20 de mai de 2018

O crítico

O depoimento de um crítico de gastronomia na delegacia, depois de passar no hospital para tratar a queimadura na nuca:

“O anonimato, que para tantos é um martírio, delegado, para mim é uma obrigação profissional. Sou crítico de restaurantes. Em mim o paladar e os escrúpulos se mesclam, como a carne e os legumes num bolito misto, e faço questão de não ser reconhecido nos lugares que frequento e depois recomendo ou destruo. Uso disfarces tanto para que o dono do restaurante, descobrindo minha identidade, não tente comprar uma boa cotação com favores e porções maiores quanto para que não tente revidar alguma crítica mais rigorosa derramando sopa fervendo sobre minha cabeça ou me expulsando do lugar. Minha integridade repele o suborno e meu amor-próprio refuta substâncias muito quentes na nuca. Os disfarces podem trazer inconvenientes, como a vez em que meu bigode postiço caiu numa blanquette de veau e tive que ingeri-lo, pois a alternativa seria chamar o garçom e perguntar se o chef não tinha dado falta do SEU bigode. Ou a vez em que usei um nariz feito de material inferior que começou a derreter com as emanações de uma casserole e a pingar na minha gravata, obrigando-me a simular uma crise hemorrágica e fugir do restaurante. Mas são os disfarces que me mantêm honesto e ileso. Ou me mantinham, até hoje. 

Sou criterioso e justo, e costumo voltar a restaurantes que critiquei para lhes dar uma chance de se redimirem. Foi o que fiz com certo estabelecimento que, depois de uma primeira visita, descrevera como sendo algo pretensioso, pois insistia em chamar o que servia de comida, o que de certa forma desculpava a lentidão dos garçons em trazer os pratos, já que eram obviamente movidos pela misericórdia. Deixei passar alguns meses depois da publicação da minha crítica e fui de novo ao mesmo restaurante, tendo o cuidado de moldar um queixo falso, feito de material resistente ao calor, que com os óculos escuros e as costeletas compridas certamente impediriam meu reconhecimento e atos de retribuição violenta. O restaurante estava vazio. Minhas críticas são muito lidas e têm grande influência no público, que anseia por alguém que lhes diga o que é bom e o que não é, neste mundo em que as velhas certezas agonizam, o relativismo moral invadiu a gastronomia e tem até pizza de fruta. Além da minha, à qual fui levado pelo solícito dono do restaurante em pessoa, havia apenas outra mesa ocupada. Por um homem que lia um jornal. E que, quando levantou a cabeça e me viu, exclamou:

– Meu Deus, é ele!

Tenho vários discursos prontos para o caso de ser reconhecido apesar dos meus disfarces. Eles envolvem desde uma ficção sobre irmãos gêmeos – “O crítico de restaurantes é o outro, eu não sei nem a diferença entre rocambole e ratatouille!” – até uma dissertação sobre a necessidade de parâmetros alimentares numa sociedade carente de valores claros e a importância da crítica, mesmo um pouco impiedosa, nesse sentido, enquanto me encaminho, lentamente e andando de lado, para a porta da rua e a fuga. Já tinha escolhido a história dos gêmeos quando o homem da outra mesa começou a espetar o jornal com o dedo e mostrar:

– Olha o retrato falado do bandido que estão procurando. É ele! É ele!

Dei uma risada. Eu, bandido? O retrato falado podia ser de qualquer um. Podia ser do meu irmão gêmeo. Mas eu?!

O homem da outra mesa já estava de pé. Ia chamar a polícia. Disse:

– Com essa cara, com esse queixo, você ainda nega que é bandido?

Descolei o queixo e arranquei os óculos escuros e as costeletas.

– É tudo falso. É disfarce! Está vendo? Sou um crítico de restaurantes. A minha cara verdadeira é esta! 

O homem da outra mesa piscou, abriu e fechou a boca, e se sentou. Me sentei também. Olhei em volta. O dono do restaurante tinha desaparecido. Dali a pouco reapareceu. Vinha na minha direção carregando uma panela de sopa quente. Eu não tive tempo de fugir, delegado! 

Luís Fernando Veríssimo

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