11 de jun de 2018

As eleições e a trágica normalidade


O Brasil é um país inabilitado à grandeza e os seus líderes, com raríssimas exceções, são inabilitados à conquista da glória - aquela condição de uma fervorosa admiração pelas gerações do presente e do futuro. Como regra geral, os nossos líderes querem apenas viver a fama nas benesses do presente, e não pensam em alcançar a glória imorredoura dos tempos vindouros. Em sendo assim, o Brasil vai se configurando cada vez mais como um país com uma história irrelevante para os destinos do mundo e da humanidade e sem um futuro promissor, por não ser capaz de se dar um destino brotado da ação interna e vulcânica de seu próprio povo.

O conceito de tragédia tem vários sentidos, mas os dois que se colocam em posições polares são aqueles definidos por Hegel - sentido positivo, superador - e aquele conferido por Shopenhauer - com sentido negativo, que aprisiona numa condição inescapável e terrível. A tragédia brasileira é do tipo shopenaureano: vivemos uma vida com aspectos terrificantes, o povo está mergulhado na aflição e na dor inominável, ao cabo de todos os processos termina triunfando sempre a perfídia, há um "escarnecedor domínio do acaso" e da Fortuna e a "fatal ruína dos justos e dos inocentes".

Faça-se o que se fizer no Brasil, conceda-se migalhas aqui, algumas políticas sociais ali, um avanço acolá, a história sempre retorna ao círculo completo e fechado, uma espécie de eterno retorno às condições da vida cruel do povo, sem direitos, sem saúde e com a vida embrutecida e sem esperanças. Afinal de contas, a nossa tragédia, não pode deixar de ter um quê hegeliano: o manto oficial e legal que recobre as agruras do povo traz as cores de uma comédia substancial. A alegria das nossas canções escondem uma melancólica infelicidade das nossas almas.

O Brasil da superfície, o Brasil oficial, o Brasil institucional é pura comédia e escárnio. Tem-se os três poderes arruinados, mas seus representantes se apresentam com a empáfia arrogante de cortes principescas falidas e de cortesãos degenerados. Tem-se um presidente que ninguém sustenta, mas que não cai e ninguém quer tirá-lo do poder, nem mesmo os opositores que ele vitimou com um golpe. Temer é um cadáver político, um cancro morto que continua a arruinar os vivos, o povo e o Brasil. Durante a greve dos caminhoneiros, que mergulhou o país no caos, com uma ou outra exceção, ninguém exigiu a renúncia de Temer e sua quadrilha. Boa parte da esquerda ficou oscilando entre o medo do golpe militar e o oportunismo eleitoral. Nos seus cálculos, não importaram nem o sofrimento do povo e nem o desmanche do Brasil. E como Temer não tem nenhuma honradez, não renunciou.

Enquanto o Brasil, o Brasil do povo pobre, se afunda na desesperança e no sofrimento, o Brasil oficial corre todo para as eleições. Eleições que não empolgam e nem empolgarão, seja porque o líder das pesquisas está encarcerado injustamente ou seja porque o povo se sente acorrentado na sua trágica fatalidade de uma vida que não muda e que não tem futuro. Com uma grande ausência, a do único líder autenticamente popular - Lula - e sem outros líderes que empolguem, as eleições vão se arrastando a para o seu fatídico dia, provocando em milhões de eleitores o fastio pela obrigação de votar.

E convenhamos, o PT, que é um partido amado por muitos, que é odiado por outros, que tem uma bela história, que fez muito no governo, dadas as circunstâncias históricas do país, mesmo que esse muito seja pouco para as vicissitudes seculares do povo, o PT, repita-se, tem uma direção estranha. Quer que Lula participe legalmente das eleições e é correto e legítimo que o queira. Mas a direção não convoca nenhuma mobilização nacional para tentar garantir legalmente a candidatura de Lula e para tirá-lo da cadeia. É como se acreditasse que as peregrinações lacrimosas ao Campo dos Santos de Curitiba e as proclamações grandiloquentes dos dirigentes fossem suficientes para garantir a candidatura de líder e para libertá-lo. Convenhamos, é uma tática muito estranha. Ou haverá algum mistério, insondável aos mortais, guardado nos bastidores do grande teatro dos senhores da história?

