28 de mai de 2018

Qualquer movimento que se dobre a um pedido sobre intervenção militar se desmoraliza


Essa greve representa um Brasil aos pedaços. A princípio muito parecida com a greve que antecedeu e apoiou o impeachment de Dilma Roussef, os caminhoneiros voltaram a bloquear às estradas para desafiar o presidente ilegítimo que ajudaram a colocar no poder. Misturados estão os empresários de transportadoras e movimentos de ultradireita, como ‘vai prá rua’ e ‘mbl’, que são cobrados por seus seguidores em suas redes sociais, por não apoiarem clara e prontamente a manifestação dos caminhoneiros.

Manifestações do candidatos à esquerda e a greve anunciada dos petroleiros parece dar a entender que a greve tem um objetivo mais amplo. Globo, folha, estado continuam seu trabalho de gastar muita saliva para dar a entender que o Brasil está sendo invadido por marcianos. E a grande maioria da população está interessadíssima apenas em quando a greve vai acabar e quando será possível voltar aos postos de gasolina sem fila. Afinal o feriado vem aí.

O roteiro é conhecido: uma mobilização politicamente ambígua que se coloca refém de agenciamentos de todo tipo, porque não se manifesta claramente a respeito de seus objetivos nacionais de médios e longo prazos.

Queriam parar o país? Porque? Para que? Para quem?

Um fenômeno de impacto nacional ocorre há sete dias, mas não há discurso coerente, nem pautas claras além da queda dos preços do diesel. Que o ilegítimo presidente já concedeu ontem.

Querem a queda de Temer? A privatização total da Petrobrás - e de tudo o que for possível -, como defende o MBL? A demissão de Pedro Parente? Privilégios fiscais para os proprietários das transportadoras? A intervenção militar?

Quais objetivos nacionais defende o movimento dos caminhoneiros?

Uma coisa é certa, quando movimentos se deixam capturar por grupelhos que defendem a intervenção militar eles abandonam suas pautas originais, mesmo as mais imediatas, e passam a envergonhar todo a história dos movimentos dos trabalhadores barbaramente atacados pelas forças que apoiaram o golpe militar de 1964, e todos os que lutaram e resistiram depois nas fábricas e nas escolas e nas ruas contra os sequestros, as perseguições as torturas e os assassinatos cometidos pelo regime militar contra trabalhadores em todo o país.

Se esse movimento, ou qualquer outro, não souber como rechaçar esses grupos atrasados e oportunistas, endereçando claramente seu movimento rumo à institucionalidade democrática, sua força será sua fraqueza e sua motivação será vista como um ataque frontal aos trabalhadores que supõem defender e à toda história de lutas, sacrifícios e vitórias que um dia conquistaram através da Consolidação das leis do trabalho, da Constituição de 1988 e dos direitos previdenciários às trabalhadoras e trabalhadores brasileiros. Todos sob ataque e sem tréguas pelo atual governo.

Se as lideranças do movimento são populares e autônomas, elas devem se manifestar com maior clareza, porque muitos querem cooptar suas motivações e denegrir suas estratégias descontextualizando-a do movimento e da história das lutas dos trabalhadores brasileiros. Permitir isso é deixar um potente movimento como esse ao léu e à deriva. Não basta paralisar e cruzar os braços é preciso conferir um sentido à essa desobediência que contribua para o esclarecimento da sociedade em geral e dos trabalhadores de transporte em particular. É necessário confessar em alto e bom som quais são suas intenções políticas, esclarecendo a todos os que são afetados ao que o movimento se dirige e permitindo o apoio ou não dos que se reconhecem em suas causas.

De todo modo é sempre bom lembrar que num regime militar uma greve de caminhoneiros sequer seria pensável, porque seus supostos líderes já estariam presos, perseguidos, desempregados enquanto outros, provavelmente, estariam sendo torturados e mortos pelos militares que, em geral, não simpatizam muito com movimentos de oposição.

Paulo Endo
No GGN

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