27 de mai de 2018

De @adolfoberlejr para @eliogaspari, sobre a greve dos caminhoneiros


“Prezado Gaspari,

“Em 1937, a Standard Oil fez pressão sobre o governo do MEU país para que atuasse para reverter a decisão do SEU país, de construir refinarias para não depender mais do poder de pressão das petriolíferas do MEU país. Depois de ter registrado lucros gigantescos no Brasil, a Standard OIl manifestava seu "receio" de que, refinando petróleo com capital nacional, o Brasil acabasse pagando um preço muito alto pelo produto.

Como disse na época para o presidente Roosevelt, a preocupação  da Standard Oil me pareceu simplesmente engraçada.

“Em meados de 1945, sugeri ao Departamento do Estado a criação de uma comissão bilateral, Brasil-EUA, incumbida de vigiar as atividades de companhias estrangeiras, a fim de assegurar que o povo brasileiro recebesse os benefícios dos recursos. E não pense que são palavras de autocrítica depois que desencarnei. Sugiro consultar os livros de Stanley Hilton onde está registrada minha posição.

Espero que em seu próximo livro, corrija a imagem de golpista que me acompanhou, depois que me tornei embaixador no Brasil. E pense nos interesses do seu país com o mesmo carinho que eu, um ianque, pensava”

O emburrecimento nacional

De fato,  polarização ideológica conseguiu produzir um nível de emburrecimento inédito na história moderna do país.

A greve dos caminhoneiros é exemplo acabado, uma discussão sem pé nem cabeça que chegou ao ápice com os analistas da velha mídia tentando atribuir a responsabilidade ao governo Dilma, e o contra discurso tentando provar que Dilma estava certa achatando os preços de combustíveis, em um momento em que a Petrobras era submetida ao maior desafio da sua história.

A rigor, a única manifestação de bom senso foi de Eduardo Gianetti da Fonseca: “Transmitir para o consumidor a volatilidade do mercado de petróleo mundial e da variação da taxa de câmbio no Brasil todos os dias é uma maluquice”. Ponto.

Samuel Pessoa, que se tornou uma espécie de Marco Antônio Villa da economia, com foco exclusivo em militância ideológica, atribuiu a responsabilidade ao governo Dilma, é claro. Confiram o que a ideologia faz com até com pessoas preparadas:

Primeiro  Pessoa diz que a responsabilidade é do governo Dilma que aumentou muito a frota de caminhões, com isso barateando os fretes. Ou seja, a saída seria uma explosão nos fretes para repassar a explosão dos derivados.

Poucos parágrafos adiante, ele completa:

 “Em meio a uma recuperação frustrada da economia, os fretes, pressionados pelos custos do diesel, nas rotas agrícolas, subiram de janeiro até abril algo como 40% em termos reais. Em geral, nessa época do ano, os fretes agrícolas sobem uns 20%. Caminhões perdem espaço para ferrovias, o que não é ruim. Mas com tanto caminhão...””.

Entenderam? Primeiro acusa o excesso de caminhões pela redução dos fretes. Em seguida, acusa o excesso de caminhões pelo... aumento dos fretes. Villa não se sairia melhor.


“Se o preço do diesel salgou a operação do setor de transporte de cargas o problema é dele, não de uma população que foi afetada pelo desabastecimento e agora pagará a conta”.

Em um país essencialmente rodoviário, o frete é um dos preços básicos da economia. Se aumenta o frete, toda a população é afetada pelo repasse dos custos aos alimentos, remédios e abastecimento em geral. A greve faz a população pagar a conta por 15 dias. Explosão dos preços de combustíveis, repassados para fretes, faz pagar a conta dali por diante.

E completa com a saída mágica, eco do coro de uma voz só da Globonews: “Deveria ter provisionado um colchão financeiro para subsidiar a Petrobras, mas essa ideia era repelida pelos sábios da ekipekonômica. Diante do caos, descobriram que o colchão era necessário”.

Um país imerso em uma crise fiscal gigantesca, amarrado pela PEC do Teto, com estados exangues, sem conseguir cobrir a folha, com cortes na saúde, na educação, e o doutor com seus conselhos salvadores.

O que Parente tem feito com a Petrobras há muito extrapolou as hipóteses de mera incompetência;
  1. Toda empresa monopolista usa os preços como maneira de impedir a competição. No refino, Parente aumentou os preços da Petrobras para viabilizar a competição dos importados. Aumentou a vulnerabilidade externa e criou uma capacidade ociosa de 25% nas refinarias da empresa.
  2. Toda empresa privilegia os produtos acabados, em detrimento da matéria prima. Na gestão Parente, a Petrobras aumentou as exportações de petróleo cru e aumentou as importações de derivados.
  3. Toda empresa com problemas de endividamento reduz os dividendos temporariamente, para preservar os ativos e a capacidade de produção. Na gestão Parente, venderam-se ativos a preço de banana, para reduzir o endividamento e permitir o aumento na distribuição de dividendos no curto prazo.
Ou seja, usou o poder de mercado, todas as vezes, para penalizar os consumidores e para beneficiar os concorrentes.

Mas, como diz o doutor Gaspari: “Pedro Parente não provocou o caos. Desde sua posse na presidência da Petrobras ele descontaminou-a do caos que recebeu. Na base dessa façanha esteve uma nova política de preços acoplada ao valor do barril no mercado internacional”.

Como diria um filósofo do senso comum: “Assim, até eu!”. Mas, como o Gaspari diz, o povo brasileiro só paga a conta quando há blackout.

Luís Nassif
No GGN

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.