Já, as carpideiras do mercado, desmoralizadas em suas previsões, angustiadas com a queda na Bolsa, trêmulas com a alta do dólar, desalentadas com o murchamento do PIB, vivem dias de tormento pela estagnação de Alckmin e pela dispersão da centro-direita. Aparentemente, o seus desespero é prematuro, pois as eleições sequer estão postas no horizonte da maioria esmagadora dos brasileiros.

O candidato do mercado é Alckmin e não Dória, pois o mercado considera Dória um aventureiro. Mas, como o mercado vive da excitação egoísta do momento, oscila entre o desespero e uma opção por Bolsonaro. Não há que se ter dúvidas quanto a isto: entre Bolsonaro e um candidato de centro-esquerda ou de esquerda, qualquer que seja, o mercado, os juízes, os procuradores, os policiais federais e as cúpulas policiais de outras polícias preferem Bolsonaro. Bolsonaro é a margem direita do golpe e, caso se inviabilize alguém do centro do golpe, os votos se deslocarão para o seu extremo. O rancor que esses setores nutrem contra o povo e contra as esquerdas é imenso. Para os golpistas, para os paneleiros, para os verde-amarelos, seria a vergonha das vergonhas se um candidato de esquerda vencesse as eleições.

As eleições tendem a se deslocar passiva, morna e pacificamente para seu desfecho. Como no Brasil não há almas vulcânicas, não serão vistos rios de fogo e lava na campanha eleitoral. Não se viram esses rios nem durante o caos da greve dos caminhoneiros. A chance de vê-los durante um processo eleitoral que gera fastio é infinitamente menor. No Brasil se aceita tudo: golpes, violência, pobreza, desigualdade, desemprego, falta de direitos...

A trágica normalidade, a tragédia naturalizada, o aprisionamento do povo brasileiro no seu destino imutável, são os ingredientes que conduzirão as eleições ao seu leito ordinário. Aconteça o que acontecer, tudo será normal. Com um esparadrapo aqui, outro ali, o governo tentará reduzir a sangria da economia. Temer será mantido pela insustentável leveza da sua insignificância e pela inapetência virtuosa das oposições. O novo presidente assumirá normalmente e o Brasil continuará na sua dolorosa e medíocre caminhada, com crises intermitentes, com injustiça entranhada no seu modo de ser e com seu destino maléfico.

A pulverização de candidatos na centro-direita, no fundamental, continuará. O seu polo atrativo e centrípeto, o PSDB, perdeu força e brilho, revelou-se um moralista sem moral e seus ilustrados intelectuais perderam a empáfia ao falar em democracia e seus manifestos não atraem a atenção de ninguém. Mas, como na política brasileira os mortos ressuscitam, sempre é conveniente estar atentos, pois Alckmin não está morto e a fumaça do desespero vem mais dos desconsolados do mercado.

Na centro-esquerda, desde 1989, o polo aglutinador sempre foi Lula. Exilado nos calabouços de Curitiba, suscita dúvidas, apreensões e esperanças. A dispersão nasce dessas duvidas, que precisam ser respeitadas. É certo que o que dizem as pesquisas hoje não necessariamente o dirão amanhã. Eleições são movimento e essas eleições são marcadas pela estranheza: o povo quer mudança, mas identifica a mudança na restauração do passado do governo Lula. Duas coisas aqui: a força mítica e simbólica de Lula e o desastre do golpe que nasceu com semente da morte, pois não tem conteúdo moral e seu principal objetivo foi salvar políticos da forca e continuar assaltando o botim público.

Como todo mundo sabe, neste momento, prognósticos eleitorais são imprevisíveis até porque o quadro das candidaturas não está fechado. Para vencer eleições é preciso possuir uma astúcia afortunada. Se Lula puder concorrer, ela brilhará à luz do sol. Se não puder, o processo eleitoral terá que fazê-la desenvolver-se no campo da centro-esquerda. Caso contrário, o orvalho que molhará as flores no dia seguinte às eleições terá um gosto ácido e uma tonalidade cinza.

Aldo Fornazieri, Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP)

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