13 de jun de 2018

Agência Lupa aguarda fumaça sair da chaminé da Capela Sistina: se for branca, Papa mandou rosário a Lula, mas se for preta, é fake news


A Agência Lupa emitiu nota na tarde desta quarta (13) prestando "esclarecimento" sobre a checagem do terço de Lula. A "primeira agência de fact-checking do Brasil" parece estar decidida a esperar uma fumaça sair da chaminé da Capela Sistina: se for branca, o Papa Francisco enviou mesmo um rosário a Lula. Se for preta, é fake news e não se fala mais nisso.

A Lupa não admite a explicação prestada pelo argentino Juan Grabois, que teve de expôr o conteúdo de conversa privada que teve com o Papa Francisco, em maio passado, por causa da repercussão que teve a história do terço nas redes sociais. Lupa só quer confirmação diretamente do Vaticano. Se puder ter fumaça e um "habemus fake news", melhor ainda.

Ironias à parte, no informe divulgado às 17h26, Lupa transcreveu que Grabois, "consultor do Pontífice", explicou em carta pública que pediu pessoalmente ao líder máximo da Igreja Católica para abençoar um terço que já tinha destino certo: Lula. Grabois disse ainda que no encontro com o Papa, além de pedir a benção ao terço de Lula, falou da situação política do Brasil.

Junto com o rosário abençoado pelo Papa, Grabois trouxe a Lula as "palavras do Papa". Mas Lupa e outras agências de fact-checking querem saber se o Papa abriu a boca para mandar um recado especialmente a Lula ou se as "palavras do Papa" querem dizer algo mais abstrato. Porque não basta Grabois ter estado com o Papa e conversado sobre enviar um terço abençoado a Lula. Extensão da grande mídia, a Lupa espera algo mais.

Grabois esteve na segunda (11) em Curitiba para tentar visitar o ex-presidente, mas foi impedido de entrar no local onde o petista está preso. Deixou o rosário e uma carta.

Horas depois, as páginas oficiais do PT e Lula manchetaram que o Papa enviou um rosário a Lula. Quem ousou reproduzir as notas, mesmo com as cabíveis ressalvas e contextualização, foi acusado de difundir fake news pela Lupa, que usou para isso uma nota (equivocada) do Vatican News que posteriormente foi deletada e substituída por uma nova, sem os erros de informação. 

Somente nesta quarta (13), depois de ter sido acionada pelos sites ofendidos pela tarja de "fake news", Lupa decidiu alterar a etiqueda de "falso" para "de olho". "(...) esta passa a ser a classificação da Lupa até que o Vaticano faça um esclarecimento oficial e definitivo sobre o desejo do Pontífice em dar um terço ao ex-presidente."

Mesmo tendo usado uma nota cheia de erros para atacar os concorrentes, a Agência Lupa, ligada à Piauí, não deu o braço a torcer. Longe de esboçar qualquer tentativa de se retratar por acusar terceiros de fake news quando também usou nota com informações erradas, Lupa segue apegada ao detalhe de que o Papa "apenas" abençoou o rosário de Lula, mas não sabe se ele "enviou" o objeto ao petista. 

O curioso é que, no mérito, Lupa usou a nota falsa do Vatican News da mesma maneira que sites independentes e outros portais (inclusive UOL e Folha) usaram as notas oficiais da equipe de Lula e do PT. Só um lado, contudo, foi acusado de disseminar fake news e denunciado ao Facebook, correndo o risco de ser suspenso da rede social.

Por enquanto, essas classificações negativas feitas junto ao Facebook foram suspendidas pela Lupa. Podem voltar à baila se a fumaça que sair da Capela Sistina vier a ser preta.

Enquanto o Vatican News não responde, fica registrado que, até aqui, a polêmica em torno do rosário de Lula serviu para mostrar que sobra risco de fact-checking ser usado para censura e falta auto-crítica por parte das agências - e não só Lupa, como se vê aqui - que também cometem erros na apuração, mas não reparam danos com a mesma facilidade.

No GGN



A carta de Juan Grabois, assessor do Papa, enviada a Lula (em português)

Querido Lula,

Ontem deixei o Brasil muito angustiado. Como você sabe, eles me impediram de visitá-lo de maneira injustificada, arbitrária e descortês. Em seguida, visitei meus irmãos e irmãs catadores, carroceiros, camponeses, favelados, professores, funcionários públicos, trabalhadores e membros de várias comunidades pastorais. Pude sentir a dor do teu povo, compartilhar sua impotência diante da injustiça, sua raiva pela perseguição de seu dirigente máximo. Também notei a enorme deterioração institucional, social e política sofrida pelo Brasil por causa da ambição de uns poucos que concentram o poder e impedem que as diferenças sejam resolvidas no marco da democracia.

