17 de mai de 2018

Pressão sobre o PT para apoiar Ciro agora não é ilegítima, mas é afoita e equivocada

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Se o PT levar Lula ou outro candidato seu ao segundo turno, vai precisar de Ciro. Sem o PT, dificilmente Ciro ganha a eleição. E se ganhar não governa ou governa pela direita


Política se faz com cérebro e nervos de aço, não com o fígado e o coração. A afirmação não agrada a muitos que acham que isso leva a um certo pragmatismo. Que esse racionalismo dilacera sonhos. Mas em geral é assim que funciona.

Políticos que estão expostos ao sol há muito tempo são pessoas preparadas até pra temperar suas reações com doses de emoção. Mas sabem que as coisas a valer se resolvem com muita conversa e paciência.

Que o tempo decanta as decisões e que a pressão pode levar possíveis aliados a se tornarem adversários irascíveis.

O PSDB sofreu disso nos últimos tempos. O texto publicado no O Estado por Mauro Chaves, cujo título era “Pó parar, governador” fez com que Aécio desistisse de ser candidato a presidente da República em 2010, mas o tornou inimigo de Serra, de quem já era desafeto. Naquele ano, Dilma fez barba, cabelo e bigode em Minas.

Agora em 2018, dois anos após o golpe que tirou Dilma do governo e há pouco mais de 30 dias da injusta prisão de Lula, cresce um movimento pra que o PT declare o quanto antes o apoio a Ciro Gomes. Este movimento é legítimo, mas equivocado.

Essencialmente por dois aspectos que vou tentar costurar aqui.

O primeiro, o PT está sendo sacrificado em praça pública na maior perseguição política recente. E sabidamente pelo que representa como organização progressista com fortes laços com o movimento social e capacidade de implementar uma agenda popular no Brasil.

Por conta disso é que Lula está preso e não pelo apê que o sócio do genro do Alckmim comprou no Guarujá pelo dobro do valor real.

Ou seja, o PT tem obrigação de se defender e de defender a maior liderança viva do campo progressista da América Latina. E pra fazê-lo conta com o apoio do povo que quer em sua ampla maioria Lula presidente da República mesmo ele estando preso.

Não há nada mais desmoralizante para o golpe e os golpistas do que Lula se manter vencendo todos os outros candidatos no segundo turno. Alguns com mais de 80% dos votos válidos, como no caso do golpista Michel Temer.

E a manutenção da sua candidatura permite essa clivagem. E gera fatos concretos para essa denúncia mundo afora.

E além disso embaralha a sucessão também para o lado de lá, que fica sem saber o que fazer.

O segundo argumento tem a ver com uma questão tática. O golpe tem dilacerado todos que são apresentados como alternativa à Lula. Se porventura o PT decidir apoiar Ciro Gomes, amanhã, a PF e o MP vão para cima do seu irmão Cid e de todos os seus possíveis aliados para destruí-los. E garanto, mesmo com toda a pompa de nordestino porreta e bom de briga, Ciro não resistirá a duas semanas de ataque. E digo isso porque por algumas bobagens ditas numa entrevista à Veja, ele já foi demolido por Serra em 2002.

Ciro é um grande quadro político, mas não é nem de longe um Lula, que consegue se manter vivo politicamente mesmo depois de intenso massacre.

Ou seja, se for para o PT decidir apoiar Ciro é um erro que seja agora.

A impressão deste blogueiro é que se esta eleição for minimamente justa, a direita ou um candidato vinculado ao golpe não leva. E digo isso com ou sem Lula na disputa. Os dados que se podem extrair das atuais intenções de voto mostram dois campos com grandes chances de vitória. O da centro esquerda e o do que vou chamar de “outsiders”. Neste, Huck era um candidato forte, Joaquim idem. Marina poderia ser, mas não se tornou. Fora eles, o que ainda pode dar algum trabalho se se apresentar nesta linha é Álvaro Dias. Mas a operação pra que consiga isso é muito complexa.

No espectro da extrema direita, Bolsonaro vai se apresentar com essa marca do anti-política, mas tem teto.

Na centro-direita, Alckmin e Meirelles são candidatos muito pesados. E mesmo João Doria que ainda pode se viabilizar está marcado pela péssima gestão que fez à frente da prefeitura de SP.

Ou seja, mesmo se Lula não puder ser candidato, as chances da centro-esquerda levar ou Ciro ou um outro candidato para o segundo turno são imensas. E se for, tem tudo pra vencer.

Ou seja, não é hora de atiçar o formigueiro e se indispor com a militância do PT tentando criar uma condição de ou é Ciro ou nada. Porque isso só gera revolta e ressentimento. E pode ser um entrave a um acordo futuro que envolva todo o campo progressista numa grande aliança.

Ciro não deve ser atacado como um “coronel do sertão” (aliás, amigos, melhorem, essa expressão é altamente preconceituosa com nossos irmãos nordestinos) e nem como alguém de direita. Ele não é nem uma coisa nem outra. Ele tem ideias diferentes do PT, mas há décadas faz política no campo da centro-esquerda.

Se o PT levar Lula ou outro candidato seu ao segundo turno, vai precisar de Ciro. Sem o PT, dificilmente Ciro ganha a eleição. E se ganhar não governa ou governa pela direita.

Ou seja, é hora de conversar, de baixar a bola, de buscar ouvir as razões do outro, de ter paciência e de pensar no que é melhor pra tirar Lula da cadeia e libertar a democracia do sequestro que lhe impuseram. É hora de fazer política como se estivéssemos bebendo a água de uma piscina com canudinho. Sem pressa e ansiedade. E sabendo que por mais água que a gente puxe ela não vai terminar amanhã.

Um comentário:

  1. Parece-me que uma eventual eleição de Lula não o retira da prisão, então quem governará será seu vice (que a Força nos proteja dos vices traidores). Ciro ou Requião seriam excelentes vices para Lula, sendo o segundo bem mais confiável do que o primeiro.

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