27 de mai de 2018

Uma crise local ou global


Ao analisar a greve dos caminhoneiros a imprensa está colocando o foco ora nas consequencias econômicas de curto prazo (desabastecimento, especulação, horas de trabalho perdidas, produção e distribuição de mercadorias comprometidas, colapso da produção de frangos, etc…) ou nos efeitos políticos da repressão militar ao movimento. Parente deve ou não ser demitido? Michel Temer irá ou não cair? A Petrobras deve ser pública ou privada? O monopólio do petróleo deve ou não ser restaurado?

O Brasil não é um país isolado. Gostemos ou não nosso país não deixará de fazer parte de um contexto maior. O século XIX foi da Inglaterra. O século XX foi disputado pelas duas superpotências nucleares: EUA e a URSS. Tudo indica que o século XXI será da China. Os chineses certamente trabalham com essa perspectiva: https://www.youtube.com/watch?v=5qmX4ccIfR0&feature=youtu.be e https://www.youtube.com/watch?v=DosxS4Iofek&feature=youtu.be.

Nosso país exporta uma quantidade imensa de alimentos para a China. A estabilidade do regime comunocapitalista chinês depende de 1,4 bilhão de pessoas serem abastecidas regularmente de gêneros alimentícios. Se ocorrer uma interrupção no fluxo de alimentos brasileiros (o que já deve estar ocorrendo), a China terá que encontrar fontes alternativas em outros países. Isso acarretará duas coisas: um encarecimento dos alimentos em escala planetária e uma queda abrupta dos preços dos alimentos no Brasil.

A capacidade de estoque do país é limitada. Portanto, a manutenção dos preços poderá acarretar a destruição de milhares de toneladas de alimentos que seriam exportadas com lucro. A greve dos caminhoneiros causará não só desabastecimento (e inflação), mas uma abundância de produtos alimentícios incapaz de gerar divisas e arrecadação fiscal. Os produtores e exportadores de produtos rurais apoiaram o golpe de 2016. e sofrerão consequencias devastadoras em razão da crise que eles mesmos ajudaram a criar.

Michel Temer e Pedro Parente largaram os caminhoneiros na estrada para atender os interesses norte-americanos. A esquerda insiste em criminalizar ambos por exportarem petróleo cru e importarem diesel a preços elevados. Todavia, a mim parece que a estratégia de longo prazo dos EUA não é apenas lucrar com a exportação de derivados de petróleo para o Brasil. Ao desorganizar a economia rural exportadora brasileira provocando a crise em curso, os norte-americanos conseguirão provocar um dano de grande monta à estratégia de longo prazo da China.

Os ruralistas serão sacrificados no altar do Tio Sam não porque são ineficientes, mas porque a eficiência deles poderia consolidar a nova Rota da Seda e comprometer a estratégia de preservação da hegemonia norte-americana. Os concorrentes deles nos EUA irão lucrar exportando mais a um preço maior para a China. E os chineses inevitavelmente se tornarão mais dependentes dos EUA do que gostariam.

A estratégia da Rússia é se aproximar da China e da Europa. A da China é se aproximar da Europa e da Rússia. Os norte-americanos lutam para consolidar sua posição no planeta para não ficarem isolados. Portanto, para entender o que está ocorrendo precisamos ficar com um olho no Brasil e os dois outros na China, na Rússia e EUA. Os ruralistas acreditaram que poderiam lucrar derrubando o PT com ajuda da Embaixada dos EUA. Mas os planos dos EUA para o Brasil não incluem necessariamente a preservação do agronegócio brasileiro.

Fábio de Oliveira Ribeiro
No GGN

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