11 de jun de 2018

Fundação FHC fica no mesmo prédio – e não por acaso – que a Sociedade Rural Brasileira


Não foi pela vista para o Anhangabaú, ao lado do Teatro Municipal, que Fernando Henrique Cardoso escolheu o lugar para a sede da fundação que leva seu nome. Essa função coube ao amigo pecuarista Jovelino Carvalho Mineiro Filho, que já foi sócio de seus filhos em fazenda, uma das figuras mais influentes na Sociedade Rural Brasileira. A organização, um dos templos do agronegócio no Brasil, fica no 19º andar do prédio na Rua Formosa, ao lado da Praça Ramos de Azevedo; a Fundação FHC, no 6º andar.

Foi lá no 19º andar que Fernando Henrique Cardoso lançou o Plano Real, em 1994. Mineiro já era seu amigo, desde os anos 70. “Foi ele que descobriu esse local aqui”, contou FHC em entrevista – oferecida no 6º andar – à Fundação Getúlio Vargas (FGV), em 2007. “Porque aqui em cima tem a Sociedade Rural Brasileira. Então, ele que descobriu esse local aqui. E é pessoa de confiança e que sabe… ajudou, no início, a levantar recursos”.

Filho de Jovelino, Bento Abreu Sodré de Carvalho Mineiro é um dos diretores da Rural. Fundador da Rural Jovem, em 2009, e do movimento Endireita Brasil, em 2006, ele frequentava quando criança o Palácio da Alvorada. Em 1999, em reportagem sobre venda de touros por Fernando Henrique em Rancharia (SP), a revista Veja contou que a relação entre FHC e a família de Jovelino era tão próxima que nos aniversários do presidente era Bento Mineiro, na época com 11 anos, quem apagava as velinhas do bolo.

Hoje, treze andares acima de Fernando Henrique no edifício CBI-Esplanada, Bento Mineiro é um dos quatro diretores-secretários da Sociedade Rural, abaixo do presidente, Marcelo Weyland Barbosa Vieira, e dos três vice-presidentes. Entre os 28 conselheiros, sete têm mandatos até 2023. Um deles é Jovelino Mineiro, conhecido por FHC como Nê. Saiba mais sobre a importância do pecuarista na relação de FHC com a agropecuária neste texto da série: “FHC, o Fazendeiro – De Buritis (MG) a Botucatu (SP), saiba por que Jovelino Mineiro é o braço agrário da família Cardoso”.

PODER MIGRA DE PAIS PARA FILHOS

Os pais Jovelino Mineiro e Jonas Barcellos fazem parte do Conselhos Deliberativo; Pedro Augusto Novis, do Fiscal. Foi ele, delator da Lava-Jato, quem acusou o senador José Serra, do PSDB-SP, de ter recebido 
R$ 52,4 milhões entre 2002 e 2012. Jonas Barcellos, dono da Brasif, é outro personagem desta série: “FHC, o Fazendeiro – Jonas Barcellos, o pecuarista que Mirian Dutra diz ter pago sua mesada em Paris”. Não tão amigo de FHC como Jovelino, mas citado no caso do apartamento de Mirian Dutra em Paris: “FHC, o Fazendeiro – No famoso apartamento de Paris, o DNA da família Abreu Sodré”.Do outro lado do Viaduto do Chá, na Rua Riachuelo, fica no primeiro andar a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil, a ACNB. Ela tem entre os 11 sócios Bento Mineiro e pelo menos outros dois filhos de grandes pecuaristas: Renato Diniz Barcellos Correa, filho de Jonas Barcellos Corrêa Filho, e Pedro Gustavo de Britto Novis, filho de Pedro Augusto Ribeiro Novis – ex-presidente da Odebrecht e um dos delatores premiados da Operação Lava-Jato.
A mesma Associação dos Criadores de Nelore do Brasil foi presidida, no biênio 2012-2014, por Pedro Gustavo Novis, o filho do delator. O primeiro vice-presidente era Maurício Bahia Odebrecht, irmão de Marcelo Odebrecht (hoje em prisão domiciliar), filho de Emílio Odebrecht.  É Maurício quem cuida das criações de gado da família.

PRESIDENTE DA RURAL TRABALHA PARA SOROS

O presidente da Sociedade Rural Brasileira, Marcelo Vieira, trabalha para uma organização estadunidense, a Adecoagro. Ele representa, portanto, o império agropecuário do megainvestidor George Soros – que, por sua vez, já injetou dinheiro na Fundação FHC. Cafeicultor, Vieira dirige as atividades de açúcar e álcool da Adecoagro no Brasil, onde Soros tem pelo menos 200 mil hectares.

Marcelo Vieira tinha como principal ativo a Usina Monte Alegre, em Monte Belo (MG), hoje controlada pela empresa Adecoagro Vale do Ivinhema. O grupo do investidor húngaro-americano tem duas usinas no Mato Grosso do Sul e avança para o Matopiba, a fronteira do agronegócio nos estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

O Instituto FHC (antecessor da Fundação FHC) já recebeu uma contribuição de R$ 350 mil da Open Society Foundation, de Soros. Em 2009, o instituto e a Open Society financiaram a publicação “Drugs and Democracy”. FHC é um dos líderes da Comissão Latino-americana Sobre Drogas e Democracia, apoiada pelo bilionário – 20º homem mais rico dos Estados Unidos.

