19 de jun de 2018

O chocolate que abalou a GloboNews


Num dia de noticiário político fraco, como a segunda feira,18, em que o assunto principal era a influência do novo corte de cabelo de Neymar (apelidado de minestrone pelo ex-craque francês Cantona) sobre seu futebol, a denúncia de que uma batida surpresa da Polícia Civil de Brasília encontrou chocolates e cereais na cela dividida pelo empresário Luiz Estevão com o petista José Dirceu, na Papuda, fez a festa dos jornalistas da GloboNews.

Apelidados pelo ministro Gilmar Mendes de “Terceira Turma do Supremo”, suas excelências não escondiam a reprovação às supostas facilidades e regalias concedidas aos ilustres inquilinos da Papuda, analisando com toda dramaticidade as descobertas dos policiais envolvidos na chamada Operação Bastilha.

“Não é a primeira vez que isso acontece”, afirmou o ministro Gerson Camarotti no programa Em Pauta. “Vejam onde a gente foi parar.”

Sua colega de turma, Mônica Waldvogel, não ficou atrás. “É preciso uma investigação rígida”, ordenou. No que foi secundada pelo apresentador do Em Pauta, Sérgio Aguiar.

“É preciso uma reação do Estado”, afirmou. “É preciso apurar e dar uma resposta à sociedade.”

Guardadas as proporções, as barras de chocolate e de cereais assumiam na visão blobonewsiana periculosidade  similar aos arsenais de fuzis, facões e granadas costumeiramente encontrados nas revistas policiais nos superlotados presídios brasileiros.

Para complicar ainda mais e aumentar a preocupação da turma, foram encontradas uma tesourinha, pendrives, um suspeitíssimo manuscrito de Dirceu, no qual o ex-ministro falava em conseguir a permissão para receber a visita de sua filha menor de idade fora do horário regulamentar e pastas de documentos empresariais de Estevão, caprichosamente guardados na biblioteca do presidio.

Segundo o delegado Fernando Cesar Costa, um dos responsáveis pela batida, não há dúvida: Estevão agia como se fosse “o dono da cadeia.”

Na avaliação do pessoal da GloboNews, o episódio comprova mais uma vez a existência de privilégios aos presos mais poderosos, e ricos no sistema penitenciário brasileiro.

Para tanto, rememoraram a blitz promovida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro no fim do ano passado, na Cadeia Pública de Benfica, onde estava preso o ex-governador Sérgio Cabral.

Ali, é certo, o cardápio gastronômico encontrado foi mais estrelado do que o da Papuda: camarão, bacalhau, queijo de cabra, presunto importado, refrigerantes e iogurte Activia que, por sinal, era vendido na cantina da prisão.

Estridências à parte, a indignação de Camarotti e companhia é mais um capítulo da onda de moralismo e denuncismo que assola o país.

Caso fizessem o dever de casa, ficariam sabendo que a entrada de alimentos, refrigerantes, produtos de higiene pessoal e vestimentas, entre outros itens, é permitida no sistema penitenciário.

Basta ver nas longas filas dos dias de visitas a qualquer estabelecimento penal visitantes (geralmente mães, esposas e filhos) carregando sacolas com esses itens, conhecidas como Jumbo no jargão dos presos.

Evidentemente, a composição do Jumbo varia, em função da renda de quem visita .

Em São Paulo, por exemplo, o que pode ser levado aos detentos é regulamentado pela Secretaria de Administração Penitenciária, que dispõe também sobre a quantidade que pode ser levada. 

A variedade é grande.

Chocolates como os de Estevão, que tanto chocaram a mídia – o Estadão dedicou praticamente toda sua principal página de política ao tema, na edição desta terça feira,19 – podem sim, ser consumidos atrás das grades.

Da mesma forma, comidas prontas, frutas de época, frios fatiados, açúcar, pão, frios fatiados, doces e bolos, entre outros.

De qualquer forma, a importância concedida à Operação Bastilha, certamente deve ter despertado a curiosidade dos leitores mais antenados.

A julgar pelas aparências, a segurança pública no Distrito Federal deve ser nota 10. Aparentemente, assim como a GloboNews, a polícia local não tinha nada mais importante para fazer na segunda feira.

Miguel Enriquez
No DCM

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