28 de jun de 2018

Drama

O drama dos refugiados no mundo todo chega a uma espécie de ápice de horror a cada imagem de uma criança morta. Pode-se fazer uma graduação do horror, dividi-lo em categorias, do lamentável ao lancinante, mas nada nos fere mais do que a foto do cadáver de um bebê que deu na praia como um dejeto humano, ou de uma criança ferida com o olhar esmaecido de quem não sabe o que lhe aconteceu, ou por quê. A questão do que fazer com refugiados que chegam à Europa aos borbotões — quando não morrem no caminho — é difícil, mas nenhuma política de imigração é aceitável se não começar com o martírio das crianças e com o controle da exploração do desespero. O transporte de refugiados que fogem de guerras ou da miséria tornou-se um negócio para donos de barcos que chegam superlotados a portos europeus sem garantia de que seus ocupantes não serão rechaçados, ou jogados na água se os portos não os aceitarem.

A decisão de separar os filhos de imigrantes ilegais dos seus pais presos na fronteira entre os Estados Unidos e o México também transformou a insensibilidade num negócio lucrativo, com empresas pleiteando contratos milionários para abrigar as crianças. O problema com a reunião das famílias depois que o Trump se deu conta da bobagem que tinha feito — incrivelmente, ninguém o avisou que a medida ia pegar mal — e voltou atrás, é como fazer agora para juntar mães e pais com seus filhos, alguns de colo. Muita gente tem comparado o que fizeram com as crianças nos Estados Unidos com táticas nazistas. Não precisavam ir tão longe. Em Guantánamo, em Cuba, a poucos quilômetros da Flórida, está em operação o único campo de concentração do Ocidente, com gente presa lá há anos pelos americanos sem julgamento ou ajuda legal.

O que fazer com a invasão cada vez maior de refugiados no mundo desenvolvido é um desafio sem respostas fáceis. No fundo o que está em jogo é o direito de cada indivíduo de tentar melhorar a sua biografia, e corrigir o azar de ter nascido no lugar errado, na época errada. Vai acabar vendendo bolsa falsificada num bulevar europeu ou colhendo frutas na Califórnia por pouco dinheiro até arranjar coisa melhor. Mas pelo menos as crianças terão sobrevivido.

Luís Fernando Veríssimo

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