Em 2015, Fernando Henrique foi a presença mais ilustre em um jantar para Soros na Avenida Vieira Souto, no Rio, onde o empresário falou sobre cultura da filantropia. Entre os presentes estavam o parceiro Celso Lafer e empresários como David Feffer, da Suzano, Olavo Monteiro de Carvalho (que também cria gado Nelore) e Guilherme Leal, da Natura. O evento foi organizado pela Open Society e pela Fundação FHC.O relatório de 2010 do iFHC mostra que a fundação de Soros foi uma das três financiadoras do projeto Plataforma Democrática, que lançou oito livros sobre Estado e democracia na América Latina. O investidor – que tem alternado compra e venda de ações da Petrobras – montou, com a Adecoagro, uma das maiores empresas agropecuárias da América Latina, com forte atuação na Argentina e no Paraguai.

ORGANIZAÇÃO FOI 1ª A DEFENDER IMPEACHMENT

O antecessor de Vieira na presidência da Sociedade Rural Brasileira era Gustavo Diniz Junqueira, sócio do Moinho Paulista, das farinhas Nita. Ele se gaba de ter sido a Rural a primeira organização a defender o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016. Dois anos antes, sua posse foi prestigiada pelo governador Geraldo Alckmin – agora candidato tucano à Presidência da República – e por Fernando Henrique Cardoso.

O compadre de FHC, Jovelino Mineiro, é um dos membros do Conselho Superior do Agronegócio, o Cosag, da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), ao lado do presidente da Sociedade Rural, Marcelo Vieira, e de outros conselheiros da organização, como Cesário Ramalho da Silva e o vice-presidente Pedro de Camargo Neto.

A Fiesp foi uma das protagonistas do impeachment de Dilma Rousseff, consagrando a imagem do pato com olhos cegos. Em 2009, seu presidente Paulo Skaf – candidato ao governo paulista pelo MDB – foi um dos empresários presentes em jantar promovido por Fernando Henrique Cardoso. O objetivo, traçar os planos da Fundação FHC para 2010. Jovelino Mineiro também estava presente.

FUNDADOR DO ‘ENDIREITA’ É INVESTIGADO

O filho Bento Mineiro fazia parte da Rural Jovem quando esteve entre os fundadores do Movimento Endireita Brasil, em 2006. Outro integrante desse movimento – cujos membros fizeram treinamento no Leadership Institute, nos EUA – foi Ricardo Salles, um político do PP que comandou a Secretaria de Estado do Meio Ambiente durante o governo Alckmin. Assim como Jovelino Mineiro, ele é membro do Conselho Superior do Agronegócio, da Fiesp.

Outro diretor da Sociedade Rural Brasileira (e fundador da Rural Jovem), João Francisco Adrien Fernandes, fazia parte do Endireita Brasil. Colega de Bento Mineiro na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), onde cursaram Ciências Sociais, ele também é simpatizante do Movimento Brasil Livre e do Vem Pra Rua, que participaram diretamente das mobilizações de rua contra o governo petista.Salles é um político que chama a Comissão da Verdade – que investigou os crimes da ditadura – de Comissão da Vingança. Ele foi secretário particular de Alckmin em 2013. Assumiu a pasta do Meio Ambiente em julho de 2016. Mas só durou um ano. Em agosto, ele pediu demissão. Motivo: tornou-se réu por improbidade administrativa, acusado de corrupção. O Ministério Público solicitou seu afastamento do cargo e uma indenização de R$ 50 milhões.

Bento Mineiro também é amigo de Frederico D’Ávila, um dos tesoureiros da Rural, possível candidato do PP ao Senado. D’Ávila foi consultor do governador – agora presidenciável – Geraldo Alckmin (PSDB) para o agronegócio, mas trocou de lado: virou um entusiasta da candidatura de Jair Bolsonaro (PSL), a quem ele agora assessora no setor agropecuário. Ele é irmão do tucano Luiz Felipe D’Ávila, um dos 12 integrantes não-vitalícios da Fundação FHC.

RURAL FUNDOU A FRENTE PARLAMENTAR DA AGROPECUÁRIA

A Sociedade Rural Brasileira mobilizou-se durante a Assembleia Nacional Constituinte, em 1988, para defender a propriedade privada e a função econômica da terra. A Frente Ampla Ruralista foi o embrião da atual Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), naquela década que consagrou a expressão do termo “ruralista”, quando a principal expressão política do setor era o atual senador Ronaldo Caiado (PSD-TO), da União Democrática Ruralista (UDR).

O ex-presidente assina um texto desse livro em capítulo chamado “Colheita”, com depoimentos de personalidades sobre a instituição. O senador José Serra (PSDB-SP) também deu sua contribuição. O lançamento do Plano Real na sede da Rural ocorreu durante a presidência de Roberto Rodrigues – que viria a ser ministro da Agricultura durante o início do governo Luiz Inácio Lula da Silva.A informação sobre o papel da Sociedade Rural na formação da frente parlamentar consta de livro sobre os 90 anos da associação, publicado em 2010 pela Imprensa Oficial. O lançamento foi na Casa das Rosas, administrada por uma Organização Social (OS) dirigida por Clóvis Carvalho, mais um dos 12 membros não-vitalícios da Fundação FHC e ministro durante os governos Fernando Henrique Cardoso.

Alceu Luís Castilho
No DCM

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