28 de mai de 2018

Sem condições de governar, por que Temer não renuncia de uma vez?

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/05/28/sem-condicoes-de-governar-por-que-temer-nao-renuncia-de-uma-vez/

Pesquisa Focus do Banco Central divulgada agora há pouco já mostra as primeiras consequências da paralisação dos caminhoneiros na economia do país desgovernado:
  • Na quarta semana de queda, a projeção do crescimento do PIB para este ano cai de 2,5% para 2,37%
  • Juros deverão subir para 8% no final do ano
  • Dólar sobe 10% em relação à semana anterior e deverá terminar o ano em R$3,80
  • Governo anuncia corte de mais R$ 3,8 bilhões no orçamento para cumprir acordo com caminhoneiros.
  • E a greve ainda não acabou.
* * *

Li e reli todo o noticiário desta segunda-feira nos jornais e nos portais e confesso que já nem sei mais o que escrever sobre o que está acontecendo no nosso país.

É nestas horas perdidas que sempre acaba aparecendo uma luz, nem que seja apenas uma simples frase.

Quem me mandou foi o leitor Heraldo Campos e está publicada na área de comentários:

“O que efetivamente conta não são as coisas que nos acontecem. Mas, sobretudo, a nossa reação frente a elas”.

Em poucas e sábias palavras, quem disse isso foi o meu velho e bom amigo Leonardo Boff, um teólogo da vida.

Liguei logo a lição do mestre à cena patética do presidente de joelhos na televisão, rendido aos caminhoneiros, altas horas da noite de domingo.

Por mais raiva que todos possam ter dele, por sua absoluta incapacidade de continuar governando o país, fiquei com pena deste senhor acuado, septuagenário como eu, completamente perdido, passando vergonha na frente de todos, e procurei me colocar no lugar dele.

O que pode levar alguém a chegar a este ponto de humilhação, sem ter mais condições de reagir, só para continuar no poder?

Ninguém mais presta atenção no que ele fala, não acredita no que diz, e isso não tem volta.

Michel Miguel Elias Temer Lulia tem 77 anos, mulher nova e bonita, filho pequeno, nunca passou de deputado inexpressivo, articulador de bastidores, eleito com votações mínimas, que por circunstâncias várias virou dono do MDB e por vias transversas se tornou improvável presidente.

Já está com a vida ganha. Não seria melhor para ele e para nós todos que fosse cuidar da família e deixasse o país em paz?

As reações dele frente ao movimento dos caminhoneiros, que há uma semana paralisa o país, foram as piores possíveis e deram provas sucessivas de que perdeu o controle do governo.

Na véspera, antes de jogar a toalha na televisão, tinha convocado as Forças Armadas para dar um jeito no caos instalado, e nem isso resolveu.

Os militares simplesmente se recusaram a partir para o confronto diante dos manifestantes desarmados.

Agora, nada mais lhe resta a fazer.

E ainda faltam sete longos meses para o final do seu mandato.

Se não tem como consertar o passado, ao menos poderia nos fazer a gentileza de desocupar a moita para deixar o país cuidar do seu futuro, antecipando as eleições gerais.

O que não dá é para continuarmos vivendo nesta instabilidade permanente sem poder planejar o amanhã, reféns nas nossas próprias casas, de olho na internet, à espera da próxima crise.

Não precisava terminar assim.

O pior é que não temos mais governo nem oposição, o Judiciário assumiu os poderes do Congresso, e não há nenhuma saída pacífica à vista no horizonte, na ausência de lideranças e interlocutores confiáveis em busca de uma solução.

A paralisação dos caminhões pode até acabar nas próximas horas, mas já está marcada outra, desta vez dos petroleiros, e depois o que virá?

Num cenário de perda de emprego e renda, os preços dos alimentos e outros produtos de primeira necessidade já dispararam, investimentos foram adiados ou cancelados, o clima de insegurança é crescente nos mercados e nas ruas.

Por que Michel Temer não renuncia de uma vez. O que falta ainda?

Só pode ser porque não há nada para colocar no lugar.

Vida que segue, do jeito que dá.

Ricardo Kotscho

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.