qual fui ativo como poucos. O tal planejamento foi criado para aplicar verba disponibilizada à PF pela França, que só poderia ser usada com um planejamento. Como o governo FHC pagava juros desse dinheiro e nada planejava, um grupo de servidores tomou a iniciativa de produzir um documento republicano, apartidário, para ser entregue a Serra ou Lula (quem ganhasse a eleição). Lula recebeu o tal projeto e disse: “esse é o meu projeto”. Sua equipe fez ajustes e entregou à direção-geral da PF, mais tarde ampliado - em tópicos e duração.

1)     Por que do tal planejamento? Por que até chegar a sua fase final, foram criados (projetados) cenários dos mais adversos. Por mais estúpidos que fossem tais cenários (direita, esquerda, separatista, terrorista...), deveriam ser considerados. Se não se pudesse evitar a ocorrência, ao menos minimizar consequências. O tal planejamento era um conjunto de cenários prospectivos, ou “wikipediamente” falando, análises de fenômenos técnicos, tecnológicos, científicos, políticos, econômicos, sociais etc., para prever a evolução futura das sociedades...

2)     Por que do tal planejamento? Por que antes, durante e depois do golpe de 2016, se descobriu que muitas informações foram ignoradas, seja pelas Forças Armadas, seja pela Abin, seja pela Polícia Federal.

Presos à “Rádio Relógio” e à síndrome da Macabéa, as espionagens contra Dilma Rousseff, as denúncias da Rússia quanto a um possível golpe no Brasil, a ameaça à soberania e ao patrimônio nacional foram ignorados. Vá lá que não gostassem de Dilma/Lula/PT. Mas, os analistas brasileiros se portaram como ignorantes patos paneleiros da Fiesp ou simples traidores. Lula era o fetiche. Preso, bastaria impor a sabujice juristocrata...

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo
No GGN

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