22 de mai de 2018

Delação de Marcos Valério e Nílton Monteiro atinge os alicerces do poder em Minas

Valério e Nílton abrem o porão da política em Minas
A reportagem da TV Record sobre o depoimento de Marcos Valério à Justiça, em que revelou a chantagem do tesoureiro do PSDB Cláudio Mourão, é uma bomba que complica a situação de Eduardo Azeredo e também atinge Aécio Neves. Mas é parte da história. Os segredos que Valério tem revelado na sua delação premiada são muito mais cabeludos.

No período em que governou Minas Gerais, entre 1º de janeiro de 1995 e 1º de janeiro 1999, Mourão foi o homem forte do governo. Era secretário da Administração, mas tinha influência sobre todas as áreas. Quando Azeredo se candidatou à reeleição, Mourão foi tesoureiro da campanha.

Para infelicidade do grupo e ruína financeira de Mourão, quem se elegeu foi Itamar Franco. O ex-secretário de Azeredo tinha uma locadora de veículos, usados na campanha, e saiu sem dinheiro e cheio de dívidas. A locadora quebrou. Azeredo, segundo Valério, fechou as portas para Mourão e ele então passou a extorquir dinheiro do antigo governador e chefe.

Para fazer a extorsão, usou o lobista Nílton Monteiro, que tinha sido operador do deputado Sérgio Naya. Assim como faria anos depois, no caso da Lista de Furnas, Nílton foi o portador da relação de políticos e outras autoridades que tinham recebido dinheiro do caixa 2 de Mourão. Deu certo num primeiro momento.

Era a famosa lista que deu origem ao escândalo que, em 2005, passaria a ser conhecido como Mensalão de Minas. Mas isso não foi tudo. Mourão continuou pressionando e receberia mais dinheiro ao longo dos anos. Como aconteceu em outro esquema de corrupção denunciado por Nílton, ele foi passado para trás.

Nílton disse que revelará detalhes dessa história, assim como a da Lista de Furnas, que atinge principalmente Aécio Neves, que tinha o controle das ações do diretor Dimas Toledo na estatal brasileira. Ele fará a revelação no acordo de delação que fechou com a Polícia Civil de Minas Gerais.

Azeredo, depois de analisados os recursos pelo Tribunal de Justiça, pode ser recolhido à prisão, como aconteceu no caso de Lula, já que houve condenação em segunda instância. A esperança de seus advogados é que ele obtenha habeas corpus no Supremo Tribunal Federal, mas lá existe um problema.

O ministro Gilmar Mendes terá dificuldade para conceder a medida, caso seja acionado (por sorteio ou prevenção). É que o nome dele também está em uma lista da corrupção mineira, a que foi feita por Marcos Valério, também com o propósito de intimidar e obter vantagens (extorsão). No passado, Valério negou a autenticidade da lista, que é assinada por ele.

Mas agora diz que é verdadeira e diz que, se for periciada, se comprovará que a assinatura é dele. O original dessa lista, entretanto, está em alguma gaveta do Supremo Tribunal Federal, pois foi entregue ao então presidente do STF e relator do mensalão do PT, Joaquim Barbosa. O advogado que fez a entrega, Dino Miraglia, teve a vida destroçada em Minas.

Depois que a Polícia Civil, no governo tucano, cumpriu mandado de busca e apreensão em sua casa, ele teve o casamento desfeito e hoje, após uma bem-sucedida carreira como criminalista, vive fora de Minas Gerais, evitando contato com a imprensa e antigos amigos.

A ação de Cláudio Mourão para vender seu silêncio chegou ao governo de Aécio Neves. Em 2006, depois que a lista do mensalão se tornou pública, ele fechou contrato milionário com o governo mineiro, justamente com um empresário de Araxá, Ângelo Maneira.

Os dois são os responsáveis pelo cartão medicamento, criado na administração de Aécio e mantido na gestão de Anastasia e de Fernando Pimentel, do PT. Nesse ponto da história, segundo a delação de Valério e Nílton, com corroboração de indícios ou provas colhidos pela Polícia, tanto a Federal quanto a Civil, se mostra que Aécio mantém influência até hoje no governo do Estado de Minas.

E Mourão também mantém influência no governo atual, de Fernando Pimentel. Sua amiga, Denise Landim, que o ajudou na tesouraria da campanha de Azeredo, tem cargo comissionado no gabinete do vice-governador, Toninho Andrade, do MDB. O filho de Cláudio Mourão, Guilherme, é superintendente na Casa Civil.

Fernando Pimentel mora em um apartamento que está registrado em nome da família de Cláudio Mourão. O endereço de Pimentel também aparece como o da Marka Participações, empresa que administra o cartão medicamento, criado no governo de Aécio e mantido até hoje.

São suspeitas graves que envolvem os governantes de Minas Gerais desde o tempo de Azeredo. Na investigação feita pela polícia, houve busca e apreensão na casa de Denise Landim, a amiga de Mourão. Foi encontrada lá uma relação de convidados para uma festa. Estão os nomes de Renata Vilhena, que foi secretária de Planejamento no tempo de Antônio Anastasia, e de Fernando Pimentel.

Valério disse que o cartão medicamento tornou Cláudio Mourão um homem rico outra vez e que se mantém de boca fechada.

Joaquim de Carvalho
No DCM

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