12 de jun de 2018

Carone: uma pedra no sapato do tucanato mineiro


Há 14 anos o jornalista Marco Aurélio Flores Carone, 65 , é uma pedra no sapato do tucanato mineiro, em geral, e do senador Aécio Neves, em particular.

Nascido em Visconde do Rio Branco, Zona da Mata de Minas, Carone é filho de políticos cassados pela ditadura militar: Jorge Carone Filho e  Nysia Coimbra Flores Carone.

Em 2005, ele criou o NovoJornal, um site jornalístico que tratava de política, economia e cultura.

Carone tinha o hábito de madrugar na redação, no Bairro Cruzeiro, centro de Belo Horizonte.

Em 20 de janeiro de 2014, como sempre, chegou por volta das 6.

Mas, diferentemente de outras manhãs, três viaturas da Policia Civil de Minas Gerais estavam na porta.

Ele mal começou a descer do carro, seis policiais lhe apontaram metralhadoras e um disse: “Você está preso!”.

Três dias antes, a juíza Maria Isabel Fleck, da 2ª vara criminal de Belo Horizonte, decretara a prisão preventiva do jornalista, a pedido do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).

Entre outras alegações, dizia que o NovoJornal  era “utilizado para lançar ofensas à honra de autoridades públicas” (…), imputando inverdades àqueles que cumprem seus deveres funcionais” .

E como “exemplo” de sua justificativa citava reportagem denunciando o mensalão tucano.


Na decisão, a juíza reproduziu trecho da denúncia do promotor André Luiz Garcia de Pinho, da Promotoria de Combate ao Crime Organizado do MPMG.

Nele, o promotor tacha Carone de ser “membro de quadrilha”, e o NovoJornal de atuar “como verdadeiro balcão para intimidação e desmoralização das vítimas da quadrilha”.


Em coletiva de imprensa, o promotor André Pinho e o delegado César Matoso, da 2ª Delegacia de combate a crimes cibernéticos, acusaram o jornalista de falsificação de documentos, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

CARONE FOI PRESO POR AÇÃO DIRETA DO GRUPO DE AÉCIO NO JUDICIÁRIO E NA POLÍCIA

No mesmo dia, o nome de Carone estava estampado em toda a mídia, como “achacador”, “falsário”, “integrante de quadrilha”.

Na verdade, o NovoJornal foi o único veículo em Minas que não se curvou à censura comandada com mãos de ferro por Andrea Neves durante os governos dos tucanos Aécio Neves (2003-2010) e Antônio Anastasia (2011-2014).

Carone foi preso por ação direta do grupo de Aécio no judiciário e na polícia.

Leia-se: o próprio Aécio, a então toda poderosa irmã, Andrea, e Danilo de Castro, secretário do governo de Minas de 2003 a 2014.

O encarceramento teve a ver com reportagens já publicadas, como as sobre as listas de Furnas e do mensalão tucano, reveladas pelo lobista Nilton Monteiro e comprovadamente verdadeiras.

Mas foi devido principalmente a denúncias que o NovoJornal iria publicar contra Aécio, então candidato à presidência da República.

Tanto que Carone só foi solto após o 2º turno da eleição de 2014.

Dos 9 meses e 15 dias de encarceramento, três meses foram na solitária, incomunicável.

O promotor André Pinho e o delegado César Matoso abriram dois inquéritos contra o jornalista.


Mas, como a função da verdade é aparecer, em 2 de maio de 2016 Carone obteve a primeira vitória.

A juíza Kenea Márcia Damato de Moura Gomes, da 12ª Vara Criminal de Belo Horizonte, mandou arquivar um dos inquéritos, pois nada se provou das denúncias do MPMG.

Abaixo, a última página da decisão da magistrada:


Agora, o segundo inquérito deve tomar um novo rumo.

O delegado Rodrigo Bossi de Pinho, que assumiu a investigação após o afastamento de Matoso, concluiu-o e relatou-o, sem indiciar Carone.

Rodrigo Bossi é o chefe do Departamento Estadual de Fraudes da Polícia Civil de Minas Gerais.

