5 de mai de 2018

O que pensam os brasileiros desconectados


A maioria dos brasileiros têm acesso à internet, segundo o IBGE. E quase todos estão na rede pra fazer aquilo que a gente já sabe: usar o zap. A mesma pesquisa, divulgada no começo deste ano, relata que mais de 100 milhões de pessoas no Brasil estão fora das redes sociais.

É nelas que todo o barulho digital é feito, é por lá que os embates sobre costumes e política ganham corpo. Em ano eleitoral, quando o voto de um tuiteiro vale o mesmo que o de alguém que ignora o Twitter, vale saber: o que pensam os 100 milhões de desconectados sociais?

No último semestre, os pesquisadores Filipe Techera e Luiza Futuro foram a São Paulo, ao Rio de Janeiro, a Porto Alegre, Salvador, Belém e Cuiabá para conversar com as pessoas que decidiram ficar de fora das redes sociais. Queriam entender suas ideias sobre as próprias plataformas digitais, sobre eleições, captar seus medos e desejos sobre o Brasil. O nome do projeto, ainda inédito e que será lançado em breve: “Todo mundo quem?”

Eles descobriram que, ao contrário do que o senso comum pode indicar, esses brasileiros são bem informados, sociáveis (existe vida fora da internet, vocês deveriam saber) e têm um discurso muito menos polarizado sobre as questões do dia-a-dia. São mais ponderados.

E não são alienados: seus questionamentos estão alinhados com as discussões mais contemporâneas que rolam nas redes, mesmo que não estejam nelas. Eles também reclamam sobre a crise, mas prezam mais pelo seu direito à privacidade e não estão dispostos a passar horas por dia realizando a manutenção digital de suas imagens públicas.

Esses brasileiros vêem o tempo e as relações humanas de modo diverso. A solitude é vista como valor fundamental para o crescimento individual e para a construção da moralidade – eles fazem isso enquanto estamos tretando no Facebook. E dizem que as relações humanas são muito complexas para serem mediadas por o que enxergam como “bidimensionalidade do universo digital”. Ao menos pelo recorte ouvido pelos pesquisadores nessas cidades, políticos com ideias extremas não terão voto. Por isso a briga pelo centro político se acirra entre os candidatos.

Estar desconectado, no entanto, traz certo medo de ficarem à margem das interações sociais e de serem taxados como conservadores, apesar de muitos deles terem posições políticas progressistas. É um Brasil enorme que parece não existir, mas que está lá, à espera de outubro.

Leandro Demori
No The Intercept

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