30 de mai de 2018

Um governo fora dos trilhos


A paralisação dos caminhoneiros chega hoje ao décimo dia. O movimento tem futuro incerto, mas já conseguiu o que parecia impossível: enfraqueceu ainda mais o governo de Michel Temer.

O Planalto ficou de joelhos. Entregou tudo o que os grevistas pediram e não conseguiu mandá-los de volta ao trabalho. O combustível começou a voltar aos postos, mas a situação ainda está muito longe da normalidade.

Ontem, quem circulou no Rio e em São Paulo voltou a se deparar com ruas vazias. Ainda faltam mercadorias nas bancas de feira e prateleiras de supermercado. Em ao menos três estados, os hospitais suspenderam parte das cirurgias.

A Polícia Rodoviária Federal fez um jogo de palavras para maquiar seu balanço das estradas. Deixou de falar em “bloqueios” e passou a contabilizar “pontos de concentração” de caminhoneiros. À noite, ainda eram 616 espalhados pelo país.

O governo mostra outros sinais de desorientação. Um dia depois de admitir o aumento de impostos, o ministro da Fazenda foi obrigado a recuar. Dobrou-se à pressão do presidente da Câmara, que o chamou de “irresponsável”.

A guinada de Rodrigo Maia é um símbolo do movimento em curso no Congresso. Aliados tentam se descolar do governo para evitar o próprio naufrágio nas eleições. Os mais fiéis se escondem dos microfones, enquanto o presidente apanha nas tribunas do Senado e da Câmara.

Só Temer defende Temer. Ontem ele mostrou que continua com a autoestima em dia. Em discurso para investidores estrangeiros, o presidente indicou não ter dimensão dos efeitos da crise sobre a economia. “Atingimos este que era o nosso objetivo número um: recolocar o Brasil nos trilhos”, afirmou.

O governo descarrilou, mas o presidente acredita que ainda tem força. “Quando alguns rejeitam o diálogo e tentam parar o Brasil, nós exercemos a autoridade para preservar a ordem”, disse.

A quatro meses das eleições, a oposição discute se ainda faz sentido pedir o afastamento do presidente. Um líder partidário resolveu contar os pedidos de impeachment na gaveta de Rodrigo Maia. No momento, são 27.

Bernardo Mello Franco

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