13 de mai de 2018

“Documento da CIA serve para mostrar a VITAL importância dos historiadores e explica porque hoje os fascistas atacam a educação”

"Juridicamente o que ocorre é que não há mais a necessidade de usar a teoria do domínio do fato contra os generais. Surgem documentos que comprovam o fato. É duro ver que, neste país, quando o poder quer condena sem provas, quando não quer, cria uma história de quase 30 anos para fazer pessoas acharem generais inocentes"


Sobre os documentos que apareceram da CIA, há que se fazer algumas ponderações:

1) não há nenhuma novidade no que foi dito. Há muito tempo muitos historiadores afirmavam que a tese de que o comando militar desconhecia dos assassinatos e torturas era inverídica. Mas antes se usavam as teorias explicativas das instituições e testemunhas. Agora surge um documento. (Nota dos Jornalistas Livres: Se você ainda não viu os documentos, uma boa fonte é o artigo do ex-preso político Adriano Diogo publicado hoje no Outras Palavras

2) Juridicamente o que ocorre é que não há mais a necessidade de usar a teoria do domínio do fato contra os generais. Surgem documentos que comprovam o fato. É duro ver que, neste país, quando o poder quer condena sem provas, quando não quer, cria uma história de quase 30 anos para fazer pessoas acharem generais inocentes.

3) Teorias de conspiração com a CIA não cabem aqui. Uma coisa que os governo americano respeita são as leis de transparência e controle da informação. Chegando nas datas para desclassificação de documentos, há a desclassificação como regra. Não há aqui qualquer intuito em prejudicar A ou B. (Nota dos Jornalistas Livres: A tentativa de uso político do anúncio dessa descoberta pela direita fica clara quando vemos as declarações de ontem dos generais, do exército e do Ministro Segurança Pública Raul Jungmann.

4) Contudo, o USO deste documento AGORA, pela direita liberal e mídia contra os militares (fascistas) mostra que há luta no campo de lá. É uma tentativa de conter o fascismo no Brasil que, a meu ver, é muito perigosa. Os dementes que defendem o regime militar não se importam com documentos, argumentos ou racionalidade (isto incluir professores). MAS os militares que estão colocando suas asinhas de fora, estes podem sim tentar radicalizar com o mesmo argumento do famoso “corporativismo” …

5) De nada o documento vai servir se o MP e as instituições de defesa dos direitos humanos não tomarem a dianteira e trouxerem estas novas evidências nos processos que já estão em andamento ou mesmo propor novas demandas em fóruns internacionais.

Charge de Vitor Teixeira – 2018

6) A Globo replicando o documento é o supra-sumo da hipocrisia. A ditadura brasileira 1964 (assim como o estado de exceção que vivemos hoje) não poderiam ter sido colocados em prática sem o trabalho incansável da rede globo. E se tem uma coisa que podemos tirar de lição inquestionável dos governos do PT é que não se pode mais transigir com a Globo. É preciso acabar com o monopólio comercial dela e de suas afiliadas, é preciso fazer valer as leis que já existem sobre comunicação e criar novas alternativas que combatam este monopólio. (Nota dos Jornalistas Livres: A esse respeito o R7 fez uma matéria em fevereiro de 2015 mostrando outros documentos que provam a participação direta do Roberto Marinho, dono da Globo, nas decisões do governo ditatorial.)

7) Este documento em nada serve à luta imediata do PT ou da esquerda. Muito pelo contrário, periga aglutinar os fascistas ainda mais. E como o STF está acovardado e a justiça de um modo geral escolheu fazer política sobram apenas o poder das ruas e o poder dos quartéis. Isto significa dizer que no compto de forças políticas os liberais estão fragilizados e os fascistas e a esquerda são as forças que se digladiam. O que pode ser comprovado com os números de pesquisas eleitorais. (Nota dos Jornalistas Livres: “Com o Supremo, com tudo” vem de bem antes da profecia de Pai Jucá. Além do STF ter aprovado, também, o golpe de 1964, em 2010 reafirmou a “legalidade” da Lei de Anistia, indo contra a Constituição Brasileira e diversos tratados internacionais assinados pelo Brasil.

8) Nestas questões de Justiça histórica e social, as Relações Internacionais, delimitam três “modelos” de como lidar com o passado: O modelo argentino (tido como de maior antagonismo, já que processaram e prenderam seus ditadores), o modelo sul africano (tido como de maior acomodação, visto que nenhum processo jurídico foi levado à cabo) e o modelo brasileiro que era entendido como um “meio termo). Assisti muitas apresentações sobre isto e, como historiador de formação, sempre as achei sem pé nem cabeça. Pois na África do Sul estão, neste momento, revogando os acordos feitos com a maioria negra e voltando a implementar políticas de exclusão e no Brasil temos novamente um golpe com participação de militares … isto faz com que tenhamos que reconhecer que o ÚNICO modelo correto é o argentino. Golpista, torturador, assassino tem que ir para a cadeia. E isto para que vidas no futuro sejam salvas. Espero que TODAS as vertentes de esquerda reconheçam isto daqui para frente.

9) O episódio do documento da CIA serve para mostrar a VITAL importância dos historiadores e explica porque hoje os fascistas atacam a educação, a história, a filosofia, a sociologia com tanta força. Que TODAS as câmaras e assembléias que discutem o “escola sem partido” e outras abominações fascistas usem este caso para mostrar que precisamos DE MAIS história, MAIS filosofia, MAIS sociologia e não menos. (Nota dos Jornalistas Livres: O coletivo vem acompanhando e publicando há três anos dezenas de artigos, reportagens, matérias e notas sobre a loucura fascista dos projetos de lei da Escola Sem Partido.

10) Já acharam os documentos que provam que Lula foi “agente do regime militar” contra os trabalhadores – como alguns “historiadores” e militares andaram vinculando desde o golpe de 2016? Não? É mais uma acusação sem provas que fazem a Lula desde a ditadura …

Henfil também já sabia como funciona o judiciário brasileiro, em 1980…

Fernando Horta é historiador e Professor na Universidade de Brasília – UNB 

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