7 de jun de 2018

Cheiro de maracutaia no leilão do petróleo de Uirapuru


Mais cedo se falou aqui da pressa e da falta de estudos para fixar as bases dos lances do leilão de partilha do campo de Uirapuru, na bacia de Santos, colado ao megacampo de Carcará. O bônus em dinheiro era relativamente caro (R$ 2,65 bi) mas a participação mínima da União no “oil profit” – a parcela do petróleo retirado descontada dos gastos de extração e dos royalties  – que não chegava a 23%.

Pois o campo foi arrematado pela Petrogal, Equinor (ex-Statoil) e ExxonMobil (Esso) com o oferecimento de 75,49% de cota, batendo a Petrobras (com participação minoritária da BP e da Total) por meros 3%.

A diferença entre a parcela pedida no leilão e a ofertada não resiste a qualquer análise de consistência técnico-econômica.

Imagine, para ter uma ideia melhor, que você faz um leilão para arrendar uma loja, pedindo 23% do lucro como pagamento. O vencedor do leilão se oferece para pagar mais de 75% do lucro líquido como arrendamento.

Há, evidentemente, algo errado aí. Ou você subavaliou a parcela a ser pedida ou o arrendatário generoso sabe que a sua loja é capaz de produzir, com toda a certeza, lucros imensos e valia a pena “afundar o pé” na oferta para não perder para o concorrente.

Considere, claro, que a “parcela do lucro”, neste caso, trata-se de uma fração de, provavelmente, dezenas ou de centenas de bilhões de dólares, porque se refere a alguns outros bilhões de barris de petróleo. A quantidade é impossível de precisar, porque sequer foi perfurado qualquer poço pioneiro na área de Uirapuru, o que impede avaliações mais precisas do que simplesmente a produzida por estudos sísmicos.

Até nisso os compradores do campo estão protegidos, porque um eventual – embora improvável – custo de exploração está coberto: quem perde é a União, pois o “oil profit” sobre o qual incidirá a sua parcela é o que cairá.

É evidente que não se pode fazer, de longe, investigações sobre este estranhíssimo leilão de Uirapuru, mas é bom que se recorde a tirada de leonel Brizola: “tem cara de jacaré, tem couro de jacaré, tem rabo de jacaré: como é que não vai ser jacaré?

Fernando Brito
No Tijolaço

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