13 de mai de 2018

Os fakenews de Pérsio Arida com o câmbio


Há que de diferenciar o intelectual do propagandista.

Mesmo tendo lado, o intelectual busca a verdade dos fatos; já o propagandista procura os fatos que se adequam à sua verdade.

Há tempos a discussão econômica nacional é dominada pelos propagandistas que, valendo-se do baixo nível de informação passado pela mídia, tratam as discussões

É o caso de Pérsio Arida que, assim como a maioria absoluta dos economistas do Real, tornou-se um propagandista do mercado. E foi designado pelo mercado para ser o avalista da candidatura de Geraldo Alckmin. E foi assim que ele se comportou na palestra ministrada à Câmara de Comércio França-Brasil.

Suas críticas maiores foram em relação à proposta de Nelson Marconi – economista do candidato Ciro Gomes – de fixar um câmbio competitivo, entre R$ 3,80 a R$ 4,00, como forma de estimular a indústria nacional.

Disse ele:
  1. “Tenho visto vários candidatos defendendo ideias sobre o câmbio, como fixar o câmbio entre R$ 3,80 e R$ 4 para estimular a competitividade, isso não faz sentido".
Para entender o significado do câmbio no preço dos produtos, confira a tabela abaixo:
  • Um produto que tem 80% de insumos em reais e 20% em dólares, com margem de 20%. Com o dólar a R$ 3,20, o preço final é de US$ 615,00.
  • Se o dólar vai a R$ 4,00, a empresa terá duas alternativas. Se quiser manter a mesma rentabilidade, poderá reduzir o preço em 12,2%; se tiver condições de manter o mesmo preço em dólares, a rentabilidade saltará de 20% para 37%. Como não faz sentido?

2. O governo só consegue fixar o câmbio nominal, jamais o real.

A ideia da desvalorização cambial é aumentar o valor dos preços em dólares em relação aos preços em reais. O que Pérsio quis dizer é que, aumentando os preços dos produtos dolarizados, haverá inflação dos não-dolarizados voltando ao quadro anterior. É falso.

A desvalorização da moeda tem impacto direto sobre produtos exportados e importados (chamados de comercializáveis), que representam apenas um percentual de todos os preços. Depois, há uma onda de reajustes compensatórios dos não-comercializáveis, que nunca são em nível similar aos dos comercializáveis. Não sendo convalidados pela política monetária, os aumento tendem a perder fôlego e se diluir com o tempo. Haverá uma reacomodação dos preços em outro patamar. Em inúmeros momentos da história, desvalorizações cambiais resolveram questão de produtividade e de equilíbrio nas contas externas. 1982, 1999, 2008 estão aí para comprovar.
  1. O primeiro efeito de uma medida como essa seria frear o investimento estrangeiro no país.
É falso. O que freia investimento estrangeiro é a apreciação cambial, que cria vulnerabilidades nas contas externas pela perda de dinamismo da produção interna em relação aos importados. Está aí a Argentina escancarando essa imprudência.

A desvalorização do real tornará mais barato todos os ativos nacionais, e mais competitivos os produtos produzidos. Só no reino de Pérsio um ativo mais barato é desestimulante para o investidor.

Confira:

Imagine um investimento de R$ 100 milhões que gere exportações de US$ 3,125 milhões.
  1. Com o dólar a R$ 3,20, o investidor estrangeiro investirá US$ 31.250.000 e terá uma receita de exportações de US$ 3.125.000, ou 10% ao ano.
  2. Se o dólar vai para R$ 4,00, o valor do investimento cai para US$ 25 milhões, ou 20% a menos. Se forem mantidos os mesmos US$ 3.125.000 de exportações, corresponderão a 12,5%, ou 25% a mais de faturamento. Com a desvalorização, no entanto, a tendência é de aumentar as exportações.
Pergunto: como afirmar que desvalorização do real freará o investimento externo, se tornará a produção interna mais barata e mais competitiva?


  1. Haverá movimento especulativo contra a meta toda vez que ela estiver fora do mercado.
Outro sofisma. O mercado regula o câmbio através da oferta e demanda. Em um quadro de normalidade monetária, com as taxas internas de juros similares às taxas internacionais, o câmbio deverá refletir a competitividade da economia brasileira em relação à dos competidores internacionais. E a tendência seria a desvalorização do real. O que Pérsio chama de equilíbrio de mercado é um enorme fluxo financeiro que não vem para investimentos produtivos, mas para ganhar com as altas taxas de juros

Há dois caminhos simples para conter a especulação: ou taxas internas similares às internacionais, ou impostos sobre a entrada de capital de curto prazo. São instrumentos mais do que conhecidos das politicas econômicas.
  1. O Brasil já fez diversas tentativas nesse sentido, com o câmbio fixo, minibandas e intervenções cambiais maciças por meio de swaps, como feito no governo de Dilma Rousseff (PT). O único efeito foi retardar [a desvalorização] e causar prejuízo nas finanças públicas.
Todas essas medidas visaram justamente manter o câmbio artificialmente baixo, e não o contrário.

Luís Nassif
No Agência Xeque | GGN

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