14 de mai de 2018

A indecência da divulgação de brigas de casal


A violência masculina é uma doença social que precisa ser extirpada. A maior força do homem e, em muitos casos, a dependência financeira da mulher, abrem espaço para toda sorte de abusos.

A Lei Maria da Penha combate apenas os abusos mais evidentes. Mas cada um de nós conhece dezenas de mulheres cujas carreiras foram comprometidas pela submissão ao macho alfa, pela herança imemorial de se sujeitar ao homem. Não há tortura maior do que um ambiente doméstico em permanente tensão.

Aliás, um teste que tenho feito com esposas profissionalmente bem-sucedidas, é como se dá a relação em casa com o marido não tão bem-sucedido. Invariavelmente, a repressão se dá com ele chamando a atenção para os pequenos deslizes domésticos, como se fosse de responsabilidade única da esposa.

Um dos grandes avanços do Bolsa Família, aliás, foi tornar a mulher a titular da conta. Foi o que garantiu a estabilidade aos filhos.

Mas tome-se o caso do advogado Roberto Caldas.

Sua esposa passou seis anos grampeando o marido. Seis anos! Como planejadora dos grampos, ela sabia da gravação, ele não. Portanto, sua fala é interpretada, a dele é espontânea. O objetivo foi chantagear o marido para obter um bom acordo de separação.

Quem grava seleciona as falas, possivelmente edita. Não se trata de machismo ou feminismo, mas de uma pessoa que grampeia e outra que é grampeada. Se o autor dos grampos fosse o marido, ele também montaria a encenação para provocar as reações de seu interesse

A possibilidade de manipulação é ampla. Basta @ espos@ provocar o cara metade até obter declarações e reações iradas, e divulgar apenas a parte del@. Bastaria dramatizar um empurrão, para transformar em prova de agressão pesada. Principalmente quando as gravações são feitas como instrumento de chantagem, em uma disputa financeira.

A parte deplorável do episódio é o destaque dado pela mídia, convalidando a chantagem, expondo a família e atiçando a bisbilhotice doentia dos leitores, nesses tempos de perda de privacidade.

A divulgação das gravações foi uma decisão abjeta, típica de uma mídia que perdeu qualquer noção de decência.

Luís Nassif
No GGN

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