2 de mai de 2018

Fernando Henrique Cardoso e a modernização da República Velha

A crise atual é também uma crise do discurso elitista. Chance histórica para a esquerda reconquistar uma classe média que se proletariza

A elite paulistana é atrasada, mas gosta de tirar onda de moderna e seu “garoto propaganda” é FHC
Se pensarmos bem, a República Velha e seu pacto elitista restrito venceu, no longo prazo, a revolução de 1930. Como são sempre as ideias que legitimam os interesses velhos como se fossem novos, compreendemos esse fato melhor analisando a “santíssima trindade” do liberalismo vira-lata brasileiro.

Se Sérgio Buarque é o “filósofo” desse liberalismo ao criar as categorias mais abstratas do brasileiro como homem emotivo e, portanto, inferior e corrupto, além do Estado como único lugar da corrupção; e Raymundo Faoro é o “historiador” dessa visão hegemônica ao recuar até Portugal essa suposta herança de sangue maldito; então Fernando Henrique Cardoso é o contraponto especificamente “político” dessa trindade conservadora.

Se os outros eram “apenas” intelectuais no sentido estrito, ainda que engajados, coube a FHC realizar em concreto, como ideia e como pratica, o ideário “conservador chique” da elite paulistana que logra nacionalizar seu poder precisamente na medida em que essas ideias se tornam hegemônicas.

O ponto nodal, hoje esquecido, dessa estratégia ideológica é a introjeção do mito do bandeirante paulista – contrafação já ironizada por figuras como Vianna Moog no calor da hora - como protótipo do mito americano do pequeno empreendedor acético e honesto como base de uma cultura rica e democrática.

O problema do Brasil é que o “Estado corrupto” impediu o mercado pujante e virtuoso de nascer. O mito americano perde qualquer base real já logo depois da guerra civil americana (1861-1865) quando se estrutura um capitalismo monopolista desregulado que destrói o pequeno empreendedor e que passa a "comprar” uma das estruturas políticas mais corruptas da época segundo análise insuspeita de Max Weber que pesquisa in loco o tema. Mas, entre nós, 80 anos depois de sua morte nos EUA, é o mito do empreendedor que sustenta a criminalização do Estado e o estigma da política.

Afinal, como diz a “santíssima trindade” em uníssono, é por conta da herança vira-lata da corrupção apenas estatal que explica por que aqui não teríamos ainda a pujança americana. Essa cantilena está por trás ainda de tudo que a elite conservadora - de direita e de “esquerda” - e a imprensa venal diz sobre o país até hoje.

O plano foi simples. Se constrói um “bode expiatório” sob a forma de uma elite maldita estatal e política como modo de neutralizar o advento do sufrágio universal - a verdadeira pedra no sapato desta elite desde a república velha - sempre que o Estado quiser ser mais que butim para livre uso e saque econômico dessa elite.

Quem quer que defenda uma sociedade pujante e inclusiva é apeado do poder pela corrupção seletiva, ou, no caso de Ernesto Geisel e seu II PND, em nome da “democracia”. A criminalização da política é o núcleo da aliança também com as “burocracias intermediárias e técnicas do Estado”, como os militares no passado e hoje com o judiciário.

Como esses quadros técnicos estão em competição estrutural com o comando político e procura chantageá-lo por vantagens econômicas e pelo poder de definir a agenda estatal, a aliança com a elite econômica para o domínio do Estado e o saque do orçamento público é a pedra de toque do arranjo elitista brasileiro desde 100 anos. Esse é o verdadeiro atraso brasileiro: moral, social, econômico e político.

Mas essa ideia reacionária tem que ser vendida ao público “bem pensante” de classe média como se fosse avanço e progresso e é aqui que entra o papel do “político” FHC na “santíssima trindade” da ideologia brasileira. A elite paulistana, que se torna hegemônica nacionalmente, é atrasada, mas gosta de tirar onda de moderna e seu “garoto propaganda” é FHC.

Professor mais famoso da USP, mimado por toda a mídia conservadora, bem falante, poliglota (para não passar vergonha no exterior), o verdadeiro “ego ideal” da elite a da classe média letrada. Ele não repete a penas as ideias do liberalismo vira-lata brasileiro nas análises políticas ou no programa do PSDB que leva aos seus governos inspirados pelas ideias de Buarque. Ele é o “profeta exemplar” de um liberalismo reacionário que flerta com o charme parisiense, tipicamente uspiano, do provincianismo que se imagina na vanguarda do mundo.

O limite social desse liberalismo é a defesa abstrata dos “direitos humanos” como substituto da efetiva distribuição de riqueza e poder. Foi essa pátina dourada que fez parecer progresso o que era máscara nova para um jogo velho.

A crise atual é também uma crise desse discurso elitista. Luciano Huck, Doria e Temer são a versão “casca grossa” de FHC. Uma volta a elite do saque pelo mercado do orçamento público e riquezas nacionais sem o discurso civilizador e sem charme parisiense. Chance histórica para a esquerda de reconquistar uma classe média que se proletariza.

Jessé Souza
No CartaCapital

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