31 de mai de 2018

Como o WhatsApp contribuiu para fragmentar os caminhoneiros

O uso frequente do Whatsapp na greve dos caminhoneiros influenciou na condução das paralisações e nas negociações entre governo e movimento. A análise é de Pablo Ortellado, professor e pesquisador do Monitor do Debate Público no Meio Digital da USP.

Boa parte da comunicação entre os caminhoneiros grevistas foi feita através do comunicador do Facebook
Na entrevista a seguir, o pesquisador alerta para o fato de que cada grupo do comunicador pertencente ao Facebook está limitado a apenas 256 usuários. Segundo Ortellado, isso contribui para fragmentar o movimento, pois não há uma plataforma central de distribuição de informações, o que leva muitas delas a demorar dias para serem repassadas. Essa característica também favorece a disseminação de fake news, diz.

O uso das redes sociais vem se sofisticando em relação à organização de greves ou das mobilizações sociais?

A relação entre internet e mobilização sociais é algo que se fala desde os movimentos antiglobalização dos anos 90. Mas acho que a mobilização dos caminhoneiros tem uma característica específica. Ela ocorreu muito por meio do WhatsApp. Não só por ele, tem um pedaço acontecendo no Facebook.

Mas é uma relação entre o Facebook e o WhatsApp. Isso tem impactos na forma do movimento responder, porque o Whatsapp é uma rede privada e limita os grupos a 256 usuários, impedindo que as redes formadas sejam muito amplas. A organização fica fragmentada.

Essa característica explica, em parte, o fato de o governo ter feito rodadas de negociações com lideranças diferentes e não ter gerado um desmobilização imediata. O governo fez uma primeira rodada de negociação e achou que tinha feito o acordo, mas não foi o suficiente. Então apresentou outras mudanças, uma nova rodada e ainda seguimos com bloqueios nas estradas.

O uso das redes privadas e limitadas de WhatsApp cria estruturas de organizações mais horizontais e mais descentralizadas. Por isso estruturas mais verticais ficam desconectadas da estrutura viva e mais horizontal, como a dos caminhoneiros.

Então diálogos e negociações ficam perdidos?

Fica muito difícil. Quando se está negociando com metalúrgicos, eles têm uma unidade de comando com quem se constrói o acordo. No caso dos caminhoneiros, a gente fala de uma categoria que já tinha várias associações de representação. Não havia uma unicidade. E além disso, nesse processo de mobilização ela produziu lideranças locais, quem tem a ver tanto com a dimensão continental do Brasil e da mobilização estar espalhada pelas redes de estrada do Brasil.

Tem um outro elemento: a comunicação por WhatsApp é muito mais lenta que a comunicação pelo Facebook. Um exemplo: por Facebook uma postagem pode ter repercussões imediata porque a rede comporta páginas e perfis com grande alcance. Algumas páginas políticas tem mais de 100 milhões de seguidores. Em poucas horas, aquela mensagem chega.

No WhatsApp isso não acontece justamente pelo limite da rede de 256 pessoas. Então para a informação começar a atingir milhões de pessoas ela tem que ir passando de grupo em grupo e isso demora dias. A dinâmica de difusão muito mais lenta. Acho que tudo isso contribuiu para a fragmentação desse movimento e dificultar a negociação.

Nesse sentido, as mobilizações de 2013, que usou o Facebook, foi muito diferente com a do caminhoneiros?

Tem essa diferença porque no Facebook a comunicação viraliza muito mais rápido devido as páginas e perfis de grande alcance enquanto no WhatsApp não. Mas vale lembrar que esse processo da greve dos caminhoneiros tem dois processos sociais em paralelo. Tem o processo da categoria e tem o movimento de apoio aos caminhoneiros, que está inclusive muito engajado nos bloqueios da estradas. Os bloqueios não tem só caminhoneiros, tem população também. Eu passei por cidades no sul do país que tinha mil pessoas bloqueando a rua e não eram caminhoneiros, eram família. Naquela região eles estavam organizados pela página dos moradores da cidade, do Facebook. Eram famílias com crianças jogando futebol para bloquear a via.

O senhor acredita que as redes sociais reforçam o comportamento de um espírito de manada?

Acho que isso acontece… Não é qualquer coisa que viraliza. Ninguém tem o poder de escolher o que vai viralizar. Viraliza aquilo que toca em um determinado ponto, que move um sentimento de urgências nas pessoas.

Uma mobilização desse tipo ela é muito imprevisível. Ela começa muito devagar e de repente explode ao tocar em alguns pontos. Ela foi ressignificada. Não dá para ser construído voluntariamente. Teve gente que tentou fazer isso, mas é algo espontâneo.

O movimento foi ressignificado e a partir daí vieram as fake news…

Está cheio. Tenho dezenas de material a esse respeito. Chega mais fake news via WhatsApp. Há dezenas de coisas dizendo que intervenção militar está a caminho, supostos militares gravando áudio, supostos vídeos de militares. Os intervencionistas estão extremamente ativos, entrando nos grupo e se difundido. Tem uma campanha muito pesada.

E que conclusão chega ao ver esse material nas redes?

É engraçado. Vou te dar uma opinião porque não tem como ver o todo. Estou lendo o que está circulando. O meu sentimento é que não é uma demanda autoritária da parte da população. O apelo à intervenção militar está ligado ao sentimento anti-corrupção. A ideia de que o sistema político não consegue corrigir a si mesmo. Tiraram o PT, puseram a direita e viram que direita é tão ruim se não pior que a esquerda. Então vem a pergunta: “do sistema político, quem a gente vai por lá?”. Precisa vir uma solução de fora, mas essa solução não é necessariamente autoritária.

O apelo não é por autoridade ou suspensão por direitos democráticos. Ela é por combate à corrupção. Então ela não é um apelo antidemocrático. Claro que seu resultado é antidemocrático e as pessoas que estão explorando isso são abertamente antidemocráticas.

Segundo o levantamento que fizemos esta semana, há um número grande de postagens no Facebook articulando direito de voto e intervenção militar. As coisas são muito mais confusas do que a gente pensa. Vale a pena investigar mais.

Marina Cubas
Do CartaCapital

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