22 de mai de 2018

Jornalismo brasileiro perde Alberto Dines, mestre crítico e sonhador

https://www.balaiodokotscho.com.br/2018/05/22/jornalismo-brasileiro-perde-alberto-dines-mestre-critico-e-sonhador/

“Uma geração sem reposição” (jornalista Elizabeth Lorenzetti sobre a morte de Alberto Dines).

* * *


Acordei nesta terça-feira com uma notícia muito triste, não só para os jornalistas, mas para todos os leitores: perdemos Alberto Dines, um dos grandes mestres da minha geração, que passou a vida tentando melhorar a imprensa brasileira.

Generoso e incansável na sua luta por qualidade e ética na prática deste ofício, Dines comandou grandes redações, promoveu reformas que marcaram época, como a do Jornal do Brasil nos anos 60, e criou o Observatório da Imprensa, em 1996, em várias plataformas, a sua grande obra na crítica sistemática aos meios de comunicação no país.

Era, acima de tudo, um grande sonhador, achava que o jornalismo poderia melhorar o mundo ao denunciar as suas mazelas e apontar caminhos para um convívio mais civilizado.

Já com recorrentes problemas de saúde nos últimos anos, o mestre pegou há dez dias uma gripe que virou pneumonia e morreu de insuficiência respiratória, aos 86 anos.

Vivia sempre em movimento, bolando coisas novas, falava muito sem levantar a voz, alternando paixão e indignação, era muito estudioso e culto, procurava ajudar os outros.

Comecei a gostar dele quando escrevia a coluna “Jornal dos Jornais”, na Folha, nos anos 70, onde foi um corajoso precursor da crítica de mídia quando dirigia a sucursal do jornal no Rio, e mais tarde nos tornamos bons amigos.

Ajudou a formar levas de jornalistas, passando a eles a prática cotidiana aliada à teoria que aprenderam nas escolas onde lecionou.

Com lugar garantido na galeria dos grandes protagonistas da imprensa brasileira no último meio século, era um jornalista por vocação, um tipo cada vez mais raro nas nossas redações.

Já fazia muita falta, e agora só nos resta guardar na memória a lembrança do seu convívio sempre comemorado na festa dos seus 80 anos numa cervejaria paulistana, a última imagem que guardo dele.

Aos que estão começando agora na profissão, recomendo pesquisar no Google e nos seus livros a longa trajetória de Alberto Dines no jornalismo porque hoje só quero mandar um beijo para sua mulher, minha amiga Norma Couri, também jornalista e dedicada companheira.

Valeu, Dines.

Vida que segue.

Ricardo Kotscho



A morte do mestre Alberto Dines

Conheci Alberto Dines quando, no começo de meu trabalho no Jornal da Tarde, implantando o chamado “jornalismo de serviços” – economia com foco no consumidor – ele me convidou para assinar uma coluna em uma das revistas femininas da Abril, sob o título “Seu Nassif”, se não me engano. Foi a primeira pessoa que me deu a chance de sair do anonimato das redações para as colunas assinadas. A segunda foi o inesquecível amigo Aloisio Biondi, que me ofereceu uma coluna no Shopping News.

Crítico acerbo do jornalismo, Dines sempre foi um incentivador generoso dos jovens que ingressavam na carreira.

Na Folha, sua coluna de ombudsman da mídia marcou época. E provocou ressentimentos esperados, em uma categoria pouco acostumada com a crítica interna. Mas sua biografia, e o período histórico à frente do Jornal do Brasil, lhe conferiam a autoridade necessária.

Rigoroso nas críticas, no plano pessoal era uma pessoa extremamente sensível.

Em seus tempos de Observatório da Imprensa, uma pesquisa da Fernando Pacheco Jordão, com os 50 maiores influenciadores que apareciam nos jornais, me colocou na ponta, ao lado do Roberto Campos, como influenciador dos influenciadores.

Dines me convidou para um programa no Observatório da Imprensa, na época ancorado na TV Cultura. Pediu que levasse meu bandolim. No ar, me pediu uma música. Enquanto tocava, via lágrimas escorrendo de seus olhos, lembrando da infância, se não me engano em Vila Isabel.

Perdendo espaço na imprensa tradicional, transformou o site do Observatório em uma referência inestimável de bom jornalismo. E sempre com o apoio total da esposa Norma Cury.

Foi um dos jornalistas históricos do país.

Luís Nassif
No GGN



Temer, que tirou Dines do ar na TV Brasil, presta sua ‘homenagem’ ao jornalista

Após o golpe de estado de 2016, o presidente golpista Michel Temer praticou desmonte na Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em uma das medidas, o prejudicado foi o jornalista Alberto Dines – falecido nesta terça-feira (22/05). Há 17 anos no ar, Temer não pensou duas vezes ao terminar com a exibição do “Observatório da Imprensa”. Hoje, o presidente golpista presta sua “homenagem” a Dines:



15/04/2015

Jornais nem sempre representam o bom jornalismo

“Alguém imagina o que seria do Brasil sem a presença do jornalismo independente?” A surpreendente pergunta foi veiculada por Carlos Alberto Di Franco no espaço que lhe é reservado nas páginas de opinião do Globo e do Estado de S.Paulo, na segunda (13/4).

A proposição nos remete obrigatoriamente à primeira manifestação de jornalismo independente, quando começou a circular num território silenciado por férreos controles o primeiro periódico sem censura, o Correio Braziliense (junho,1808).

Apenas 14 anos depois, aquela gente que os colonizadores tratavam como estúpida, inculta, e ao longo de 308 anos mantiveram alheia à busca do conhecimento e desprovida de qualquer consciência autonômica, proclamava a sua independência.

