6 de jun de 2018

As duas vidas de Aécio: a que poderia ter sido e a que ele mesmo escolheu

O que teria acontecido com o neto de Tancredo se ele tivesse simplesmente aceitado o resultado da eleição em que foi derrotado?

Foto: Lula Marques
O que poderia ter acontecido:

26 de outubro de 2014. Derrotado na eleição por uma margem estreita de votos, o senador Aécio Neves saúda a presidenta reeleita Dilma Rousseff e anuncia que irá tirar alguns meses de férias com a família. Afinal, tem um casal de filhos gêmeos nascidos durante a campanha.

“Vou aproveitar para tirar um tempinho para mim, para a Letícia e pros meus bebês. Família em primeiro lugar”, diz Aécio, sorridente, ao embarcar para uma temporada de férias em Cancún, seguida de uma temporada de estudos na Califórnia. Durante a estadia nos EUA, Aécio é flagrado em cenas cotidianas, comprando fraldas no supermercado, andando de bicicleta e a pé, e concede inúmeras entrevistas aos jornais brasileiros, sedentos por estampá-lo em suas páginas, e também à imprensa estrangeira.

Em janeiro de 2015, mais magro e com aspecto saudável, Aécio volta à cena política como o grande líder da oposição. De forma republicana, rejeita as investidas de Eduardo Cunha para ajudá-lo a derrubar a presidenta eleita. “Tenho DNA de democrata, que herdei do meu avô Tancredo. Quero a vitória, mas quero nas urnas. Não me unirei a corruptos”, afirma o senador, repelindo também os chamados do vice de Dilma, Michel Temer, à conspiração.
Aécio volta à cena política como o grande líder da oposição. Rejeita as investidas de Eduardo Cunha para derrubar a presidenta eleita. “Tenho DNA de democrata, que herdei do meu avô Tancredo. Quero a vitória, mas nas urnas”
Na liderança da oposição, Aécio torna a vida de Dilma difícil, barrando todas as iniciativas do governo. Monta um governo paralelo onde analisa e rebate imediatamente cada medida anunciada pelo Planalto. Pede uma CPI sobre a política de preços da Petrobras, se junta aos caminhoneiros e faz brilhantes discursos semanais da tribuna do Senado contra a presidenta. O objetivo é transmitir aos cidadãos a eficiência de seu projeto diante do petista, que classifica como “antiquado”, “ultrapassado”.

Em viagem pelo exterior, se apresenta como o “novo”, ao lado de outros próceres da direita no mundo. Na Argentina, posa ao lado de Macri. Na França, com Macron. Fica íntimo do líder venezuelano Henrique Capriles e os dois assistem, junto com Ronaldo, a todos os jogos da seleção na Copa do Mundo. Critica as vaias que Dilma recebeu na abertura e divulga um vídeo no facebook cobrando mais fair play de seus seguidores. No dia em que o Brasil perde para a Alemanha, Aécio é fotografado comovido, com a bandeira verde-amarela cobrindo parte do rosto. A imagem viraliza nas redes sociais.

Milhões de brasileiros identificados com o liberalismo enxergam no mineiro o seu modelo: dinâmico, audacioso, playboy. Embora nunca tenha dado duro na vida e deva a carreira ao sobrenome do avô, Aécio encanta os pobres de direita com seu discurso sobre meritocracia. Atlético, bronzeado, é constantemente fotografado nas praias do Rio de Janeiro nos dias de folga, sempre ao lado da família e de jogadores de futebol. Cada vez mais celebridades da música, da TV e do esporte viram “aecistas”. A atriz Luana Piovani lança uma coleção de camisetas infantis com a frase: “Não tenho culpa, mamãe votou no Aécio”.
Com o governo Dilma ainda mal avaliado pelos eleitores, Aécio Neves chega a outubro de 2018 em sua melhor forma e é um dos candidatos favoritos à sucessão, empatado tecnicamente com Lula nas pesquisas
O candidato derrotado à presidência se torna colunista de todos os jornais do país, de O Globo ao Diário do Amapá. Durante os quatro anos posteriores à eleição, o tucano soma mais de 50 horas de notícias positivas no Jornal Nacional, superando inclusive as notícias negativas dedicadas ao ex-presidente Lula. Aécio é convidado a opinar sobre política, economia e até sobre amenidades, como as últimas tendências da noite carioca. “Acho a batida do funk um barato, só não sei rebolar”, declara, gargalhando, ao lado da cantora Anitta.

Com o governo Dilma ainda mal avaliado pelos eleitores, Aécio Neves chega a outubro de 2018 em sua melhor forma e é um dos candidatos favoritos à sucessão presidencial, empatado tecnicamente com Lula nas pesquisas.

O que de fato aconteceu:

Inconformado com a derrota, Aécio pede a recontagem dos votos apenas quatro dias após o segundo turno, o que não dá em nada. Alia-se a Eduardo Cunha, a Temer e à Rede Globo para derrubar Dilma, e consegue. Em vez de honrar o mandato de senador como um político sério, dedica-se a pedir dinheiro ao empresário Joesley Batista, que chega a falar pelo amor de Deus para ele parar. Gravações com os pedidos vêm à tona, Aécio cai em desgraça e é limado da disputa à presidência. Aecistas de primeira hora começam a pregar que querem vê-lo preso. Como um fantasma em vida, o neto de Tancredo raramente aparece em Brasília. Às vésperas da eleição de 2018, não sabe nem se vai conseguir continuar no Senado, ameaçado de perder a vaga para… Dilma Rousseff.

FIM

Cynara Menezes
No Socialista Morena



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