5 de jun de 2018

Geraldo Elísio, em livro, conta a prisão de jornalista por Aécio, que a mídia desconheceu em ano eleitoral


Belo Horizonte (MG), 20 de janeiro de 2014. Geraldo Elísio tomava o café da manhã com uma irmã, quando o interfone do apartamento tocou.

Sem se identificar, uma voz masculina, perguntou se era Elísio quem falava.

Confirmado, pediu que fosse até a portaria. Ele desceu como estava: de short, sem camisa, calçando sandália de borracha.

Estacionado, na frente do edifício, um carro do Depatri, órgão da Polícia Civil de Minas Gerais que cuida de crimes cibernéticos.

A postos, também para “visitá-lo”, três agentes e um delegado.

“O delegado — não me lembro do nome – disse que tinha ordem judicial para levar meu computador”, relembra Elísio.

“Reviraram todo o meu apartamento. Apreenderam notebook, pen-drives, originais de três livros prontos e alguns documentos”, prossegue.

“Até velhas cadernetas de telefone que eu guardava por valor sentimental, com os telefones do Thiago de Mello, Drumond de Andrade, artistas plásticos, políticos, eles levaram”, lamenta.

“ O Marco Aurélio foi preso no mesmo dia, só que mais cedo”, observaa.

O preso é o jornalista Marco Aurélio Carone, dono do site NovoJornal, único veículo em Minas que não se curvou à censura comandada pela então toda poderosa Andrea Neves durante os governos do irmão, Aécio Neves,  e de Antônio Anastasia, ambos do PSDB.

Em 20 de janeiro de 2014, Carone foi preso por ação direta no judiciário e na polícia de Aécio, Andrea e Danilo de Castro, secretário do governo de Minas de 2003 a 2014.

O seu encarceramento – de 20 de janeiro a 4 de novembro de 2014 — teve a ver fundamentalmente com denúncias iria publicar no seu site, o NovoJornal, contra Aécio, então candidato à presidência da República.

Tanto que só foi solto após o 2º turno.

Geraldo Elísio, mais conhecido como Pica Pau, é jornalista e escritor.

Em 1977, ganhou o Prêmio Esso de Jornalista – categoria regional – por reportagens denunciando torturas praticadas contra o operário Jorge nas dependências da Polícia Militar mineira. Durante sete anos foi repórter e editorialista do NovoJornal.

Pois a prisão de Carone é o tema central do sétimo livro de Elísio, que acaba de ser lançado: Diálogo com Ratos – censura e perseguição no jornalismo digital, da editora Letramento.

O que o motivou a escrever este livro?

A injusta prisão do Marco Aurélio e a busca e apreensão absurdas no meu apartamento pela Polícia Civil de Minas. Foram os fatores decisivos.

Diálogo com Ratos é a história real do pesadelo que ele, sua família e eu vivemos graças às arbitrariedades do senador Aécio Neves, de Andrea Neves, sua irmã, e dos ex-governadores Antônio Anastasia, hoje senador, e Alberto Pinto Coelho.

Por que o título Diálogo com Ratos?

O Carone, como você bem sabe, ficou preso na Penitenciária Nelson Hungria [em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte] durante 9 meses e 15 dias. Desse período, três foram na solitária.

Para não enlouquecer, ele “conversava” com um rato que todas as noites ia “visitá-lo, em busca de pedaços de pão que Carone passou a lhe dar.

Certo dia, eu já estava escrevendo o livro, ao folhear um jornal, vi numa página uma referência a alguém chamado Danilo. Batizei o rato.

Aqui fora, que ratos você destacaria, aqui fora?

— São muitos (risos). Lotariam um bom espaço da web. Mas nomes citados acima têm um perfil sugestivo. Lógico, como eu disse, faltando muitos para engrossar as fileiras.

Dos episódios relatados no livro, qual  doeu mais para você abordar ?

— O sofrimento da família do Marco Aurélio e a solidão de um homem privado da liberdade por ousar dizer a verdade sobre Aécio, Azeredo, Anastasia e outros tucanos mineiros.

Enquanto isso, a apreensão do helicóptero com 500 quilos de pasta base de cocaína não deu em nada até hoje e muitas perguntas continuam sem resposta.

De quem é a droga? Não existem culpados por este crime? O acobertamento é para proteger quem? Quem comanda a quadrilha de narcotraficantes?

No livro você cita overdoses do Aécio. Foi você quem fez a matéria?

— A primeira foi feita pelo Carone, foi ele quem descobriu. Depois, eu fiz outras. O que eu sei é que ainda falta muito para aparecer.

No livro, você conta que Andrea Neves foi à redação do Novojornal em 17 de janeiro de 2014. Portanto, três dias antes de o Carone ser preso. Como foi receber na redação a então toda poderosa?

— Não tive o desprazer, pois sete meses antes havia me afastado do Novojornal para escrever um livro.

Mas, Carone contou que ela ameaçou de mandar prendê-lo se não desistisse de matérias que estavam para sair e fechar o Novojornal.

E assim foi feito. Carone foi preso no dia 20 de janeiro e o Novojornal tirado do ar, situação que perdura.

A polícia civil fez busca e a apreensão no seu apartamento no mesmo dia em que Carone foi preso. Foi o “preço” por ser amigo ou trabalhar com o Carone?

— Até hoje não sei exatamente o motivo, pois sequer fui indiciado. Só pode ter sido por trabalharmos juntos, sermos amigos e conhecermos as mesmas tramoias. Creio que tentaram me intimidar. Talvez pensassem que no meu notebook poderia algo contra eles.

E a polícia devolveu os teus equipamentos e documentos?

— Nem os meus nem os da Carone. Continua tudo apreendido. No meu caso, já existe determinação judicial para a devolução do que levaram da minha casa. Mas quem disse que devolvem..

O que você fez depois que a polícia foi embora?

— Movimentei-me rápido para assegurar que todo mundo soubesse o que havia acontecido e que o Carone estava em poder da Polícia Civil de Minas.

Foi vital para a nossa segurança a pronta e firme atuação dos deputados estaduais Rogério Corrêa, Durval Ângelo (ambos do PT) e  Sávio de Souza Cruz (MDB). Na época, resultou, inclusive, em sessão da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

No livro, você é narrador de toda a história. Mas também personagem, já que participou ativamente dela. Há quantos anos você e o Carone se conhecem?

— Somos amigos há mais de 40 anos. Fui amigo do pai e da senhora mãe dele, dos irmãos e dou sequência a isto com ele e familiares ainda vivos.

Conceição Lemes
No Viomundo

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