12 de mai de 2018

Ciro não é Lula

Reproduzo abaixo o excelente texto de André Singer, publicado hoje, sobre a candidatura de Ciro Gomes. Para quem lembrar que Ciro está, à sua maneira, reproduzindo o caminho lulista, vale uma reflexão: Ciro não é Lula. Não tem a história, nem a liderança, nem a credibilidade de Lula. Se a reedição do pacto lulista com Lula já é uma opção fadada ao fracasso, na conjuntura pós-golpe, com Ciro é pior ainda. Ao que me parece, com as elites irredutíveis na sua decisão de manter Lula encarcerado e fora da disputa, Ciro está lançando suas pontes para se tornar, ele próprio, a opção de normalização do golpe.

As elucubrações acima são minha, não do André. Abaixo, o texto dele.



Para onde vai Ciro?

André Singer

A filiação do empresário Benjamin Steinbruch ao Progressistas (antigo PP), noticiada nesta semana, de modo a poder se tornar vice na chapa de Ciro Gomes (Partido Democrático Trabalhista, PDT) à Presidência da República, expressa as ambiguidades que cercam a candidatura do ex-governador cearense.

Embora se trate, ainda, de balão de ensaio, a articulação existe. O irmão do candidato, Cid Gomes, um dos coordenadores da pré-campanha, considerou “excelente” o nome do industrial. O presidente da agremiação brizolista, Carlos Lupi, declarou que é “o que se quer de um vice”.

O dono da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional) filiou-se, sem alarde, ao partido de Paulo Maluf às vésperas de se encerrar o prazo legal que permitiria candidatar-se.

De acordo com as notícias, dois Ciros teriam participado das conversas prévias à filiação: o Gomes e o Nogueira, presidente da sigla malufiana e senador pelo Piauí. No rastro da possível aliança existe a perspectiva de atrair, também, o DEM, com o qual os “progressistas” encontram-se, por ora, comprometidos.

Para quem está surpreso, convém lembrar que Ciro começou a carreira no PDS (ex-Arena), militou por muito tempo no PSDB, por meio do qual chegou a ministro da Fazenda, e passou, mais recentemente, pelo Pros (Partido Republicano da Ordem Social).

Embora crítico contumaz da aliança estabelecida pelo PT com o PMDB, sobretudo no segundo mandato de Lula, o político cearense nunca deixou de cultivar os velhos contatos conservadores. Manteve a simpatia do conterrâneo Tasso Jereissati, mesmo depois de deixar o PSDB, e cuidou de antigas pontes estabelecidas com o PFL (hoje, DEM), que o apoiou a presidente em 2002.

Depois da reeleição de Dilma, Ciro engajou-se na criação de uma frente parlamentar envolvendo forças conservadoras para substituir o papel chave do peemedebismo no governo.

A empreitada resultou em rotundo fracasso. Eduardo Cunha galgou a Presidência da Câmara e trouxe a guilhotina do impeachment para o centro da cena. Mas o líder pedetista parece continuar a crer que é possível contornar o PMDB, buscando alianças à direita dos seguidores de Temer (lembrar que foi uma senadora “progressista” que elogiou “levantar o relho” contra a caravana de Lula no Sul).

O pragmatismo de Ciro é compreensível. Trata-se de um político profissional disposto a fazer o necessário para ganhar. Atrair um grande capitão de indústria, como fez Lula com José Alencar, soma. Do ponto de vista da esquerda, entretanto, tais manobras complicam a formação de um programa comum.

4 comentários:

  1. Os golpistas tentaram emplacar Huck, Joaquim Barbosa e outros. Não deu. Eles precisavam de um candidato de direita com verniz de esquerda. Ciro será o candidato dos golpistas.
    Nossa esquerda, em sua maioria, é míope e corre a apoiá-lo. Queriam "virar a página do golpe". Agora querem virar a página de Lula. A base do PT não deixará que isso aconteça.

    ResponderExcluir
  2. Ciro é o nosso Macron tupiniquim. Da mesma forma o Haddad no PT.

    ResponderExcluir

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.