23 de mai de 2018

Guilherme Boulos em entrevista a jornalistas imbecis de emissora de rádio fascista


A porcaria da Rádio Jovem Pan continua sua série de sabatinas com os presidenciáveis. Hoje foi a vez de Guilherme Boulos, pré-candidato à presidência pelo PSOL. Divagação preambular:

Eu, realmente, não consigo entender como não existe uma boicote geral ou quase geral de candidatos a essa emissora que é um poço sem fundo de profissionais desrespeitosos, hostis, levianos, violentos, propagadores de discursos de ódio e desavergonhadamente parciais no trato com certos candidatos e questões. Ofendem, interrompem e agridem a esmo. Um horror que, como disse, é bastante representativo da mentalidade e comportamento políticos paulistanos nos últimos anos.

Mas, vá lá. Está acontecendo, presidenciáveis estão marcando presença, milhares estão comentando no Twitter, então, à performance de Boulos.

Apesar da convocação a uma batalha campal de entrevistadores declaradamente inimigos do sujeito, Guilherme Boulos manteve a calma e, admiravelmente, conseguiu adotar um tom de serenidade na fala sem descuidar da contundência na manifestação de suas ideias e posições que são destrinchadas com uma boa, coerente e coordenada retórica de esquerda. Não adotou um comportamento bovino, como surpreendentemente adotou Jair Bolsonaro ontem, e sim adotou a estratégia de driblar as investidas que tentavam dragá-lo para um roda de linchamento de um contra uma multidão, conseguindo mostrar substância – ao contrário, obviamente, do presidenciável de ontem – no trato com temas relativos a habitação, reforma agrária, agricultura familiar, política de ajuste fiscal, desonerações para empresas, déficit público e política internacional.

Surpreendemente, até no que diz respeito às investidas dos entrevistadores em jogá-lo na vala comum do “todo malévolo PT”, ao tratarem de temas sensíveis e profundamente ideologizados, como Lula e casos de corrupção do Partido dos Trabalhadores, o pré-candidato se saiu bem. Em dado momento, em um dos tantos embates com a figura repugnante e leviana de Marco Antônio Villa, o historiador tentou, feito um garoto de 15 anos que fala de política no Twitter e acredita que éramos um regime boliavariano com sede no Foro de São Paulo antes de Temer, vincular levianamente Boulos ao PT perguntando: “O PT é corrupto?”.

Conseguiu bem responder, com fatos e menções a outros políticos e partidos - PSDB, por exemplo - afirmando sobre como as mesmas estruturas e agentes públicos e privados habitam e fazem girar a roda do sistema político da mesma forma, há muito, em diferentes governos. De FHC a Lula, com o exemplo extraído de declarações em delações premiadas de como os esquemas envolvendo a Petrobrás têm origem nos governos de Fernando Henrique O interessante, estrategicamente, é que Boulos parece demonstrar que sabe que sempre que esses entrevistadores tem de lidar com as contradições das dicotomias que criaram para isolar PT e criar o inimigo público a ser abatido, a cognição trava e ele pode explorar.

Mas o mais interessante, que ilustra bem um bom domínio retórico, calma e esclarecimento do pré-candidato, se deu quando essa atrocidade moral e intelectual, Marco Antonio Villa, tentou lhe atribuir, como sempre faz em seu programa, a pecha de terrorista por incentivar e coordenar mobilizações que bloqueiam ruas e provocam transtornos a outros. Habilidosamente, respondeu com pergunta, pois sabe que a postura religosa do pró-Deus-Mercado da Jovem Pan impede que seus jornalistas abominem caminhoneiros que protestam, obstruem, mas carregam insumos e produtos de ou para grandes produtores rurais: “Você é contra o bloqueio feito por caminhoneiros? É contra o protesto que motoboys fizeram na Avenida Paulista em razão da alta no preço dos combustíveis?”

Marco Antonio Villa, que achava que ia encurralar, mais uma vez, acabou encurralado. Titubeou sobre a pergunta, disse que achava o protesto legítimo, mas, timidamente, em baixíssimo decibéis, afirmou que discordava de sua forma. Abriu as portas para que Boulos dizesse que, tão legítimo como o protesto dos caminhoneiros, são os protesto por melhor moradia ou falta de terra – questão que teve que ser adimtida como legítima e necessária por toda a bancada de entrevistadores. Desse modo, Boulos arremata que são as causas que devem ser consideradas e a alteridade deve ser praticada, afinal, por trás desses protestos, há pessoas, há carências, há problemas e desafios que devem ser considerados e resolvidos por um presidente.

Bom, até com Lula a coisa funcionou de forma parecida. “Lula é corrupto?? Não foi condenado?”. Entrevistador responde: “Há um conjunto de documentos…”. Ele: “Documentos? Papéis?? Cadê as provas”. Entrevistador: “Mas…”. “Responde. A prova. Não papéis. A prova, onde está?”. Entrevistador, que por sinal é Marco Antônio Villa, de novo: “….”. E isso abriu o leque para que ele comparasse o caso de Lula com tanto outros com provas de somas no exterior, assessor carregando malas de dinheiro, etc.”

No que tange às investidas de vinculação do sujeito a regimes de esquerda latino-americanos profundamente marcados pelo jornalismo anti-esquerda e anti-petista, Boulos também se saiu bem. Fez considerações críticas à Venezuela e a Cuba aproximando seus problemas a problemas correlatos no Brasil que são ignorados pelos entrevistadores.

Enfim, na arena sórdida da atrocidade hidrófoba e enviesada da porcaria que é a Rádio Jovem Pan, Guilherme Boulos demonstrou ser um cara equilibrado, sereno e bem informado que tem chances de grandes de ganhar muitos dividendos eleitorais para investidas futuras se mantiver essa postura. Isso porque consegue não apenas se impor com certa elegância, sem usar a truculência ou intransigência, preservando seu tempo de fala, como consegue driblar tentativas de lhe vincularem a “estereótipos esquerdistas” com bons argumentos e estratégias retóricos que expõem contradições dessas investidas.

Consegue se defender bem das artimanhas antipetistas e posicionar sua candidatura individualmente sustentando bem uma agenda de esquerda. Sob o ponto de vista mediático, se conseguiu passar pela estupidez, hostilidade pueril e violência que transformou em pó Jair Bolsonaro ontem, tem condições de colecionar boas performances adiante.

Camilo De Oliveira Aggio
No Esquerda Caviar

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