4 de mai de 2018

A política de alianças do PT

Leio que o PT pretende lançar a presidente Dilma Rousseff como candidata a deputada federal, em Minas Gerais, para puxar uma grande bancada. Faz sentido.

Leio em seguida que o PT mineiro tenta fazer uma coligação com o PMDB. Então Dilma vai ser candidata para puxar uma bancada... do PMDB? Não faz nenhum sentido.

(Não custa lembrar que todos os seis deputados federais do PMDB mineiro apoiaram o golpe.)

É difícil sustentar o discurso - correto e amparado nos fatos - de que houve um golpe e, ao mesmo tempo, continuar a fazer política como se tudo estivesse normal. A política de alianças do PT já era problemática antes. Seguir no mesmo caminho agora é indefensável.

A estratégia era sacrificar tudo para garantir a presidência, incluindo das alianças para os governos estaduais ao financiamento das candidaturas para o legislativo. Não é à toa que em 2014 se elegeu o Congresso mais conservador da história. A fragilização do partido e as concessões arrancadas pelos aliados fizeram o PT eleger 18 deputados federais a menos do que na eleição anterior.

A derrubada de Dilma mostrou quão errada é a percepção de que a presidência é o único cargo que importa. E agora nem essa justificativa existe para sustentar um "pragmatismo" eleitoral tão dilatado. O PT age como sendo uma confederação de mandatos em busca da reeleição.

Eleger uma sólida bancada de esquerda para a Câmara dos Deputados é o resultado mais importante, para sustentar a luta contra o golpe, que pode emergir da disputa de outubro. Mas não dá para votar num bom candidato se a coligação inclui a direita.

Em 2014, aqui no Distrito Federal, o PT elegeu Erika Kokay, uma deputada capaz e combativa, sem dúvida uma das melhores parlamentares da atual legislatura. Mas junto sua coligação elegeu Ronaldo Fonseca, que é talvez a voz mais reacionária de todo o Congresso, um sujeito cujo lema de campanha era "restaurar a soberania de Deus", a encarnação mais perfeita desse oxímoro que infelizmente é tão comum na politica brasileira, o oportunista fundamentalista.

Há outro complicador, que é a vigência da cláusula de barreira - o partido que não alcançar um percentual arbitrariamente definido de votos perde acesso ao fundo partidário e à propaganda gratuita no rádio e na TV. Em 2018, o partido deve obter no mínimo 1,5% dos votos válidos para a Câmara dos Deputados, chegando a 1% em pelo menos nove unidades da federação. Ou então eleger ao menos um deputado federal em pelo menos nove UFs.

A eleição de uma sólida bancada de esquerda na Câmara inclui o objetivo de garantir que o PSOL ultrapasse a cláusula de barreira e mantenha existência legal plena.

No DF, uma análise fria revela que é muito implausível que o PSOL eleja alguém para o Congresso. São só oito vagas e o partido é pequeno. Por outro lado, exatamente pelo fato de que o eleitorado é pequeno, o DF se credencia para ser uma das UFs que preenchem o mínimo de 1% dos votos válidos para Câmara.

Ou seja: posso votar no PSOL para a Câmara, sabendo que não elejo ninguém mas contribuindo para a superação da cláusula de barreira. Ou posso trabalhar pela reeleição de Erika Kokay, cujo mandato precisa ser renovado.

Uma decisão que, espero, será difícil. Afinal, ela só ficará fácil se o PT daqui decidir reeditar alianças esdrúxulas como na eleição passada. Votar numa candidata como Kokay para ajudar a eleger alguém da direita decididamente não está nos meus planos.

Luis Felipe Miguel

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