14 de mai de 2018

Como o “Fora Dilma” pariu Bolsonaro

Hitler também era ridicularizado na Alemanha, antes de 1930.


O texto “A crise do macho branco adulto no comando” é de 03 de janeiro de 2017 – lá se vão um ano e meio – e está essencialmente atual. Foi atualizado pela ascensão de Bolsonaro nas pesquisas eleitorais – o texto não tinha essa intenção, mas acabou identificando o óvulo do nosso atual fascismo que acabou fecundado pela campanha antipetista.

Mostra também, como a campanha da plutocracia brasileira para destruir o PT acabou gerando resultados não previstos e contrários a seus interesses.

Lula está preso. E confirmando a máxima, a esquerda se uniu na cadeia.

O STF dá sinais de que não o libertará antes do fim das eleições de 2018. Mas a vitória do candidato da plutocracia está cada vez mais distante. Ele próprio está sendo execrado pelas mesmas forças que foram convocadas às ruas para demonizar o PT.

O candidato que o “Fora Dilma” potencializou foi Bolsonaro.

Um candidato conservador e antiesquerdista tal e qual é a plutocracia – mas sem relação com ela – como é próprio do fascismo. O fascismo é a ideologia da pequena burguesia – do homem medíocre e violento. E revoltado com “tudo isso que está aí”.

Obterão vitória em 2018? Não há dúvida quanto a isso.

Talvez não ganhem a presidência. Mas marcarão posição. Hitler também não ganhou, na sua primeira eleição. Bolsonaro não é Hitler – falta-lhe competência para ser qualquer coisa além do “surfista” que, desde os fins da Ditadura de 64, buscar estar na “onda reacionária do momento”. Porém, pode estar abrindo a picada pela qual um Hitler poderá passar.

Hitler também era ridicularizado na Alemanha de antes de 1930. Um político caricato de quem a alta burguesia julgou que poderia se servir para atacar os comunistas. Até Hitler, com o apoio do pequeno burguês revoltado, se tornar o próprio poder.

Eis o que o “Fora Dilma” pode ter parido.

Vamos ao texto.

A crise do macho branco adulto no comando

O macho branco adulto é um ser em crise e perigoso. Frustrado e inseguro e sob um experimento de manipulação social que só encontra paralelo no nazismo, a violência é sua resposta.

leao-velho

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes, índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes fazem o carnaval”.

São versos de Caetano Veloso para a música “Podres Poderes”. A composição é de 1984. O que talvez explique a citação a padres fazendo o carnaval – vivíamos os tempos da Teologia da Libertação, ainda na Ditadura e antes da Constituição Cidadã de 88.

A sociedade da discriminação

Há uma clara dualidade e antagonismo nesses versos: homens se contrapondo a índios e padres e bichas e negros e mulheres e adolescentes. Os podres poderes se contrapondo ao Carnaval. Claramente também se nota não se tratar de qualquer homem e sim do homem branco, adulto e heterossexual.

Há uma coisa que sempre me incomodou nesses versos.

Caetano atribui todos os podres poderes a uma minoria: o homem branco, adulto e heterossexual. Sem dúvida, ele é a representação do poder. E de um poder conservador e reacionário como fica explicito nos demais versos da canção.

“Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica que sempre precisará de ridículos tiranos?”.

Caetano não trata especificamente da questão social, mas se lembrarmos que no Brasil a riqueza tem cor e a cor dela é branca, poderíamos reduzir ainda mais esse círculo de poder. Homem, branco, adulto, heterossexual e de classe média acima.

Apesar disso, me incomoda nos versos de Caetano que uma generalização em torno do macho branco no comando não nos permita perceber o como somos discriminatórios ao longo de toda a nossa pirâmide social, e não apenas no seu cume.

Somos a sociedade da discriminação.

Negros discriminam mulheres e homossexuais e mulheres brancas discriminam negros e talvez discriminem mais ainda às mulheres negras. Homossexuais discriminam pobres. Adultos desrespeitam crianças e adolescentes a ponto de ser necessário um estatuto para protege-los. Estatuto que é apontado como a causa da nossa criminalidade justamente pelos adultos.

Sulistas e sudestinos discriminam nordestinos. Sulistas e nortistas discriminam índios e quilombolas… e por aí vai.

Somos a sociedade da discriminação e ela vai além do homem branco, adulto e heterossexual. Ainda que o tenha como referencial.

E aqui a causa do incômodo: a discriminação contamina as vítimas da discriminação, que também discriminam de alguma forma, o que acaba por justificar a discriminação através de um círculo vicioso.

Há que se estudar tal contaminação, já que me parece inescapável que ela contribui para que um grupo tão minoritário – o macho branco adulto detenha o poder. Dividir para governar.

O macho adulto branco sempre no comando e em crise

Tais divagações voltaram-me à mente por causa de duas tragédias acontecidas no final de 2016 onde estava novamente presente o estereótipo do homem branco, adulto, heterossexual e de classe média.

