15 de jun de 2018

CBF TV - A maior caixa-preta dentro da concentração do time brasileiro

Filho e sócio de denunciado na Lava Jato deixou CBF TV em meio ao escândalo de Pasadena e penhora de bens. Braço direito de Ricardo Teixeira também já foi parte da empresa responsável


A maior caixa-preta dentro da concentração do time brasileiro em Sochi tem nome: CBF TV.

Por trás das cinco letras existe um DNA repleto de conexões com alguns dos maiores escândalos de corrupção e lavagem de dinheiro do Brasil nas últimas décadas. Ligações com personagens que estiveram e estão no olho do furacão desses casos. A Operação Acrônimo cruza o caminho com um dos sócios que passaram pela Mowa Sports, a produtora contratada pela CBF e responsável pelas imagens de bastidores da seleção brasileira. E uma das mais rumorosas fases da Lava Jato tem como protagonista e operador o pai e sócio de um dos fundadores da Mowa Sports.

O protagonismo da Mowa Sports na seleção brasileira é de fácil dimensionamento: são os únicos a ter acesso as dependências da seleção brasileira na Rússia além dos membros da delegação.

Na origem da empresa, em 2004, está Mário Rosa, por muitos anos o homem de confiança e braço direito de Ricardo Teixeira e que deixou a Mowa em 2006.

O outro pilar da Mowa Sports é Gregório Marin Júnior, que, de acordo com os registros, deixou a Mowa há um ano, no dia 8 de maio de 2017.


O fundador da Mowa deixa a empresa quando o sócio e pai, Gregório Marin Preciado, apontado como operador do PSDB, já era protagonista de um dos mais rumorosos casos da Lava Jato: o responsável por recolher e distribuir a propina no episódio da refinaria de Pasadena.

Além do barulho e repercussão que viria com a denúncia da Força Tarefa da Lava Jato do Paraná contra Preciado, outro caso envolvendo diretamente pai e filho é paralelo a saída de Gregório Marin Júnior dos registros da empresa: a penhora de bens por parte do Banco do Brasil em função de dívida de um não menos rumoroso caso envolvendo sociedade de Marin Júnior e do pai. Em 17 de janeiro de 2017, pouco antes de sair da Mowa Sports, separa os negócios e fica sozinho com a Mowa Mobile.

A saída dos registros da sociedade responsável pela milionária parceria com a CBF anda junto com o avanço do processo de execução da penhora de bens de Gregório Marin Júnior, o pai Gregório Preciado e da mãe, Vivência Talan. No último dia 23 de abril, foi a leilão uma fazenda da família com 112 hectares, avaliada em R$ 60,4 milhões, localizada em uma área nobre, próximo ao mar, no distrito de Trancoso, em Porto Seguro. A justiça determinou a venda para pagamento das dívidas com o Banco do Brasil.


A saída da Mowa Sports em meio ao processo de execução de bens está registrada como 8 de maio. Quase um mês depois, no dia 1º de junho, em uma rede social Gregório Marin Júnior faz comentário em postagem na qual o sócio Alfredo Correia Monteiro exibe foto com painel da CBF TV: “Orgulho de ser brasileiro acima de tudo! Honrado de fazer nossa parte! Pra frente Brasil!”. Sobre a saída de Gregório Marin Júnior ter paralelo com os episódios citados há um ano, Alfredo Monteiro Correia, sócio da Mowa, respondeu para a reportagem: “Gregorio Marin Jr não é mais meu sócio na Mowasports há alguns anos. A saída dele da sociedade deu-se apenas e tão somente por não termos mais os mesmos objetivos”. (ver outro lado abaixo). Na rede Linkedin, Gregório Marin Júnior ainda aparece como da Mowa.

A história da dívida da família do ex-sócio da Mowa vem de longe. E liga a família ao ex-ministro do governo Temer, José Serra (PSDB). Gregório Marin Júnior, o pai Gregório Preciado e a mãe, Vivência Talan, eram sócios na Gremafer Comercial e Importadora. Vivência Talan é prima de José Serra.

Preciado e José Serra chegaram a ter sociedade em um terreno de 828 metros quadrados no Morumbi (SP). Em 1993, a Gremafer contraiu empréstimo de valor equivalente a US$ 2,5 milhões junto ao Banco do Brasil (BB), em uma agência de São Bernardo do Campo. O terreno chegou a ser arrestado pelo Banco do Brasil mas Serra e Preciado conseguem vender. E a dívida de Preciado e do filho na Gremafer acabou obtendo uma série de ações de rolagem, novos prazos, reduções e novos créditos depois da chegada de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) no poder e do aval de Ricardo Sérgio de Oliveira, que tinha sido o arrecadador das campanhas de Serra e FHC, já na diretoria internacional do Banco do Brasil.

Os vínculos entre Preciado e Ricardo Sérgio de Oliveira aparecem ao público na CPMI do Banestado, onde documento do 16° Ofício de Notas de SP mostra pagamento mensal de R$ 87.700,00 para o procurador de Ricardo Sérgio. A CPMI mostra depósitos de Preciado para Ricardo Sérgio em empresas offshores, valendo-se de doleiro de Barcelona. Vinculada a Ricardo Sérgio, a Franton Interprises recebe mais de US$ 1,2 milhão em depósitos, grande parte oriunda de Gregório Marin Preciado, como consta no relatório da CPMI.

