17 de mai de 2018

Volta dos militares à política abre as feridas do passado


A memória histórica sobre a ditadura militar continua sendo contestada, mas o embate brasileiro é totalmente singular: somos a única nação sul-americana onde os regimes autoritários da segunda metade do século passado continuam sendo tema quente de campanha eleitoral.

Há dois motivos para isso.

O primeiro é que a sociedade ainda desconhece detalhes importantes daquilo que aconteceu. A ferida segue aberta porque tanto as forças que ocupavam o poder quanto seus opositores na luta armada esconderam os aspectos mais nefastos de sua atuação. Diante da limitação de informações e de documentos brasileiros, ficamos à mercê de evidência empírica estrangeira para contar a história mais completa.

O segundo motivo pelo qual a memória da ditadura permanece sob disputa é que, agora, os militares estão de volta na política. Seja na intervenção federal no Rio de Janeiro, seja em candidaturas para o Legislativo e para o Executivo, a corporação militar entrou mais uma vez no jogo.

Desta vez, tudo corre sob as regras da democracia, mas há um choque ferrenho.

Por um lado, os candidatos militares contam com espaço fértil para crescer porque a deterioração desses 30 anos de Nova República tem levado muitos eleitores —inclusive jovens— a olhar com saudosismo para um passado imaginado.

Por outro, setores amplos da sociedade se lembram de um passado cheio de incompetência, desordem e corrupção, além da prática corriqueira de tortura, assassinatos e execuções sumárias.

O resultado disso é que um memorando redigido há 44 anos pela CIA sobre o papel do Palácio do Planalto no assassinato de prisioneiros políticos ocupa as páginas dos jornais não apenas porque joga luz sobre aspectos de nossa história, mas porque esquenta o embate atual pelo voto do eleitor.

E aqui há um dado importante do qual pouco se fala. As Forças Armadas de 2018 estão longe de ser um bloco onde reine o pensamento único.

Para mim, a experiência pessoal mais rica da última semana tem sido o depoimento de militares da ativa que fizeram contato depois de ler o documento para dizer que, finalmente, depois de tantos anos, o Brasil tem condições de olhar para seu passado de cabeça erguida. Essa turma não reza pela cartilha do Clube Militar.

Os candidatos militares têm todo o direito de sair à busca de cargos eletivos. Mas seu movimento terá custos.

Quanto mais adentrarem a arena eleitoral, maior será o escrutínio que atrairão para o presente e para o passado da corporação. Mais difícil será jogar a sujeira para debaixo do tapete. Mais impossível será impedir que a sociedade questione.

Matias Spektor, Ensina relações internacionais na FGV. Trabalhou para a ONU antes de completar o doutorado em Oxford.
No fAlha

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