Em novembro, em Goiânia – GO, um homem de 60 anos matou o filho de 20 anos. Motivo do assassinato: o pai discordava da opção política do filho. O filho tinha posições de esquerda. Não faz sentido. E mais o quê havia lá, além de posições políticas antagônicas? Quando pais e filhos não tiveram visões diferentes de mundo? E não somo uma sociedade de filicidas por isso. Só um caso isolado de um psicopata?

Na noite de fim de ano, em Campina – SP, um homem de 46 anos matou 12 pessoas da família da ex-esposa. Incluindo a ex-esposa e o filho. Motivo dos assassinatos: disputava a guarda do filho com a ex-esposa e havia perdido na Justiça. Deixou uma carta explicando o ato onde misturava misoginia e ódio político característico da extrema-direita. E mais o quê? Separações podem ou não ser traumáticas, mas não acabam em chacinas. Mais um caso isolado de outro psicopata?

Esse mais “o quê” é a chave para entendermos a crise pela qual passa o “macho adulto branco”.

Ocorre que o macho adulto branco sempre no comando é só uma representação. E cada vez menos válida.

Após a revolução sexual dos anos sessenta do século passado que deu às mulheres o poder de decisão sobre sua sexualidade e capacidade reprodutiva; após a tecnologia dispensar a força física nas atividades de produção e privilegiar a capacidade intelectual; após a inserção das mulheres nas escolas e no mercado de trabalho e até nas forças armadas e de segurança interna que deram às mulheres independência econômica, o macho adulto branco deixou de ser importante por si só para manutenção da sociedade. Tornou-se inclusive dispensável.

Após os movimentos de ação afirmativa de negros e homossexuais, o macho adulto branco está deixando de ser a referência do “normal”. Passou a ter de pensar até nas anedotas com que animava suas rodas de amigos.

Mas o macho branco adulto atual – aquele com mais de 35 anos – ainda se espelha muito na figura do seus pais. E esses ainda refletiam a sociedade anterior à revolução sexual e social no Brasil – “um mundo onde cada um sabia o seu lugar”.

O macho branco adulto atual é um ser em crise. Anacrônico e deslocado. Rebaixado em seus status social. É um frustrado e um inseguro que se transformou em um “pote até aqui de mágoas” pronto a transbordar. Bastava algo que justifique sua revolta contra “tudo isso que está aí”.

E essa justificativa veio através da instrumentalização da sua frustração na forma do anti-esquerdismo.

Por que o anti-esquerdismo?

Porque foi a esquerda que modernamente encampou as lutas das mulheres, dos homossexuais, dos negros e sua representação como pobres.

Fora Dilma

Não é difícil perceber o porquê do ódio associado aos governos Dilma.

Mas é interessante notar-se que o macho adulto branco foi também arregimentado.

Quando das domingueiras paulistanas que apoiavam o impeachment da presidente Dilma, o jornal Folha de São Paulo traçou o perfil dos participantes:  57% eram homens – na população são 48,6% – 77% tinham mais de 36 anos e 40% tinham mais de 50 anos; 63% tinham renda de mais de 5 salários mínimo e 13% tinham renda acima de 20 salários mínimos e 77% se declararam brancos.

fora dilma

Alguma dúvida do grau de ódio e intolerância exercidos em tais domingueiras?

forca

Tais domingueiras eram eventos de massa com marketing e público alvo bem definidos. E recursos financeiros para planejamento, divulgação e realização. Quem os financiava e por que se davam no entorno da FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, é um mistério ainda a ser revelado.

O estrato da população alvo dessas ações – o macho adulto branco e “simpatizantes”– foi e continua sendo submetido a um experimento de dominação e manipulação cultural e ideológica que só encontra paralelo no nazismo.

Foi lhe dado um inimigo que seja responsabilizado por todos os seus fracassos e frustrações. E o ódio e intolerância decorrentes foram devidamente justificados. Seriam resultados da revolta dos “homens de bem” contra uma sociedade corrupta. O autoengano é uma poderosa ferramenta de persuasão e convencimento.

Pouco importa se a realidade o negue. Aceitar a realidade seria aceitar seu novo papel na sociedade e este é menor, na sua visão.

Seus heróis não se submetem a nada – são o próprio poder salvador e conservador.

o-exterminador

A crise do macho branco adulto no comando

Sob tal nível de pressão, o macho branco adulto é um ser em crise. Rebaixado em seu status social, frustrado e inseguro – mas convencido de que sua missão é salvar a nação – a violência foi sua reposta.

Inicialmente a violência praticada contra indivíduos associados com a esquerda – foi saudado como alguém com consciência política. Agora a violência praticada contra a própria família. Essa não encontra saudações – mas uma hipócrita compreensão.

O macho branco adulto é mais um dos problemas que esta Nação tem de resolver em seu processo civilizatório.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gerais e Poesia

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