25 de jun de 2018

Na guerra contra as Fake News, estão mirando o alvo errado


A tecnologia deixou nossas vidas cada vez mais simples. Celulares e computadores nem vêm mais com manual de instruções. Basta olhar e começar a usar. Os bancos simplificam todos os procedimentos – um clique e o dinheiro já está na sua conta. Os contratos ganham resumos em letras grandes e palavras bonitas – mesmo que não digam nada. Mentiras, informações falsas ou erradas. Fácil, tudo fake news.

Só que o mundo não ficou mais simples. Celulares e computadores mapeiam todos os nossos movimentos, medem nossos passos, mapeiam o movimento dos nossos olhos e o deslizar dos nossos dedos. Até o aplicativo que acende a lanterna quer ver os contatos da minha agenda e o registro das minhas chamadas (ai que saudades do onze zero zero!). Nos bancos, quanto mais simples, maiores as taxas e os juros que não vamos calcular. Nos contratos, não leremos a cláusula onde vendemos nossa alma às corporações.

E nunca venceremos as fake news se não cavarmos um pouco para descobrir de onde vêm.

Esta semana, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) chegou a esta conclusão: “categorizar todas as formas de desinformação sob a expressão ‘fake news’ ou ‘notícias falsas’, sem diferenciar as suas especificidades, dificulta o processo de elaboração de estratégias para combater esse fenômeno”, diz a recomendação 4/2018.

O documento faz uma série de recomendações ao Congresso Nacional, ao Poder Judiciário, aos governos federal e estaduais e ao Tribunal Superior Eleitoral e propõe que o combate à desinformação não deve ser centrado na criminalização de quem posta conteúdos falsos, incorretos ou baseados em informações erradas. Por outro lado, é preciso estimular a liberdade de expressão e promover a diversidade na internet (e, por que não, em outros meios de comunicação?). O CNDH recomenda ainda que é preciso engajar a sociedade em um debate positivo e qualificado que se fundamente no respeito aos direitos humanos e tenha como princípio a pluralidade e a diversidade.

Para as plataformas privadas, como o Facebook, o Twitter e o Google, o CNDH recomendou que aumentem a transparência dos seus serviços e permitam que os usuários tenham mais controle sobre o que publicam e acessam, além de tomar alguma medida sobre o efeito bolha e a monetização – que estimulam a criação do que temos chamado de notícias falsas.

Basicamente, a recomendação do CNDH diz para não começarmos uma guerra às fake news sem, antes, tentar combater o que as produz. É como a guerra contra às drogas, que segue fazendo vítimas sem atacar o real problema.

É como a solução do Facebook para a detecção de notícias falsas. Contrataram agências de Fact Checking para colocar um selo de Verdade ou Mentira nos conteúdos postados nas redes sociais. Tirando o nome, não tem muita novidade no que essas agências fazem. Com base em alguns princípios, elas categorizam as informações divulgadas na rede. Tudo muito simples e bem resumido em letras grandes.

O problema é que a realidade não é simples e qualquer tentativa de resumí-la em letras grandes não será capaz de refletir as diversas verdades e a pluralidade de mentiras que o mesmo fato pode gerar. E a solução do facebook, que vinha dando certo em outros lugares, mostra sinais de que deve afundar por aqui na disputa entre esquerda e direita.

É que no Brasil, a trajetória de desinformação pela mídia é bem mais antiga e tem tudo a ver com a concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos grupos. Por aqui, a verdade tem dono e lado. Basta lembrar da cobertura dos atos de rua contra e a favor do Golpe em 2016. Enquanto os de verde e amarelo ocupavam as ruas para demonstrar a indignação do povo brasileiro, os de vermelho atrapalhavam o trânsito e provocavam violência. Por aqui, a ocupação de uma fazenda improdutiva por trabalhadores rurais sem-terra sempre será anunciada como invasão de propriedade por baderneiros criminosos.

Tudo muito complicado, não é? Mas só assim poderemos encontrar soluções que de fato resolvam o problema.

Iano Flávio Maia, Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo
No Saiba Mais

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