O gole mais amargo, no entanto, estava me esperando no aeroporto de Curitiba. Lá soube que você foi atacado novamente pela mídia de massa e nas redes sociais. Eles alegaram que você mentiu sobre o Rosário enviado pelo Papa Francisco. Então você, preso e incomunicável, também mente! Com espanto, vi que seus inquisidores indicaram que a fonte de sua calúnia era o próprio Vaticano. Minha maior surpresa foi quando eu confirmei que em um site chamado Vatican News eles publicaram um texto agressivo em português, cheio de imprecisões e erros de redação.

A comunicação dessa página não pode ser considerada oficial, mas, de fato, é um site dependente da Secretaria de Comunicação do Vaticano. Durante a leitura, não pude deixar de ficar espantado. Obviamente, um redator desse site, sabe Deus com que intenção ou a pedido de quem, queria causar um rebuliço e conseguiu.

Quando eu pude reclamar com os superiores, a nota foi removida do site e substituída por uma adequada (https://www.vaticannews.va/…/precisacao-sobre-caso-grabois-…), mas o dano já estava feito. Infelizmente, a mídia que disseminou a suposta negação do Vaticano ao paroxismo não reproduziu a nova nota com a informação correta. Será que vivemos na era pós-verdade.

Nunca revelei o conteúdo de um encontro com o Papa Francisco porque sou leal, o respeito e admiro muito. Além disso, sei que o seu apoio aos movimentos sociais e aos pobres lhe traz mais de uma dor de cabeça. Como você sabe, ele também sofre o ataque sistemático dos fariseus e herodianos de nossos tempos. No entanto, tendo em conta as circunstâncias, sinto-me obrigado a dizer-lhe como foram as coisas.

Em meados de maio estive no Vaticano para visitar Francisco, que me honra com uma amizade que não mereço, ama a Grande Pátria e – como ele próprio indicou – está preocupado com a situação atual. Como você sabe, isto é muito claro e frontal, ele não precisa de porta-vozes e nunca pretendi ser um. Sofro muito quando a mídia me coloca nesse lugar. Eu apenas tento ajudar no diálogo com os movimentos sociais, algo que tenho feito desde que nos conhecemos em Buenos Aires, há mais de dez anos, lutando por uma sociedade sem escravos ou excluídos. Atualmente, colaboro com el Dicasterio para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, presidido pelo Cardeal Peter Turkson, com quem organizamos os três Encontros Mundiais de Movimentos Populares e outras atividades para promover o acesso à terra, ao teto e ao trabalho como direitos essenciais.

Naqueles dias de maio, meus amigos dos movimentos populares no Brasil me ofereceram a possibilidade de visitar-te. Fiquei muito feliz porque admiro o que você fez como presidente dos mais pobres e tenho certeza de que você é objeto de perseguição política, assim como Nelson Mandela e muitos outros líderes políticos da história recente.

Aproveitei, então, a visita ao Vaticano para conversar com o Papa sobre a situação e pedir-lhe um rosário abençoado para levá-lo. Assim foi. É incrível que um gesto tão simples de solidariedade e proximidade do Papa, um objeto que serve para orar, gere tantos problemas, mas não é a primeira vez e o Vatican News é responsável por ter permitido que uma nota inadequada e não profissional fosse publicada. Seu responsável me pediu perdão e eu o perdoo porque todos nós podemos cometer erros. Mas também sei que um dano sério foi cometido.
Também quero esclarecer que, quando me proibiram de vê-lo, pedi a teus colaboradores que lhe levem o Rosário, esclarecendo expressamente que vinha do Papa com sua bênção. Por esse motivo, o que eles afirmaram na sua conta do Facebook – injustamente denunciada por fakenews e ameaçado de censura – é exatamente o que eu disse a eles: a verdade.

Entrego esta carta aos teus colaboradores com a expressa autorização para publicá-la se ela servir para mitigar o dano causado, embora eu tema que aqueles que odeiam esse trabalhador que tirou 40 milhões de excluídos da fome e pôs de pé a América Latina diante dos poderes globais não vão dizer a verdade.

Te peço perdão pelo que aconteceu e te deixo um abraço fraterno, latino-americano e solidário;

Rezo pela tua liberdade, pelo teu povo e nossa Pátria Grande;

Juan Grabois

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