Exatos 25 anos depois do empréstimo do Banco do Brasil, os bens da família foram a leilão no último citado dia 23 de abril. Sem resultado, não alcançando o preço mínimo de R$ 30,2 milhões.

Na Lava Jato, outro entre os vários escândalos em que o pai e sócio de Gregório Marin Júnior aparece, a primeira citação é de 2015, quando uma escuta ambiental flagrou o então senador Delcídio do Amaral (PT-MS) relatando que o lobista Fernando Baiano era apenas um representante e que na verdade, o homem por trás das ações dele era Gregório Preciado. Ainda em 2015, Fernando Baiano faz delação premiada e um dos anexos era sobre a participação de Gregório Marin Preciado no esquema.

As investigações da Força Tarefa da Lava Jato sobre a participação de Preciado no esquema de Pasadena seguiram.

Em dezembro de 2017, o Ministério Público Federal (MPF-PR) denuncia Preciado, que operou a propina do esquema através de offshore.

Preciado aparece como “operador financeiro de organização criminosa” envolvido em lavagem de dinheiro e crime de corrupção na denúncia do Ministério Público Federal.

Funcionou assim: para compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, em 2006, durante o governo Lula (PT), a Petrobras decide comprar da belga Astra Oil uma refinaria nos Estados Unidos. Para possibilitar o pagamento de propina aos diretores da Petrobras envolvidos, a Astra contrata ficticiamente a consultoria da espanhola Iberbras, que tinha Preciado por trás, no valor de US$ 15 milhões (quinze milhões de dólares). A partir daí, Preciado iria repartir o butim e ficar com uma comissão entre US$ 500 mil e US$ 700 mil. (Arte abaixo: trecho da denúncia do MPF-PR)


Filho e pai, além de sócios, também caminharam juntos quando o assunto é sobre conexões entre empresa de telefonia. Que chegaram a CBF através do filho.

O pai foi peça fundamental na vitória da empresa espanhola no processo de privatização da telefonia durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Ainda como Telefonica, depois transformada em Vivo. No livro “Operação Banqueiro” (Editora Geração), de Rubens Valente, Preciado é citado por Carla Cico, braço direito de Daniel Dantas, como elo da “Conexão Espanhola”, que teria agido nos bastidores e junto a funcionários do governo em favor da telefonia espanhola no processo. A ampla documentação obtida pelo livro mostra Gregório Marin Preciado em uma das linhas de investigação privada comandada pela Kroll Associates com protagonismo no processo de privatização da telefonia.

E em 2003, o filho de Gregório Marin Preciado, exatamente Gregório Marin Júnior, passa a ter negócios com a Vivo, lançada como marca naquele ano. Em 2005, a Vivo torna-se patrocinadora da seleção brasileira. No mesmo ano, a Mowa lança parceria com a Vivo na seleção, o “Repórter Vivo”. Até a Mowa chegar aos dias de hoje, com o gigantismo da CBF TV, onipresente na tela de todos em tempos de Copa, com milhões em contratos com a CBF.

Braço direito de Ricardo Teixeira também estava na origem da Mowa

Já Mário Rosa é jornalista de formação. Sempre apareceu muito próximo a Ricardo Teixeira. Mas jamais foi mencionado como parte de um negócio como a Mowa, empresa que se relacionava diretamente com a CBF. A presença do consultor de crises e braço direito de Teixeira na sociedade que ganhou e segue ganhando milhões na CBF não era conhecida.

Tampouco mencionou. Não revelou nem mesmo no livro “Entre a glória e a vergonha: memórias de um consultor de crises”, escrito recentemente, no qual conta detalhes de décadas de sua trajetória, suas histórias com Ricardo Teixeira e CBF, detalhes da vida profissional e atividades sem mencionar a participação na Mowa, até aqui desconhecida.

Em conversa com a reportagem, questionado sobre a razão para não ter contado a participação na empresa próxima a CBF, afirmou que “não mencionei esse fato como não mencionei vários outros de minha vida. Não para ocultar ou qualquer outra razão. Até porque são dados públicos, como você mesmo sabe”, disse.

A proximidade com o ex-mandatário da CBF cresceu em 1999, como está no livro. Corria a “CPI da Nike” na câmara dos deputados e Teixeira convidou Rosa para ser consultor e gestor de crise. No ano seguinte, veio a “CPI do Futebol”, agora no senado. E Rosa foi ficando cada vez mais próximo do presidente da CBF. Tornaram-se íntimos e o amigo o transformou em um dos delegados do Brasil na Confederação Sul-Americana de Futebol.

A entrada de Mário Rosa na Mowa é em 14 de março de 2005. Mário Rosa dá sua versão da história para a Agência Sportlight de Jornalismo Investigativo. “A Mowa já fazia serviços para a Vivo. O Gregório Marin Júnior me chama para conversar. Queria usar imagens da seleção nos celulares. Digo a ele que para casar com a seleção tem que ter patrocínio. E a Vivo se torna patrocinadora da seleção. O Ricardo (Teixeira) ficou grato de eu gerar receita para a CBF. Mas não recebi comissão”, conta.


