10 de jun de 2018

Contra Freud

Li uma resenha do livro de ensaios do crítico literário Frederick Crews intitulado Follies of the Wise (mais ou menos “Loucuras dos sábios”), em que ele critica diferentes formas de irracionalidade que aspiram à respeitabilidade intelectual e científica – coisas como criacionismo e “design” inteligente opostos a evolucionismo, etc. – e inclui entre elas todo o corpo teórico e experimental de Freud, o Sigmund.

Crews não admite nem que, se muitas das suas sacadas não resistem à verificação empírica e foram desmentidas pelo tempo ou ultrapassadas, Freud tenha sido um pensador original cuja influência na cultura ocidental não pode ser negada. Ele nega.

Crews diz que a ideia do inconsciente já estava na psicologia e na filosofia românticas e que coisas como terapias que recorrem à memória reprimida criaram mais traumas familiares, como falsas memórias de abuso sexual na infância, do que curas. Coloca Freud, surpreendentemente, entre os metafísicos e os charlatães no mesmo lado do abismo irrecuperável que os separa da ciência. O resenhista lembra que Crew já foi um freudiano que inclusive recorria à psicanálise nos seus estudos literários, e poderia ter a mesma relação com o antigo mestre que um “défroqué” tem com a Igreja. O fato é que, esteja onde estiver, Freud deve estar suspirando: suas teses desmentidas, a psicanálise substituída pelo tratamento químico, agora esse livro do Crews, e vá conseguir um bom charuto depois de morto... Ele não está tendo uma boa posteridade.

Crews foi injusto com Freud. A terapia freudiana talvez tenha se transformado numa ortodoxia fora de moda, mas muito do que ele escreveu sobre o efeito do subconsciente na História dos povos em livros como Totem e Tabu ainda vale – pelo menos como boa leitura. Exegetas como Norman O. Brown (que fim levou?) foram mais longe do que o próprio Freud nas suas análises da psicopatologia das civilizações, influenciados por ele. É do Freud a teoria do mito inaugural da aventura humana, o da revolta de irmãos contra o pai tirano e da culpa compartilhada pela horda desde então.

O diretor de cinema Billy Wilder contou que, no tempo em que era um jornalista em Viena, foi encarregado de entrevistar Freud, que estava almoçando e o expulsou da sua casa. Wilder saiu, mas não sem antes dar uma espiada no consultório do Freud e notar que o famoso divã em que os pacientes eram psicanalisados era curto, e concluir que todas as teses do doutor se baseavam em análises de baixinhos. Crews, que eu saiba, não usa essa informação no seu livro. Pelo menos um pouco de generosidade.

Luís Fernando Veríssimo

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