29 de mai de 2018

Ciro é candidato a déspota esclarecido


Ouvi agora a entrevista do Ciro Gomes no Roda Viva. É o mesmo de sempre. Uma agenda de esquerda com uma retórica bem convincente, boas propostas, disposição para enfrentamentos estratégicos. Ainda bem que temos um candidato que irá certamente enriquecer o processo eleitoral. Ele e Boulos farão o debate de esquerda fluir para além do PT. Será bem mais equilibrada essa campanha.

A mesma de sempre é também sua necessidade em se separar do PT, de se afastar. Em toda crítica pontual o PT é citado, nos elogios a políticas públicas criadas pelo PT, o PT é sonegado. Faz parte do jogo. Além disso ele é extremamente leviano, principalmente com Dilma. Com Lula também, mas com ela em especial. Sempre quando ele a cita, mente (agora incluiu nessa linha leviana a questão Cid e Cunha). Obviamente ele sabe que isso agrada aos entrevistadores e ao Centro como um todo. Para essa militância que me acompanha, é algo quase inegociável.

Só que boa parte desses argumentos levianos, muitas vezes machistas, se confunde com sua própria arrogância. Ele sabe, ele fez, ele pensou, ele pesquisou, ele foi a Portugal três vezes estudar o que está no Google, ele isso, ele aquilo, ele faz e acontece. Tenho muito medo desse tipo de gente, que de tantas certezas afasta quem realmente é do ramo, as lideranças setoriais. E é essa arrogância, é essa leviandade que vai lhe criar problemas na campanha e em um possível governo. Repare que nesse ponto, ele é o anti-Lula.

Ciro é candidato a déspota esclarecido. Acredita, apesar da retórica em contrário, que vai governar com um congresso amigo, que vai lhe tratar como um estadista, uma imprensa subalterna, governadores alienados de suas responsabilidades, um mercado dócil. Seria tudo retórica natural de um candidato (lembram do 'falta de vontade política' de Lula?), se não houvesse antes dele a experiência petista, que ele parece ignorar ou, em muitos casos, fingir que foi aleatória. Quando os entrevistadores o provocam para falar do PT, se faz de inocente o "sabe tudo". Afinal, se ele discutir seriamente o legado dos governos do PT, corre o risco de sair do necessário simplismo eleitoral com que trata os temas.

"Eu não sou Dilma", ele adora dizer. "Ela é um produto de Lula, não é do ramo", ele tem prazer em declarar.

Ficamos aqui nas redes tratando da "natureza do PT" (por ele sempre citada) e da "natureza do Ciro" (por ele sempre suprimida). Não há muitas chances dessas "naturezas" se encontrarem de forma orgânica. Não há fisiologismo nessa relação. Reparem que ele chegou a descartar o PT num possível segundo turno.

O PT precisa de um candidato para defender seu legado, sua "natureza", porque apesar de ser um aliado no campo da esquerda, eu não duvido, Ciro não vai defender.

(Só pra lembrar, Dilma caiu porque não aceitou a chantagem do Cunha, do PMDB, e porque os últimos dois partidos de Ciro, PDT e PSB, votaram contra ela. Realmente, Ciro não é Dilma. Azar o dele.)

Alexandre Porto
No Esquerda Caviar

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