Em 11 de maio de 2018, ele enviou o relatório sobre o caso à 2ª Vara Criminal de Belo Horizonte, que o remeteu ao juiz Haroldo André Toscano.

Doutor Haroldo ainda não decidiu, mas, em tese, se ele seguir o relatório, remeterá o inquérito à Procuradoria Geral de Justiça, para investigar as irregularidades da atuação do promotor.

O delegado Rodrigo Bossi desvendou uma farsa:

* Após a prisão de Carone, seu ex-genro procurou o promotor André Pinho e ofereceu-lhe a notícia crime de que a conta bancária de seu filho, neto de Carone, estava sendo utilizada para lavagem de dinheiro.

* Como contrapartida, o promotor forneceu uma certidão para ser utilizada no Juízo de Família na ação de divórcio contra a filha de Carone.

* Na certidão, André de Pinho adianta-lhe que iria representar por providência cautelar sigilosa de quebra de sigilo bancário do neto de Carone.

“Nada mais conveniente”, observa Bossi em sua conclusão (veja trechos abaixo).

Carone, prossegue o delegado, sofreu todo tipo de perseguição por denunciar os esquemas de corrupção nos governos de Minas.


Com base nas investigações, doutor Rodrigo Bossi tem plena convicção de que Carone foi uma das vítimas de uma organização criminosa que operou em Minas Gerais para perseguição política.


O chefe do Departamento de Fraudes da Polícia Civil de Minas ainda salienta: Carone é “único, autêntico, preso político pós-redemocratização” e que seu caso deveria ser apreciado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).


CARONE: “ALERTEI ANDREA DE QUE O QUE FAZIAM NO GOVERNO NÃO IA ACABAR BEM” 

Em entrevista exclusiva ao Viomundo após saber da sua absolvição no segundo inquérito, Carone fala sobre o comportamento da mídia, o alerta que fez a Andrea Neves anos atrás, os inquéritos, medidas que tomará contra os caluniadores e o neto . Veja a íntegra.

Viomundo – Como foi receber essas duas decisões? O que sentiu na hora em que as leu?

Marco Aurélio Carone — Na primeira, eu fiquei alegre, pois foi feita perícia que comprovou a inexistência de qualquer prática irregular. Na segunda, triste com o que ficou provado.

– Você foi massacrado, ficou incomunicável três meses, quase morreu na prisão.  Essas decisões reparam toda a injustiça que sofreu?

—  Pergunta difícil.

– Como a mídia o tratou na ocasião?

—  Como criminoso, principalmente porque a Andrea Neves colocou toda estrutura de imprensa do governo de Minas para distribuir notícias contra mim, informando que um falsário e chantagista tinha sido preso.  Até coletiva para rádio e televisão foi convocada.

— Esse comportamento foi só da grande mídia?

— Não. Com exceção do Viomundo e de alguns pequenos blogs, a mídia alternativa também me tratou como bandido, criminoso. A Andrea tinha controle de quase tudo.

— Andrea Neves teve participação direta na tua prisão. O que passou pela tua cabeça no dia em que a viu sendo presa?

— Lembrei do que tinha lhe dito lá atrás. Durante anos, diante das reclamações dela sobre as matérias do  Novojornal, alertei-a de que o que estavam fazendo no governo não ia acabar bem.

— No livro Diálogo com ratos, o jornalista e escritor Geraldo Elísio conta que no dia 17 de janeiro 2014 Andrea foi ao NovoJornal e disse que se não parasse com as matérias contra o Aécio, você ia ser preso e o NovoJornal fechado. Ela chegou a ir à redação propriamente dita?

Não. O motorista dela me chamou e eu fui até a porta. Andrea estava dentro do carro.

— Lendo agora os documentos sobre a sua prisão, me chamou a atenção o fato de a juíza Maria Isabel Fleck ter pedido a tua prisão preventiva no dia 17 de janeiro, justamente o dia em que a Andrea foi ao NovoJornal. Ou seja, a decisão já estava tomada. Ela tentou dissuadi-lo?

