20 de mai de 2018

Porque é Pentecostes!

O efeito mais nefasto do golpe político, econômico e social que se perpetrou contra a sociedade no Brasil é a disseminação do ódio e a quebra da fração de consenso que oferecia estabilidade minimamente sustentável às instituições. Viramos uma grande Babel. Ninguém se entende e nem quer se entender.

No meio dessa confusão adredemente instalada entre nós, a esperteza política alimenta o fascismo nas mentes de poucas luzes. Trata-se da manipulação das fobias coletivas, do medo em cada um pela perda do emprego, pelo colapso de seu status social, pelo fim da barbada do consumo, pela volta dos dias de carestia na vida cotidiana.

Com impulso fascista, esses pavores são estimulados e direcionados para criar efeito manada contra os que forem eleitos pelos espertos para serem inimigos públicos. Podem ser judeus, podem ser Tutsis, podem ser islâmicos… e podem ser petistas!

Fascistas pensam com o fígado. Esquecem o bestunto em casa. Mas há quem procure ter seus cérebros nas mãos e orientá-los a seus objetivos estratégicos, de regra contrários aos interesses nacionais, às mais comezinhas necessidades da massa de brasileiras e brasileiros. Por isso, seguindo seus impulsos de bronca e preconceitos, fascistas manipulados atiram no próprio pé.

É só perguntar a alemães que passaram pela experiência do nazi-fascismo o que acharam do resultado. A maioria gritava “Sieg, Heil!” E, depois, só lhes sobrou morte e a tapera daquilo que foram suas imponentes cidades. A duras penas e com muito sofrimento, tiveram que reconstruir o consenso social para se reerguerem como nação.

A bronca contra o PT e contra qualquer projeto de esquerda tem essa mesma natureza autodestrutiva. Não é preciso de muita inteligência para constatar o que fomos e o que hoje somos. Vivemos nos escombros daquilo que foi um promissor processo de evolução social. Retrocedemos décadas em nossa cultura política e democrática.

Como zumbis de cidadãos e cidadãs, muitos e muitas de nós acham bonito debochar de conquistas civilizatórias como a tolerância, o convívio pacífico entre diferentes, o respeito pelo que de nós diverge, o cultivo da diversidade e a solidariedade para com os mais vulneráveis. Desdenham desses valores como se fossem “coisa de perdedor”, “coisa de fraco”. Expressam seu ódio pela “ideologia de gênero”, pelos direitos humanos, pela educação da consciência histórica de nossos filhos, por tudo aqui que desqualificam de “politicamente correto”.

É a volta à lei da selva, à lei do mais forte, que esquálidos periféricos querem impor entre si, como se poderosos imperialistas fossem.

Que ilusão! Quem ri nos seus punhozinhos são os verdadeiros imperialistas que os fazem de bobos. Disseminaram a discórdia sob o falso fundamento do combate à corrupção que secularmente incutiram nas nossas elites e esticaram seus dedos duros para os atores de uma política nacional de autoafirmação.

Nesse domingo de Pentecostes, precisamos urgentemente que as flâmulas do Espírito Santo iluminem nossa manada fascistizada em seus trevosos intelectos, para que compreendam como estão sendo manipulados contra sua felicidade e contra seu próprio futuro. Que passam a saber quem é seu verdadeiro inimigo, quem se aproveita de sua incapacidade de discernir entre o que é para seu bem e o que é para seu mal.

Eis que os espertos que manipulam fascistas tupiniquins não pensam com o fígado que nem eles. Não têm ódio. São pragmáticos e usam sua inteligência tenebrosa para nos destruírem. Apropriaram-se de nossas instituições, reforçando-lhes a praga corporativista.

Disseminaram entre seus atores empoderados o consumismo desenfreado, para fazer com que almejassem se juntar aos endinheirados. Incutiram a mania de grandeza cosmopolita em burocratas das carreiras de estado, para que se achassem parte de uma elite globalizada. E, para barrarem os que pudessem fazer a diferença, inocularam o medo da perda de status nesses tiranetes da persecução penal.

Assim construíram, com estímulo à ganância, à soberba, à ambição desmedida, uma esquadra contra a democracia e seus valores. Tornaram todos nós reféns eventuais dessas forças da desagregação.

Carecemos de muita luz para voltarmos a crescer, para adquirirmos disposição de colocar os burocratas soberbos de volta em seu leito institucional democrático. Consciência histórica, porém, não cai do céu. Vem da experiência de luta, de resistência política contra o atraso. É preciso despejar preconceitos e reforçar a clareza sobre nosso destino.

Só assim reconstruiremos o consenso necessário para defesa do que é nosso. E isso começa com a exigência de eleições livres, sem permitir a quem quer que seja que faça opções por nós, excluindo este ou aquele candidato que a letra fria da lei permite seja registrado e escolhido. É preciso dizer não às trevosas forças do esgarçamento do consenso democrático.

Que o domingo de Pentecostes nos inspire!

Eugênio Aragão

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