16 de jun de 2018

O Facebook enganou todo mundo


É um assunto para os nerds do jornalismo, mas vocês deveriam saber que o Facebook criou um programa para combater notícias falsas. O Facebook é uma colônia de notícias falsas, a rede pela qual elas viajam, de onde espocam russos interferindo nas eleições americanas, onde três das cinco notícias mais compartilhadas durante a semana do impeachment de Dilma eram falsas. O Facebook tem um problema, mas decidiu terceirizar esse problema.

Quando um conteúdo é denunciado pelos usuários como “falso”, a empresa aciona as agências de verificação Aos Fatos e Lupa. A ideia é que as agências – seguindo um método de código aberto – sinalizem quais conteúdos são, de fato, fake news. “Vereadora Marielle era namorada do traficante Marcinho VP”. Falso. A plataforma então se encarrega de diminuir a distribuição desses links. Na prática, fazê-los morrer de inanição.

Parece tudo ótimo se você acreditar na promessa: as agências brasileiras de checagem (pequenas empresas que ainda buscam um modelo de negócios sustentável) conseguem um grande cliente; o Facebook limpa minimamente nossos feeds das mentiras diárias; nós melhoramos nossa dieta de notícias, nos informamos com mais segurança e deixamos esse país menos sofrível.

Na prática a teoria é outra. Já na data do lançamento, as agências foram detonadas por grupos de direita. Fotos de jornalistas foram expostas (e também a de alguns familiares), todos foram pressionados e ameaçados. O medo dos radicais conservadores era que a inanição digital provocasse a morte coletiva dos mentirosos contumazes.

Esta semana foi a vez de parte da esquerda atacar. Sites se viram incomodados com a história do terço que o Papa Francisco benzeu a pedido de um consultor do pontificado para ser entregue a Lula. O canal Vatican News – criado por Francisco e administrado pelo monsenhor argentino Lucio Adrian Ruiz (que também cuida do Twitter oficial do Papa) – emitiu duas versões para a mesma história. Na primeira, apagada posteriormente, dizia que o terço levado pelo consultor não tinha sido enviado pelo Papa. Diante da manchete “Papa enviou terço a Lula”, as agências anotaram: falso. E o Facebook agiu de acordo com seu programa anti-fake news.

Sobrou pras checadoras, que confiaram no canal do Vaticano e foram mais uma vez expostas como se trabalhassem para o demônio. As agências, antes do episódio, eram fonte de informação confiável citadas pelos mesmos sites que, depois, as acusaram de censoras. O Facebook criou um escudo usando as marcas Aos Fatos e Lupa pra fugir da própria responsabilidade. Enganou todo mundo.

Leandro Demori
No The Intercept

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