Tentou, claro. Falei que não tinha acerto, eu iria continuar denunciando o que tinha de ser denunciado. Eu não iria recuar um milímetro. Era minha obrigação como jornalista.

— No dia da prisão, os policiais te levaram à redação para a busca e apreensão?

Não, eu fui preso descendo do carro, já me colocaram no camburão. Dali, fui para o Ceresp Gameleira. Depois, para a Nelson Hungria, penitenciária de segurança máxima em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte, de onde só saí, em 4 de novembro de2014.

— Ou seja, a busca e a apreensão de computadores e documentos não foram na tua frente, mas com você já preso.

Isso mesmo. Fui preso no início da manhã e, segundo me informaram, a busca e apreensão aconteceram na parte da tarde.

— Foram também à tua casa?

Sim. Segundo a minha filha entraram com metralhadora, levaram notebooks, computador e até um tablet do meu neto. Jogaram as roupas no chão, levaram todos os documentos que acharam.

— Com base em que pediram a tua prisão preventiva?

Minha prisão preventiva foi feita para manutenção da ordem pública e para não atrapalhar a instrução criminal. Essa foi a justificativa da juíza.

— E por que dois inquéritos, já que aparentemente tratam de coisas semelhantes?

Na verdade, os dois têm o mesmo objeto, mas foram divididos para na condenação aumentar a minha pena. Eles foram abertos na porta do NovoJornal, às 6h da manhã, quando me prenderam.

— Do que tratavam?

— O primeiro foi aberto para apurar a origem dos recursos que mantinham o Novojornal.  Houve perícia na nossa contabilidade e quebra dos sigilos fiscal e bancário – meu e do NovoJornal.  Não havia nada irregular.

O segundo inquérito foi para apurar se ocorreu lavagem de dinheiro.

— O promotor André Pinho e o delegado César Matoso estão nos dois inquéritos?

Sim, nos dois. O primeiro foi relatado pelo delegado Matoso e denúncia apresentada pelo promotor André Luiz.  O segundo, devido ao afastamento do delegado Matoso, foi concluído e relatado pelo delegado Rodrigo Bossi, sem oferecimento de denúncia.

O promotor e o delegado Matoso teriam que apresentar a denúncia em, no máximo, 20 dias após minha prisão. Eles só foram apresentar o primeiro inquérito no final de 2015 e a juíza rejeitou a denúncia.

O segundo inquérito foi concluído na metade de maio de 2018, com um relatório informando e denunciando que tinha sido uma farsa.

— Você ficou preso durante 9 meses e 15 dias. Mas a prisão preventiva tem um prazo, não é?

— A prisão preventiva, de acordo com a lei, não pode ultrapassar três meses.  Eu fiquei preso por 9 meses e 15 dias, como bem observou você. E como não tinha nada contra mim, o juiz Haroldo Toscano, da 2ª Vara Criminal, acabou me libertando por excesso de prazo.

— Ou seja, tudo forjado para parecer crime comum, para esconder os motivos reais e não passar atestado de censura. Assim,  impedir que você fizesse outras matérias e, ao mesmo tempo, desqualificar tudo o que já tinha feito.

Sim, com certeza.

— Eu sei que você é apaixonado pelo seu neto e ele por você. Ele já sabe  dessas decisões judiciais?

— Ainda não sabe. Na verdade, ainda não sei como tratar deste assunto com ele.

— Ele é pequenininho…mas, se tivesse 8 anos naquela época teria percebido.

— Sim, com certeza. Minha filha disse a ele que eu estava viajando.

— O que você pretende fazer agora com os responsáveis por tudo isso?

(silêncio)

— Ou prefere surpreender?

Acho melhor…

— Logo no início você disse que ficou triste com o que foi provado no segundo inquérito. Ficou triste por causa do envolvimento do teu ex-genro?

Sim, ele é pai do meu neto. É complicado.

— O que pode dizer a respeito?

— A vida traz muita surpresa.

Conceição Lemes
No Viomundo

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