O ex-jornalista relata o convite para entrar na Mowa. “O Gregório (Marin Júnior) me chama para a sociedade. Pergunto ao Ricardo (Teixeira) se havia problema. Ele diz que não, eu entro. Não havia óbice, algo como estar dos dois lados do balcão. Se eu tivesse algum contrato com o Ricardo sim, teria. Mas eu não era servidor da CBF, não tinha contrato com o presidente. Se tivesse ou contrato ou cargo, podia ser questionado. Não era o caso. Vendo a história hoje, me sinto muito à vontade. Não tive outro negócio ligado a CBF”.

A reportagem pergunta se ele era dentro da Mowa um homem de Ricardo Teixeira, o representante do mandatário da CBF na empresa. Mário Rosa nega: “Se a empresa fosse minha e do Ricardo, seria o Gregório a sair e não eu”, afirma, sem mudar o tom de voz. (Na foto abaixo, Ricardo Teixeira e Mário Rosa ao fundo. Reprodução do livro “Entre a glória e a vergonha: memórias de um consultor de crises”, Mário Rosa)


A saída da empresa a qual se refere é em 25 de agosto de 2006. “Nunca ganhei um centavo da Mowa. Registrei inclusive em cartório que sai sem ganhar um centavo. E saí antes deles virarem esse gigante dentro da CBF”, diz.

No dia 25 de junho de 2015, depois de tantas vezes aconselhando enrascados com a lei, viu a Polícia Federal na sua porta às 6h da manhã. Era a terceira fase da Operação Acrônimo, que investiga lavagem de dinheiro em campanhas eleitorais. A busca era por provas de pagamentos feitos pela empresa de Mário Rosa a Carolina Oliveira, mulher do governador mineiro Fernando Pimentel. No livro, Mário Rosa refuta qualquer ilegalidade nos pagamentos.

No episódio envolvendo Mário Rosa na Operação Acrônimo em 2015, é possível ver um movimento paralelo nos documentos da Mowa.

Depois da visita a Mário Rosa, a Polícia Federal bateu na porta da CBF às seis horas da manhã de 1º de outubro de 2015. Cumpria um mandado de busca e apreensão na terceira etapa da Operação Acrônimo. O alvo era um contrato entre a MR Consultoria, empresa de Mário Rosa e a entidade.

Quase um mês depois, no dia 30, um cartório do Ibirapuera (SP) recebia para autenticação um ofício dos sócios da Mowa: uma declaração de que Mário Rosa deixara a empresa em 2006. Com um detalhe: a data do carimbo do cartório é de 30 de outubro, mas o ofício é assinado como 1° de outubro, mesma data da operação policial em que Mário Rosa foi alvo. Uma retificação contratual com uma aparente preocupação: desvincular o nome do ex-parceiro Mário Rosa da Mowa.

A íntima relação da Mowa com a CBF também fez da empresa um abrigo para parentes e afins de cartolas da entidade em seus quadros ao longo dos anos: Rafael Carrion Fernandes, genro de Wagner Abrahão, foi executivo da Mowa nos anos de José Maria Marin. Marcus Vinícius Del Nero, filho de Marco Polo Del Nero, foi diretor de arte.

Outro lado:

Alfredo Monteiro Correia, da Mowa Sports:

1- Mário Rosa, com íntimas ligações a Ricardo Teixeira, foi sócio da Mowa em período que coincide com a gestão de Ricardo Teixeira na CBF. Gostaria que comentasse se houve relação entre a sociedade e Teixeira.

R- Mário Rosa foi meu sócio por poucos meses há mais de 12 anos atrás. Tivemos uma ideia que não vingou e ele se retirou da sociedade.

2- Os sócios da Mowa enviaram um ofício para a Junta Comercial no fim de outubro ratificando que Mário Rosa não era mais sócio da Mowa. O ofício tem data de 1º de outubro de 2015, mesma data em que Mário Rosa foi alvo de mandado de busca e apreensão pela Operação Acrônimo, da Polícia Federal. Gostaria que comentasse, por favor.

R- Nada a comentar. Apenas ratificamos a saída dele da sociedade ocorrida em 2006.

3- Paralelo a etapa da Lava Jato que citou Gregorio Preciado, o filho Gregorio Marin Jr também deixou a sociedade. No entanto, os registros da Junta Comercial anotam a abertura por parte dele de uma outra perna da MOWA, desta vez sozinho. Gostaria que comentasse, por favor, se houve coincidência entre a saída e a operação que cita o pai de Marin Jr.

R- Gregorio Marin Jr não é mais meu sócio na Mowasports há alguns anos. A saída dele da sociedade deu-se apenas e tão somente por não termos mais os mesmos objetivos.

Gregório Marin Júnior:

A reportagem tentou contato com Gregório Marin Júnior, sem sucesso. Caso receba resposta, será publicada.

Lúcio de Castro
No SportLight

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