No final do texto, empolgado, o autor esquece que tratava de jornalismo independente e proclama: “Os jornais têm futuro. E o Brasil precisa deles”.

Quem disse ao eminente comissário midiático do Opus Dei que jornais e jornalismo independente são noções necessariamente convergentes, associadas e complementares? Jornais e revistas são importantes, têm futuro, especialmente os impressos. Mas quem está abreviando sua existência e solapando sua importância são as doutrinas e a arrogância daqueles que os comandam.

Nos últimos dias tivemos pelos menos três clamorosas evidências do distanciamento entre jornais e jornalismo independente:

Há seis meses Barack Obama era ferozmente atacado, hoje…

Quando deixou de ser apenas uma curiosidade (o primeiro negro a ser levado à Casa Branca) e mostrou-se muito mais do que um líder carismático, pois representava um pensamento político articulado, coerente, começou a declinar a aceitação de Obama pela mídia brasileira.

Com o fortalecimento do Tea Party e do seu fanatismo contra políticas públicas e qualquer ação social do Estado, nossa mídia guardou a fantasia de liberal e Obama transformou-se no saco de pancadas preferido de um time de colunistas vestido com o uniforme das tropas de assalto da extrema-direita. Como nossos leitores não têm acesso à mídia liberal americana, os abusos e manipulações do noticiário foram vergonhosos — o Globo à frente.

A cruzada anti-Obama chegou ao auge em seguida à derrota nas eleições intermediárias do segundo mandato (novembro, 2014), quando os democratas que já haviam perdido o controle da Câmara dos Representantes acabaram sem a pequena maioria do Senado. As manchetes mencionavam “humilhação” e a imagem saxônica do “pato-manco” (lame duck) tornou-se familiar para o leitor brasileiro.

Seis meses depois, eis Barack Obama comandando dois espetaculares triunfos políticos com uma diferença de poucos dias: o acordo nuclear com os iranianos, depois de 36 anos de beligerância, e o acordo com Cuba, encerrando definitivamente o capítulo da Guerra Fria na América Latina. Pouco antes, Washington e Pequim anunciaram um inesperado pacto para diminuir as emissões de gases de efeito-estufa.

Na capa da última edição de Época (13/4) o oba-oba obamista foi representada por um busto do presidente americano é um título fortíssimo: “Um presidente para a posteridade”.

Pesquisas de opinião não devem ser usadas para forçar acontecimentos, mas…

As manifestações de protesto do domingo (12/4) estavam marcadas há algumas semanas. Na realidade, imediatamente depois das passeatas de 15 de março. A nova sondagem do Datafolha sobre a popularidade da presidente da República, apoio ao impeachment e questões correlatas foi realizada nos dias 9 e 10 de abril (quinta e sexta). Os resultados poderiam ser publicados na segunda (13) ou terça (14/4), mas o alto comando do Grupo Folha preferiu soltá-los no domingo. Claro, com a tiragem maior a repercussão seria tremenda.

Mas houve quem achasse que a divulgação de resultados favoráveis ao impeachment na manhã do dia em que o país inteiro preparava-se para ir às ruas e gritar “Fora Dilma” poderia ser tomada como provocação golpista.

A Folha de S.Paulo não tem este tipo de preocupação: publicou em manchete de capa que a reprovação a Dilma estacionou (entre 60% e 62%, um dos piores patamares da última década) enquanto a mesma proporção apoia a abertura de um processo de impeachment. Além das três páginas com análises dos resultados da sondagem, uma terceira (A-8, inteira), em formato de infográfico, com um “tudo sobre” para explicar o que é, como se inicia e como termina um processo de impedimento do chefe do governo.

Os resultados da sondagem foram comentadíssimos nos telejornais, radiojornais e portais de notícias na manhã de domingo, quando se preparavam para cobrir as manifestações daquela tarde.

Coincidência ou jogada ensaiada? A Folha parecia curada da pesquisite crônica, quando costumava usar as sondagens do Datafolha para reforçar suas coberturas e/ou posições. Teve uma recaída.

Zelotes: um vazamento que ninguém pretende explorar

Em 27 e 28 de março, o Estado de S.Paulo revelou os primeiros contornos do megaescândalo do CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) — no qual, além de grandes bancos, montadoras e frigoríficos, era citado um dos mais importantes grupos de comunicação do país.

Visivelmente relutantes, Folha e Globo foram atrás sem citar todos os grupos envolvidos nem todos os montantes subtraídos do erário sob a forma propinas ou taxa de sucesso a grandes escritórios de advocacia tributária.

Só no domingo (5/4) a ombudsman da Folha entrou no assunto, assim também o colunista Elio Gaspari (Globo e Folha). O respeitável Valor Econômico, embora cobrado antes neste Observatório, só se animou a encarar a mãe de todos os escândalos na terça-feira (7/4), isto é,12 dias depois da primeira notícia. O mais importante jornal de economia e negócios do país, que pertence em partes iguais ao Globo e à Folha, preferiu manter-se distante do primeiro escândalo protagonizado apenas por empresas e funcionários corruptos, com participação mínima de políticos e de partidos (a exceção é novamente o PP).

A glorificação dos jornais só é legítima quando se dispõem a compartilhar um compromisso pluralista, diversificado, capaz de evitar abusos e garantir o contraditório. A história dos jornais só pode confundir-se com a história da imprensa quando jornalistas independentes puderem praticar livremente o jornalismo independente.

Alberto Dines
No OI

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