6 de mai de 2018

Protegidos e premiados

O punhado de doleiros cuja prisão começou, a pretexto de que foram apontados por dois outros do ramo, prejudica por pouco tempo uma das farsas mais significativas na vida econômica verdadeira e na associação do poder governamental ao poder privado.

Esses personagens agora “descobertos” são velhos conhecidos em São Paulo, no Rio, em Brasília, onde têm assegurada a atividade que tanto lhes dá fortuna, como prestígio nos círculos endinheirados e um papel relevante nas ilegalidades da engrenagem empresarial.

O noticiário cita bilhões variados nas remessas para o exterior pelos doleiros. São bilhões e altos, sim. Na ideia mais difundida, é dinheiro de negociatas e de ganhos não declarados de empresários. Em parte é isso mesmo. Assim são feitas, por exemplo, muitas das compras de imóveis em Miami, Nova York, Paris, agora em Portugal.

Também as reservas de milhões de dólares feitas por pessoas ricas na Europa e na América Central, como recentes revelações suíças atestaram ao Ministério Público brasileiro. E, ainda, grandes aplicações em Bolsas estrangeiras.

Só nessa evasão já se acumulam perdas muito altas para o Brasil. Suas estimativas são todas inconfiáveis porque, sendo operações clandestinas, as próprias bases de cálculo são palpiteiras. Há, porém, outra modalidade de evasão clandestina, ainda mais grave. É a de remessa de lucros, por incontáveis multinacionais, além do remetido em conformidade com a legislação.

Estudos a respeito nos anos 1960, antes e depois do golpe, dissecando e confrontando balanços anuais e outros documentos de múltis, chegaram a constatações alarmantes. Os primeiros desses estudos foram suficientes para inspirar o projeto de Lei de Remessa de Lucros, que acirrou a acusação interna de comunismo e o interesse americano na derrubada do governo. De lá até aqui, não houve um só motivo para que o uso do procedimento clandestino fosse abandonado.

Mas dessas perdas montanhosas os economistas e comentaristas neoliberais nunca falam: quase todos têm ligação com atividades financeiras e suas formas de lucratividade.

É a mesma corrente de economistas da qual sai a maior parte de cada diretoria do Banco Central, o encarregado de fiscalizar e defender a eficiência e a legitimidade do sistema monetário e financeiro nacional. Não é por falta de informação que o BC fecha olhos e boca à atividade que promove a sonegação de impostos e a fuga ilegal de riqueza, à qual caberiam funções básicas no país.

Se a Polícia Federal insistir que as prisões de doleiros tornaram-se possíveis por delações bem premiadas, em seguida deveria fechar suas portas. A atividade dos doleiros e os próprios são de conhecimento público, desde que existem. Do contrário, não existiriam até chegar à importância que têm para tantos, ricos e empresas.

Além disso, os doleiros presos pela PF para a Lava Jato já estiveram presos pela mesma polícia. Há caso, inclusive, de ordem de prisão pelo mesmo juiz, Sergio Moro. Para serem logo soltos, todos, e voltarem à sua especialidade, apesar do compromisso de não o fazerem, sob pena de perda do “prêmio”. Mas Sergio Moro, Rodrigo Janot e o STF relevaram a fraqueza transgressora, concedendo novo “prêmio”.

A permissividade é a regra do Banco Central, da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e do alto Judiciário para a atividade dos doleiros. Por quê? Pense em quem são os clientes dos doleiros.

Dinheiro é poder.

Janio de Freitas
No fAlha

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