21 de mai de 2018

Maduro ganhou, mas não ganhou, entende?

Só para refrescar a memória. Agora, na Venezuela, numa eleição boicotada pela maioria da oposição e com voto facultativo , o índice de comparecimento foi de 46% e Maduro se elegeu com 28% do total de pessoas habilitadas para votar e 67% dos votos válidos. Em 2000, nos EUA, o índice de participação foi de 51% e Bush, que perdeu no voto popular para Gore, se elegeu com apenas 24% do total dos votantes registrados e 47,8% dos votos válidos. Mas todo mundo mundo achou lindo e ninguém questionou a democracia norte-americana.

Marcelo Zero

Os jornais, com enorme mau humor, noticiam a vitória de Nicolás Maduro nas eleições venezuelanas.

“Não valeu”, dizem, porque a abstenção foi de 53%, pois o voto não é obrigatório.

E que em outros pleitos a abstenção ficava na faixa de 25%, o que é verdade.

Basta uma conta simples para ver que isso tem uma razão: o fato de que os partidos de direita (o MUD, Mesa de Unidad Democratica é a coligação que os representa) pregaram a abstenção eleitoral, não participando da camapnha dos adversários de Maduro.

Logo, boa parte destes 30% a mais de ausência eleitoral são “não- votos” de oposição.

Ninguém sugere que o atual presidente venezuelano tenha os mais de dois terços de apoio que teve entre os votantes.

Em julho do ano passado, num referendo convocado pela oposição antichavista e boicotado pelo Governo – situação exatamente ao inverso da eleição de ontem – os jornais saudaram o comparecimento de 7,2 milhões de eleitores  como uma “participação em massa”.

Ontem, o comparecimento de perto de 9 milhões de eleitores – dos quais Maturo teve mais de 5,8 milhões de votos, ou 67%) – é tratado como se fosse um fracasso, com uma ausência da maioria.

Repare que, dependendo das preferências políticas, 7,2 milhões de pessoas são “em massa”, mas 9 milhões são “uma eleição deserta”.

Nas eleições passadas nos EUA, o comparecimento foi de 46,6%. Na França, abaixo de 50%. Na média dos Estados Unidos, Canadá e Eupropa Ocidental, anda pelos 60%, segundo dados do International Institute for Democracy and Electoral Assistance, citados pelo Nexo Jornal.

Não é uma questão aritmética, portanto, legitimar ou deslegitimar as eleições venezuelanas. Elas e seu resultado são, sim, um fato político.

A Venezuela é o triste retrato do que se passa em um país partido ao meio, sabotado, desestabilizado e onde se recusa o diálogo entre as forças políticas.

O Jornal Nacional, no sábado, argumentou  que “com líderes de oposição presos e candidaturas cassadas, fica difícil confiar nas urnas”.

É verdade, embora este mesmo conceito pudesse ser aplicado aqui, com sinais trocados, não é?

E nenhum órgão de imprensa diz que é ilegítimo termos um governo com menos de 5% de respaldo popular, embora tenham sustentado todo o tempo que pouco importavam as esquecidas pedaladas, a derrubada do governo de Dilma se justificasse por ter apenas 10% de popularidade.

O fato político concreto é que Nicolás Maduro, nas piores condições possíveis, agrega a vontade de seis milhões de eleitores venezuelanos. É provável que a oposição ande por aí ou até pouco mais, embora não consiga reunir-se em torno de uma liderança e dela disse a insuspeita BBC: ” Antes y durante la campaña se ha mostrado nuevamente dividida y sin líder”.

É preciso um governo de diálogo naquele país e, reconheça-se, foi este o primeiro apelo de Maduro após as urnas.

Mas Estados Unidos, parte da Europa e a leva de governos conservadores da América Latina seguem apostando na divisão e na demolição da Venezuela.

Não há vitória possível sobre os emcombros de um país. Para ninguém.

Fernando Brito
No Tijolaço

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